terça-feira, 10 de julho de 2012

Carta aos Povo de Deus na Amazônia (no Brasil e mundo)


Irmãs e irmãos caríssimos em Cristo Jesus,
Povo de Deus na Amazônia,

“Não tenha medo, cotinue a falar e não se cale, pois eu estou contigo“ (At 18,9)

“Cristo aponta para a Amazônia“ lembrava o Papa Paulo VI aos bispos da Amazônia por ocasião de seu encontro em Santarém, de 24 a 30 de maio de 1972, marco indelével na história da Igreja desta grande região brasileira, habitada por povos de culturas e tradições tão diferenciadas do outro Brasil.

Expressamos nossa gratidão ao Deus da vida porque nestes 40 anos, não obstante nossas fragilidades, nossa Igreja tem anunciado Jesus Cristo ressuscitado, caminho, verdade e vida e tem marcado presença junto ao povo sofrido, sendo muitas vezes a voz dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros e migrantes, nas periferias e em novos ambientes do centros urbanos animando as comunidades na reivindicação do respeito pela sua história e religiosidade. É também a vida destes povos, seu modo de viver, sua simplicidade, seu protagonismo, sua fé que nos encantam! Não faltou o testemunho de entrega da própria vida até o derramamento de sangue. Este testemunho nos anima, nos encoraja e nos fortalece. São também protagonistas religiosos e religiosas, pastorais, movimentos e serviços que tem sido uma força viva e atuante na realidade das nossas comunidades.
Constatamos avanços no campo social e político, com novos organismos de participação, conselhos de políticas públicas, participação nas campanhas por leis mais justas, aumento da consciência e engajamento na questão ecológica. No campo econômico, cresce o consumo e o poder aquisitvo embora nem sempre acompanhado do aumento da qualidade de vida. A vida na Amazônia continua sofrida.
Há séculos os povos da Amazônia gemem e choram sob o peso de um modelo de desenvolvimento que os oprime e exclui do “banquete da vida, para o qual todos os homens e mulheres são igualmente convidados por Deus“ (SRS 39). A Igreja ouve os gritos, às vezes desesperados, e se identifica com o seu clamor, conhece o seu sofrimento. Mais ainda, a Igreja declara que “as alegrias e esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e angustias dos discípulos de Cristo“ (cf. GS 1).

As decisões sobre o desenvolvimento da Amazônia sempre são tomadas a partir de fora e visam unica e exclusivamente a exploração das riquezas naturais sem levar em conta as legítimas aspirações dos povos desta região a uma verdadeira justiça social. Quando Paulo VI declarava que “o desenvolvimento é o novo nome da paz“ (PP 87), não pensava num “crescimentismo“ meramente econômico, unilateral e excludente, mas convidava a todos os povos da terra a empenhar-se por um mundo justo, fraterno e solidário, na perspectiva do Reino que Jesus veio a anunciar “para que todos tenham vida“ (Jo 10,10).

Como quarenta anos atrás, a Amazônia continua sendo considerada a “colônia“, mesmo que abranja mais da metade do território nacional. Para a metrópole – Brasília, o sudeste e o sul do País – Amazônia é apenas “província“, primeiro província madeireira e mineradora, depois a última fronteira agrícola no intuito de expandir o agronegócio até os confins deste delicado e complexo ecossistema, único em todo o planeta. De uns anos para cá a “província“ recebeu mais um rótulo, sem dúvida o mais desastroso, pois implicará a sua destruição programada, haja visto o número de hidrelétricas projetadas para os próximos anos: a Amazônia é declarada a província “energética“ do País. Sob a alegação de gerar energia limpa se esconde a verdade de que mais florestas sucumbirão, mais áreas, inclusive urbanas, serão inundadas, milhares de famílias serão expulsas de suas terras ancestrais, mais aldeias indígenas diretamente afetadas, mais lagos artificiais, podres e mortos, produzirão gases letais e se tornarão viveiro propício para todo tipo de pragas e geradores de doenças endêmicas.

A história da Amazônia revela que foi sempre uma minoria que lucrava às custas da pobreza da maioria e da depredação inescrupulosa das riquezas naturais da região, dádiva divina para os povos que aqui vivem há milênios e os migrantes que chegaram ao longo dos séculos passados.

Santarém 1972: Encarnação na Realidade e Evangelização Libertadora

Como já em 1972, os bispos reunidos em Santarém de 2 a 6 de julho de 2012 não detectam apenas os mecanismos perniciosos responsáveis pela miséria dos povos e a devastação das florestas, mas os denunciam como responsáveis de gerar “ricos cada vez mais ricos às custas e pobres cada vez mais pobres“ (João Paulo II, Discurso inaugural de Puebla, 28 de janeiro de 1979) e de um meio-ambiente cada vez mais deteriorado. O “lar“ (em grego “oikos“ – daí a palavra “ecologia“) que Deus criou para todos nós não pode ser explorado até a exaustão, mas exige cuidado, zelo, amor, também em vista das futuras gerações. Os cientistas alertam sempre mais que a devastação da Amazônia terá consequências irreversíveis para o clima do planeta e se torna assim uma ameaça à vida e sobrevivência de toda a humanidade.

Em 1972 os bispos da Amazônia já identificaram graves feridas neste mundo de selvas e águas que atingiram violentamente os povos originários e tradicionais da região. Como 40 anos atrás, também hoje os bispos se entendem como mensageiros dos povos da Amazônia, profetas que vivem numa grande proximidade com Deus e ao mesmo tempo sintonizados com os acontecimentos históricos, homens de fé que „vêm da grande tribulação“ (Ap 7,14). Nestes nossos tempos, as feridas se tornaram chagas abertas que perpassam e sangram a Amazônia de fora a fora, causando cada dia mais vítimas fatais.

As prioridades da ação pastoral e evangelizadora apontadas em 1972 continuam atualíssimas. Até hoje uma formação adequada à essa região para ministros ordenados, mas também para leigas e leigos que dirigem as comunidades, é fundamental. Importa encarnar a Igreja no chão concreto da Amazônia. Quem exerce um ministério, ordenado ou não, participa do pastoreio de Jesus e está a serviço de seus irmãos e irmãs e quer exercê-lo na simplicidade do lava-pés e numa proximidade fraterna ao Povo de Deus.

As Comunidades Cristãs ou Eclesiais de Base tão recomendadas no Documento Santarém 1972 são expressão de uma Igreja viva e comprometida. Como os bispos já afirmaram em Manaus (2007), elas constituem um dom especial que Deus concedeu à Igreja na Amazônia. São obra do Espírito Santo. O que o Documento de Aparecida afirma, aplica-se de modo especial à Amazônia. As CEBs, diz o documento, “têm sido escolas que têm ajudado a formar cristãos comprometidos com sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos de seus membros” (DAp 178). As CEB’s são também uma resposta válida e empolgante para o mundo urbano como resposta ao individualismo e a superficialidade do consumismo. Nas CEBs se vive a dimensão samaritana da compaixão ativa e interajuda, de um coração e mãos abertas para quem sofre ou passa necessidade, mas também a dimensão profética de anunciar continuamente a utopia do Reino e, ao mesmo tempo, denunciar todos os mecanismos e estruturas que impedem a chegada do Reino. É exatamente esta dimensão profética que gerou as e os mártires da Amazônia. As CEBs constituem-se em família das famílias onde todos se conhecem e querem bem, mas são também centros de oração e meditação da Palavra de Deus para nutrir a mística profunda da vivência na proximidade de Deus. Ele mesmo se revelou como um Deus-conosco e assegurou aos profetas, apóstolos, discípulas e discípulos: “Eu estarei contigo“ (cf. Ex 3,14; Js 1,9; Jr 1,19; At 18,9-10). Afinal “se Deus está conosco, quem será contra nós“ (Rom 8,31).

Santarém 1972 assume a questão indígena como causa de toda a Igreja na Amazônia. Lembra que no mesmo ano por iniciativa dos bispos, mormente dos da Amazônia, foi fundado o Conselho Indigenista Missionário – Cimi.
Os bispos talvez não imaginavam quarenta anos atrás o imenso apoio que sua decisão significava aos direitos e à sobrevivência de dezenas de povos indígenas na região amazônica que, sem o empenho intransigente da Igreja, teriam desaparecido. A presença solidária e o apoio incondicional à luta por seus direitos foi fundamental para que hoje a maioria dos povos indígenas da região tenha suas terras demarcadas. Foi também de enorme importância gerar uma consciência de respeito e valorização dos povos, suas culturas e seus projetos de “Bem Viver“. Dezenas de povos saíram do silêncio em que foram forçados a se ocultar para sobreviver. Ressurgiram das cinzas e estão lutando pelos seus direitos e suas terras. Alem disso a atuação corajosa dos missionários, selando seu compromisso através do sangue derramado pela vida desses povos, propiciou o surgimento de articulações e organizações dos povos indígenas, essenciais para a conquista de seus direitos e sua autonomia.
Os riscos de extermínio de vários grupos indígenas em estado de isolamento voluntário, exige um renovado compromisso com a sobrevivência de milhares de vidas e povos ameaçados de extinção.

Na perseverança salvareis vossas vidas (Lc 21,19)

Deparamo-nos hoje com uma verdadeira enxurrada de grandes projetos que os Governos querem implantar, seguindo a estratégia do “fato consumado“. Não há discussão, nem consulta popular que merecesse este nome. Decide-se e executa-se. Oponentes são criminalizados ou taxados de inimigos do progresso. Também os ribeirinhos, seringueiros, quilombolas, e outros povos tradicionais sofrem pela falta de reconhecimento suas terras.
A ética na política prometida à nação e esperada pelo povo brasileiro cedeu lugar a uma sequencia ininterrupta de escândalos de corrupção em todos os níveis governamentais.
Somado a estes desafios nos deparamos com a emergência do fenômeno urbano, com o inchaço nas periferias das grandes cidade, exploração sexual, tráfico de pessoas e de drogas, violência. Em vez de investimentos em políticas públicas de saneamento básico, saúde, educação e segurança, o Estado prioriza políticas compensatórias, apoia e incentiva o grande capital, investe na construção de estádios monumentais e outras obras faraônicas.
“Podem roubar-nos tudo, menos a esperança” (D. Pedro Casaldáliga). No caminho de “Santarém”, novamente nos lançamos nas estradas e rios, nas aldeias e quilombos, nos interiores e periferias das cidades, nos grandes centros urbanos desta imensa Amazônia, abraçando a Missão que nos foi confiada, comprometidos com toda a criação e na busca de sermos autênticas comunidades de fé alimentadas pela Palavra e pela Eucaristia. Nesta hora da história o nosso coração às vezes, se angustia por causa de tantas dificuldades que nos desafiam, aparentemente insuperáveis; no entanto, continuamos a ser chamados e enviados como missionários e profetas para alimentar a esperança, como âncora firme e segura (cf Hb 6,19), de um mundo novo, inaugurado por Jesus Cristo Crucificado e Ressuscitado..

Memória e Compromisso - Conclusões do encontro de Santarém 2012


Memória e Compromisso
Conclusões do encontro de Santarém 2012

Introdução

“Levantaram-se, voltaram e contaram
o que tinha acontecido no caminho”
(Lc 24,33.35)


Na celebração dos 40 anos do Encontro de Santarém, nós bispos, representantes de presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas e cristãos leigos e leigas das Igrejas da Amazônia, nos reunimos às margens do Tapajós, na mesma cidade, para dar Graças a Deus por esta caminhada e renovar nosso compromisso profético e missionário de anunciar o Evangelho de Jesus Cristo, para que n’Ele nossos povos tenham vida! Este 10º Encontro se apresenta como um passo significativo na caminhada de 60 anos, desde o 1º Encontro em Manaus (1952) e, iluminado pelos 50 anos do Concílio Vaticano II, lança o olhar para frente, como o profeta que supera o cansaço  e prossegue sua missão (cf. I Rs 19,7).
Louvamos e agradecemos ao Deus da vida porque nestes 40 anos, não obstante nossas fragilidades, nossa Igreja tem anunciado Jesus Cristo ressuscitado, caminho, verdade e vida. Ela tem marcado presença junto ao povo sofrido, sendo muitas vezes a voz dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, seringueiros e migrantes, nas periferias e em novos ambientes dos centros urbanos animando as comunidades na reivindicação do respeito pela sua história e religiosidade. A vida destes povos, seu modo de viver, sua simplicidade, seu protagonismo, sua fé nos encantam! Não faltou o testemunho de entrega da própria vida até o derramamento de sangue. Este testemunho nos anima, nos encoraja e nos fortalece.
Nossos olhos,  contemplam uma realidade que ainda permanece desafiadora e ameaçadora. O que se apresenta como caos no campo social, político, econômico e cultural é, na verdade, fruto de projetos ambiciosos e bem articulados que querem avançar a qualquer custo, esmagando toda forma de vida que se mostre como empecilho ou resistência. Não temos outra Palavra senão o juízo de Deus sobre todas estas coisas. Queremos continuar respondendo profeticamente aos desafios da nossa história e ser fiéis à missão que nos foi confiada pelo Senhor.
. Sentimos a necessidade de uma conversão pessoal e de nossas estruturas. A transformação libertadora e salvadora da realidade começa com a nossa vida cristã e com a renovação das nossas comunidades.
Neste encontro, emerge com mais clareza a urgência de evangelizar a partir do encontro com Jesus Cristo Verbo encarnado, profeta e missionário do Pai, tendo o Reino como horizonte e de dinamizar e formar comunidades eclesiais vivas, proféticas e missionárias, como as CEB’s e outras formas de vivência comunitária, para que a Igreja “comunidade de comunidades” seja testemunho de comunhão.
“Somos conscientes de que nunca será possível a evangelização sem a ação do Espírito Santo” (EN 74). Ele nos fará conservar na Amazônia a alegria e o entusiasmo para evangelizar, mesmo entre lágrimas e perseguições”. Necessitamos na Amazônia de um novo Pentecostes que nos transforme profundamente.
  Diante dos desafios sociais, políticos e econômicos, culturais, religiosos e eclesiais da realidade amazônica, decidimos fortalecer o compromisso profético de transformação  e reafirmar o projeto de formação inspirado na espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo que convoca a Igreja para uma profunda conversão pastoral (cf. DA 360-365; 170-175).
Nesta caminhada não estamos sozinhos, o Cristo que aponta para Amazônia, arma a sua tenda entre nós (cf Jo 1,14).

01. Quarenta anos do Documento de Santarém: intuições, avanços e esperanças

UMA IGREJA DE ROSTO AMAZÔNICO

Desde 1952 nossos pastores mantêm a “tradição” de se encontrar para analisar e tomar posição em relação à realidade da Amazônia, manifestando espírito de unidade e colegialidade, além da responsabilidade comum diante dos graves problemas da região.
Um dos encontros mais significativos e marcantes dessa caminhada histórica foi o de Santarém, realizado em 1972, que gerou um documento cujas orientações iluminaram a vida e a missão da Igreja regional. Encarnação na realidade e evangelização libertadora foram as diretrizes fundantes de um novo rosto da Igreja que passou a assumir opções marcantes dentro de um contexto de exclusão e marginalização; nessas diretrizes e opções se inscreve uma identificação com a missão salvífica de nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao longo desses anos, além de influenciar as decisões das assembleias regionais, a formação dos agentes de pastoral, sobretudo a dos presbíteros e também dos leigos e leigas, alguns acontecimentos receberam de Santarém inspiração ou motivação na sua realização: o Projeto Igrejas-Irmãs, o CIMI  e a CPT, as diversas ações pastorais das dioceses/prelazias, o Congresso Eucarístico de Manaus (1975), o encontro de 1990 sobre Ecologia e rosto da Igreja na Amazônia, a criação da Comissão Episcopal Especial para a Amazônia da CNBB, alguns projetos da CRB,a escolha do tema da Campanha da Fraternidade de 2007 sobre a Amazônia: “Vida e Missão neste chão”.
Após Santarém, outros encontros se realizaram, destacando-se os de Manaus em 1997 e 2007 que expressaram e ratificaram a caminhada feita, aprofundaram e atualizaram suas intuições.
Como fruto da ação do Espírito Santo nesse processo, surge o rosto de uma Igreja amazônica:
·      Uma Igreja solidária-samaritana, caminhando com o povo mais sofrido, especialmente índios, agricultores, ribeirinhos... Bispos, padres, agentes pastorais, religiosas e religiosos fizeram de seu trabalho pastoral-evangelizador anúncio da Boa Nova aos pobres e denúncia das condições de miséria e exclusão social.
·      Uma Igreja ministerial e missionária, favorecendo o protagonismo dos leigos e leigas e investindo mais na formação dos agentes de pastoral locais, com uma intensa participação também da Vida Religiosa consagrada;
·      Uma Igreja cuja expressão maior foram as comunidades eclesiais de base: sua organização e missão nos mais distantes rincões dessa Amazônia tornaram a Igreja mais presente e mais próxima da vida do povo.
·      Uma Igreja irmã da criação: que considera como parte de sua opção fundamental a salvaguarda de toda criação e chama todos os homens e mulheres a cuidarem do Planeta como casa comum.
Na Amazônia a Igreja realizou seu protagonismo de ser comunidade de comunidades a partir     do anúncio da Palavra pela missão descentralizada e testemunhada, o que gerou profecia e martírio.
Não obstante os desafios e limites, a Igreja amazônica vive e cresce com características próprias, enraizada na sabedoria tradicional e na religiosidade popular, fortalecida e ungida pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, que durante muito tempo alimentaram e continuam a manter viva a espiritualidade dos povos das florestas, das águas, das estradas e cidades. Gente que enfrenta com alegria as dificuldades das distâncias e da falta de comunicações, a escassez de recursos e oportunidades, para encontrar-se e oferecer sua participação a fim de que este pedaço de chão seja efetivamente "chão da partilha fraterna, pátria solidária de povos e culturas, casa de muitos irmãos e irmãs. Anúncio de esperança e de paz para os povos da Amazônia e de todo o Brasil".


02. O compromisso profético de transformação que considera os desafios sócio-político-econômicos da realidade amazônica

“Não tenhas medo (...)
Nesta cidade há um povo numeroso que me pertence”
(At 18,9)

Após 40 anos de caminhada como Igreja, seguindo as intuições e orientações do Documento de Santarém (Linhas Prioritárias para a Amazônia) constatamos que,  a realidade da Amazônia, mesmo com alguns avanços, em muitos aspectos não apresenta mudança e sim agravamento, o que indica que o nosso povo continua vítima de uma tirania política e econômica. Antigos e novos problemas afetam a região, deixando à margem e afastados de todos os benefícios que são gerados pelos projetos econômicos, milhares de amazônidas que, expulsos de suas terras ou atraídos pelas promessas ilusórias de uma vida melhor, passam a vagar de cidade em cidade buscando viver com dignidade.

Queremos  ser uma Igreja pobre junto aos pobres, solidária com os excluídos e abandonados da Amazônia, também em momento de enfrentamento. Buscaremos aprofundar de modo sistemático a compreensão das causas e consequências dos mecanismos que geram miséria e exclusão social e estimular a articulação de uma rede de formadores de opinião apoiados pela Comissão Episcopal para a Amazônia para análise da realidade em nível regional e diocesano, além dos assessores locais.

Diante dos desafios abaixo destacados, assumimos compromissos que revelam o rosto solidário, profético e missionário da Igreja frente aos apelos de Deus presentes na vida do nosso povo. :

1.     Defesa de todas as formas de vida – acima de tudo da vida humana - da bio e sócio diversidade e da sustentabilidade a partir das culturas indígenas, quilombolas e ribeirinhas e dos projetos de bem viver de nossos povos.
1.1. Assumir e implantar as comissões em defesa da vida;
1.2. Apoiar alternativas agro-ecológicas e energéticas de produção adaptadas ao bioma,  descentralizadas e diversificadas, que protejam as florestas e os rios;
1.3. Defender o território e o habitat dos povos da Amazônia respeitando a vocação de cada microrregião lutando para garantir a sobrevivência das futuras gerações;

2.     Avanços do agronegócio, da mineração, das hidroelétricas, da nova fronteira agrícola e aumento de conflitos na luta pela terra.
2.1. Denunciar os grandes projetos que estão destruindo as florestas e se apropriando das terras dos povos tradicionais;
2.2. Disponibilizar, através da CNBB, um serviço de informação e orientação prática para que as dioceses e prelazias tenham elementos para enfrentar os grandes projetos e suas consequências;
2.3. Orientar, apoiar e fortalecer a organização das comunidades indígenas, quilombolas, rurais e ribeirinhas na defesa de seus direitos, da sua cultura e de seu território.

3.     O fenômeno da Urbanização, as migrações a formação de novas cidades e o inchaço das grandes cidades, aumento do uso das drogas, do narcotráfico, tráfico de armas e a violência.
3.1. Compreender e enfrentar pastoralmente os desafios da cultura urbana nas situações de migrações, drogas, violência, exploração sexual de crianças e adolescentes, tráfico de pessoas e corrupção;
3.2. Realizar seminários na Amazônia para compreender melhor os mecanismos do narcotráfico;
3.3. Fortalecer e apoiar as iniciativas de ajuda às pessoas dependentes do álcool e das drogas.


4.     Ausência do Estado na aplicação de políticas públicas e garantias de direito, porém, com apoio e incentivo ao grande capital; aumento da corrupção nas instâncias e organismos públicos.
4.1. Lutar contra a corrupção e a impunidade nos setores públicos;
4.2. Incentivar a participação nos conselhos paritários de políticas públicas e formar pessoas para esta atuação, com consciência crítica, coragem e exercendo o profetismo;
4.3. Valorizar as Semanas Sociais Brasileiras;
4.4. Reforçar a formação cristã sócio-transformadora dos agentes de pastoral para o exercício da cidadania fundamentada na Doutrina Social da Igreja;
4.5. Articular as Pastorais Sociais, as Comissões de Justiça e Paz, Cáritas e Centros de Defesa dos Direitos Humanos, CIMI e CPT;
4.6. Fortalecer a Pastoral da Criança;
4.7. Utilizar os meios de comunicação social, como a Rede de Notícias da Amazônia, TV Nazaré, rádio, televisão, internet, escolas católicas, para conscientizar, educar, evangelizar;
4.8. Contribuir para a mudança da mentalidade que considera a Amazônia colônia ou periferia do Brasil;
4.9. Denunciar o Estado quando deixa de exercer seu papel moderador impedindo que os fortes esmaguem os fracos ou, pior ainda, quando também se alia à iniciativa privada para executar projetos que destroem o meio ambiente e não respeitam os direitos dos amazônidas.




03. O Projeto de Formação inspirado na Espiritualidade do seguimento de Jesus Cristo que arma sua tenda na Amazônia e que convoca a Igreja para assumir os desafios da realidade religiosa e eclesial

. “Levanta-te, desce e vai com eles sem hesitar,
pois fui eu que os mandei” (At 10,25)

Nestes 40 anos, nos identificamos como uma Igreja encarnada, articulada nas inúmeras comunidades cristãs de base. No encontro de Manaus, ao celebrarmos os 25 anos de Santarém (1997), o documento final “A Igreja se faz carne, e arma sua tenda na Amazônia” apresenta, uma profunda e clara consciência de uma Igreja discípula da Palavra, testemunha do diálogo, servidora e defensora da vida, irmã da criação, que se deixa iluminar por algumas perspectivas evangelizadoras: Inculturação, cidadania, formação e anúncio central da Boa Nova! Dez anos depois, no Encontro de 2007, reafirmamos nossa identidade de Igreja discípula missionária, ministerial, que assume a vida do povo, que se articula na paróquia como rede de comunidades e nas comunidades eclesiais de base.
Em meio aos desafios de hoje, inspirados também pela Conferência de Aparecida (2007) e pelas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (2011-2014) e das urgências ali indicadas, destacamos:

1.       Iniciação Cristã à luz da Palavra de Deus e a Catequese de inspiração catecumenal
1.1. Cuidar para que a Palavra de Deus ocupe o lugar central, através da animação bíblica da vida cristã e da ação evangelizadora;
1.2. Educar para interação fé e vida, que possibilite desde o início a conscientização como pressuposto indispensável a libertação;
1.3. Promover a leitura orante da Bíblia;
1.4. Conduzir ao encontro pessoal com Cristo através dos sacramentos, principalmente da Eucaristia;
1.5. Orientar para que vida sacramental se expresse do compromisso social e comunitário do cristão;
1.6.  Envolver a família como corresponsável do processo de iniciação de iniciação cristã.


2.     Comunidades eclesiais vivas missionárias, proféticas e abertas ao diálogo ecumênico e interreligioso como as CEB’s e outras formas de vivência comunitária.
2.1. Formar e dinamizar comunidades e lideranças missionárias numa pedagogia que considere a vida e a realidade das pessoas dando-lhes atenção e acompanhamentos necessários a fim de que abracem com convicção o seguimento a Jesus Cristo, sendo protagonistas da missão;
2.2. “Formar ministérios adequados às necessidades de nossas comunidades, especialmente o ministério do pastoreio de comunidades, exercido por leigos (as) que sejam servos (as) do povo, abertos (as) ao diálogo e ao trabalho em equipe e que, devidamente preparados (as) assumam, em nome da Igreja a direção pastoral de uma comunidade, sendo por ela sustentados (as)” (Doc. Manaus, 1997, nº 47);
2.3. Assumir a Igreja ministerial que acolhe, valoriza e cria espaço para que os dons e carismas se concretizem através dos leigos, religiosos e presbíteros segundo as características da Amazônia;
2.4. Viver o caminho da Igreja Profética que escuta a Voz de Deus na Palavra Sagrada Escrita e nos gritos do povo e proclama a luz de Deus que denuncia erros e injustiças, apontas luzes e esperanças;
2.5. Cultivar a espiritualidade do seguimento a Jesus Cristo que arma sua tenda na Amazônia, fazendo nascer convicções e tornando-as firmes;
2.6. Valorizar as assembléias e conselhos pastorais como espaço de comunhão, participação e compromisso;
2.7. Capacitar as lideranças para visitas continuadas a famílias e comunidades, especialmente as mais distantes;
2.8. Considerar e fortalecer as diferentes comunidades rurais,  ribeirinhas, das estradas, indígenas, quilombolas e das periferias;
2.9.  Incentivar a presença e a ação dos leigos e leigas em todos os ambientes urbanos para que sejam protagonistas da evangelização;
2.10.                 Promover iniciativas ecumênicas por meio de atividades caritativas e sociais;
2.11.                 Ir ao encontro dos católicos afastados e acolher os que retornam de outras igrejas;
2.12.                 Valorizar as devoções populares iluminando-as com a Palavra.

3.     Formação presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, leigos e leigas para uma Igreja toda ela missionária e ministerial:
3.1. Priorizar e investir em formação permanente (compromisso constante), diversificada (padres, diáconos, leigas/os levando em conta as diferentes atuações do laicato dentro da Igreja e na sociedade), descentralizada e encarnada (a partir da realidade) numa atitude transformadora e libertadora;
3.2. Valorizar e integrar as diferentes experiências de formação dos nossos regionais;
3.3. Aproveitar os recursos tecnológicos, como cursos à distância;
3.4. Fortalecer os centros de formação já existentes (Instituto Pastoral Regional - IPAR, Instituto Regional para a Formação Presbiteral – IRFP, Instituto de Teologia, Pastoral e Ensino Superior - ITEPES, Faculdade Católica de Rondônia, Centro de Cultura e Formação Cristã –CCFC, Faculdade Diocesana São José – (FADISI);
3.5. Promover o intercâmbio entre Institutos, casas de formação e escolas de lideranças;
3.6. Criar equipes itinerantes de formação;
3.7. Estimular planos de formação integral, processual e inculturada;
3.8. Formar presbíteros despojados, simples que não busquem auto-promoção, que sejam missionários em maior sintonia e contato com as comunidades;
3.9. Formar Diáconos Permanentes considerando as orientações da CNBB;
3.10.                 Criar um Instituto de Pastoral para o Noroeste;
3.11.                 Realizar experiências missionárias com os seminaristas, religiosos e leigos;
3.12.                 Fortalecer as escolas de fé e cidadania, bíblicas e teologicas nas dioceses e prelazias.

4.     Opção pela evangelização da juventude
4.1. Fortalecer as diversas expressões da juventude (grupos, PJs, movimentos);
4.2. Apoiar o setor juventude como articulador da Pastoral Juvenil em nossas dioceses e prelazias;
4.3. Articular a Pastoral Juvenil com Pastoral da Educação e Universitária;
4.4. Preparar pessoas para o acompanhamento dos jovens;
4.5.  Ajudar na formação de professores católicos para o ensino religioso.

5.     Sustentabilidade econômica
5.1. Melhorar e motivar a pastoral do dízimo como instrumento principal de auto-sustentação;
5.2. Assumir a Campanha de Solidariedade e Partilha de todas as Igrejas do Brasil em vista da formação de seminaristas;
5.3. Reforçar as Campanhas de Evangelização, CF e Missionária;


Conclusão
“Eu vos disse estas coisas para que, em mim, tenhais paz.
No mundo tereis aflições, mas tende coragem!
Eu venci o mundo” (Jo 16,33)

Somos uma Igreja encarnada que peregrina na história humana. A partir do nosso chão amazônico renovamos o compromisso de partilhar “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem” (cf. GS 1). Cada vez mais percebemos a urgência de sermos sinais da novidade evangélica, muitas vezes impelidos a andar na contramão do que convencionalmente é aceito; na rejeição das alianças com qualquer tipo de poder que oprima e comprometa a liberdade dos filhos filhas de Deus. O importante, para nós, é manter a fidelidade no seguimento a Jesus Cristo e ao seu projeto de vida nova.
A profecia nos impele a apresentar a Boa Nova de Jesus como alternativa diante de uma sociedade de consumo. À economia do mercado, dominada pela ganância do capital, respondemos com a busca de uma economia solidária e fraterna. Aos encantos do sucesso e das aparências, respondemos com a simplicidade e a beleza do nosso povo, mistura de indígenas e de migrantes. À tentação de uma religiosidade individualista, alienante e triunfalista, fundada na prosperidade egoísta, respondemos com a proposta das pequenas comunidades e do seguimento de Jesus, no caminho da iniciação cristã, que se expressa também por meio de nossas devoções, procissões, romarias e círios.
As nossas festas religiosas são frutos da ação do Espírito Santo no coração dos pequenos e são alimentadas pela sabedoria popular, pelas tradições seculares e pelo testemunho de tantos irmãos e irmãs que construíram catedrais, igrejas e capelas nas cidades, nas margens dos rios e das estradas, verdadeiros desbravadores e evangelizadores desta imensa Amazônia. Contemplamos a grandeza de Deus que se revela no agir dos pobres.
No caminho de “Santarém”, novamente nos lançamos nas estradas e rios, nas aldeias e quilombos, nos interiores e periferias das cidades desta imensa Amazônia, abraçando a Missão que nos foi confiada, comprometidos com toda a criação e na busca de sermos autênticas comunidades de fé alimentadas pela Palavra e pela Eucaristia. Nesta hora histórica, o nosso coração, às vezes se angustia com tantas dificuldades, aparentemente insuperáveis, que nos desafiam. No entanto, continuamos a ser chamados e enviados como missionários e profetas para alimentar a esperança de um mundo novo “germe e início” aqui na terra (cf. LG 5)  do Reino da santidade e da graça, da verdade e da vida, da justiça, do amor e da paz (cf. prefácio Festa de Cristo Rei). Este, e somente este, é o Reino de Jesus Cristo, “o mesmo ontem, hoje e sempre” (Hb 13,8).
Confiamos na proteção de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira da Amazônia. A exemplo dos nossos pastores no Encontro de  Santarém, pedimos: “a mão de Cristo que aponta para nós não nos censure as imperfeições e infidelidades, mas ao contrário, nos anime e nos ampare, nos fortaleça e nos auxilie, apontando as melhores soluções para sermos dignos evangelizadores no momento histórico que vivemos (Doc. Santarém 1972).

domingo, 1 de julho de 2012

Santo Ângelo da Sicília - Mártir Carmelita



Santo Ângelo da Sicília[1] - Mártir Carmelita



Ludovico SAGGI

Ângelo foi para a Sicília com os religiosos que do Carmelo emigraram para aquela ilha, onde morreu, segundo dados tradicionais, que demonstram ser dignos de fé. Foi assassinado em Licata[2] pelas mãos de “ímpios infiéis” na primeira metade do século XIII. Por ser considerado mártir, foi construída uma igreja em sua honra no local da morte. O seu corpo foi colocado num altar desta igreja. Estas poucas informações e uma outra recolhida, em torno 1370, pelo beneficiário da São João do Latrão, Nicolau Processi, que se refere sobre a ida de Ângelo, em Roma – tomada do Catalogus Sanctorum composto até o final do século XIV ou início do XV, foram enriquecidas com lendas particulares até formar uma verdadeira história biográfica.

Muito conhecida e difundida é a vida de Santo Ângelo escrita por um certo Enoque, que se apresenta como carmelita e patriarca de Jerusalém e que viveu nos primeiros decênios do século XIII. Mas na verdade foi um siciliano quem a escreveu na primeira metade do século XV, utilizando fontes históricas palestinas (Guilherme de Tiro e Jacques de Vitry), fontes hagiográfica beneditinas e dominicanas e a literatura apocalíptica do século XIV. Pode-se deduzir isto por causa das falhas contidas na sua obra (como por ex.: ignorância da topografia da Palestina; a Regra Carmelitana teria sido escrita por um certo patriarca Alberto no ano 412, enquanto que esta foi dada alguns anos depois da entrada de Ângelo e de seu irmão em 1204/1205 entre os carmelitas; Jerusalém estaria ainda nas mãos dos cristãos em 1219; um jovem teria sido libertado do inferno por um milagre de Santo Ângelo; cita um tal de Goffredo, arcebispo de Palermo, que não existiu no período indicado) e pelos elementos cronológicos ali presentes (profecias que se adaptam bem à situação após a batalha de Kosovo[3] de 1389, a invasão da Bulgária e da Valacchia[4] em 1393).
Segundo esta biografia, os pais de Ângelo eram judeus e se chamavam Jessé (ou José) e Maria. O nascimento de Ângelo e de seu irmão João foi preanunciado pela Virgem Maria numa aparição aos seus pais. Após esta aparição os pais de Ângelo se converteram ao cristianismo. Ao se tornarem órfãos, os dois irmãos foram educados pelo patriarca Nicodemos até a idade de 18 anos; quando entraram no convento Santa Ana dos Carmelitas junto à Porta Áurea em Jerusalém, a pátria deles. Após um ano de prova, foram para o Monte Carmelo. Viveram naquele monte por 10 anos em rigoroso ascetismo. Ângelo começou logo a imitar a força taumatúrgica dos profetas Elias e Eliseu: fez retornar à superfície um machado caído na água[5], passou o rio Jordão a pé enxuto[6], curou leprosos[7], fez ressurgir os mortos[8] e cair fogo do céu[9]. Aos 28 anos, Ângelo, após ter estado em Jerusalém para receber a ordenação sacerdotal, se retirou no deserto da Quarentena, permaneceu ali por 5 anos em oração e penitência. Ao final deste período, numa aparição Cristo lhe ordenou ir para a Sicília com a finalidade de tentar a conversão de um pecador chamado Berengário, que há muito tempo convivia com a própria irmã e com a qual tinha tido 3 filhos. Antes, porém, devia passar por Alexandria para pegar algumas relíquias. Ao rezar para que o Senhor protegesse a Cidade Santa, foi informado sobre o futuro de Jerusalém, da Terra Prometida e do Cristianismo no Egito, Ásia Menor e Europa Meridional: mensagem que ele deveria divulgar nas suas pregações. Voltou para Jerusalém, aonde seu irmão João tinha se tornado patriarca. Ali Ângelo pregou para 60.000 pessoas e depois, tomou consigo três companheiros, foi para Alexandria e pegou as relíquias que o patriarca Atanásio lhe entregou. Embarcou no dia 1º de abril de 1219 numa nau genovesa, mas antes da chegada na Sicília topou 4 navios cheios de sarracenos. Estes espancaram Ângelo e seus companheiros. Entretanto, à oração do santo desceu fogo do céu que matou 60 dos agressores e deixou cegos outros 300. Estes, após a conversão, milagrosamente ficaram curados. Após uma parada em Messina, dirigiram-se para Civittavecchia, aonde entregou as relíquias para Frederico de Chiaramonte. Dali dirigiu-se para Roma. Durante a vista aos lugares santos, em São João do Latrão encontrou-se São Francisco e São Domingos. Na ocasião Ângelo predisse os estigmas a São Francisco. Ângelo recebeu de São Francisco o anúncio de que seria martirizado em breve. Retornando à Sicília, em Palermo foi hóspede dos basilianos de Santa Maria da Gruta, aos quais pregou durante 40 dias. Depois foi para Agrigento. Passando pelas termas de Cefalà, curou 7 leprosos (indicados com nome e lugar de origem), como também ao arcebispo de Palermo de nome Goffredo; pregou depois em Agrigento por 50 dias antes de chegar em Licata. Primeiro em segredo e depois publicamente tentou converter Berengário, que – desesperado por causa da conversão da irmã – no dia 5 de maio de 1220, enquanto Ângelo pregava para 5.000 pessoas junto à igreja dos santos Felipe e Tiago perto do mar, feriu o santo mortalmente com cinco golpes de espada. Antes de morrer, o santo recomendou para que não vingassem a sua morte. Oito dias depois de sua morte e de vários prodígios, Ângelo apareceu ao arcebispo de Palermo e lhe pediu sepultura.
Os escritos da vida atribuída a Enoque contam também uma aparição de São João Batista que ordena a Atanásio de Chiaramonte, patriarca de Alexandria, para entregar a Ângelo algumas relíquias. Este deveria levá-las para a Itália e entregá-las para seu irmão Frederico de Chiaramonte.
A biografia de Enoque não merece grande confiança, apesar de que alguns elementos parecem receber confirmação de outras fontes (um documento de entrega de relíquias a Frederico de Chiaramonte, ao qual se refere F. Ughelli-N. Coleti, Italia sacra. I, Venetiis 1717, pp. 231-234; a pertença em 1219-20 do mosteiro Santa Maria da Gruta de Palermo aos basilianos). O certo é que o autor introduz informações corretas numa composição de fantasia.

Já venerado no século XIV, após a divulgação da vida atribuída a Enoque, o culto de Santo Ângelo teve grande difusão entre os carmelitas e o povo. O Capítulo Geral dos Carmelitas de 1498 prescreveu que em todos os conventos carmelitas se fizesse uma comemoração todos os dias. Em 1564 se estabeleceu a celebração da festa com oitava solene.
As relíquias foram colocadas numa igreja carmelita; em 1457 os seus confrades obtiveram do Papa Calixto III a permissão para levá-las ao convento, mas não se fez nada até 1605. As relíquias foram tiradas da caixa de madeira em 1486 e colocadas numa urna de prata. No dia 5 de maio de 1623 foram colocadas numa urna ainda mais preciosa. Em 15 de agosto de 1662 a urna foi levada para a igreja atual. Para recordar a libertação da peste, em 1625 foi instituída uma festa em agosto, que é celebrada até hoje. No dia 4 de maio de 1626 Santo Ângelo foi proclamado também patrono de Palermo.

ICONOGRAFIA. Em torno de 1430, o pintor carmelita Filippo Lippi o afigurou na Madonna Trivulzio (Milano, Musei civici); várias vezes está nos afrescos (1472-73) do Santuário do Carmo de S. Felice del Benaco; dos últimos anos do mesmo século é a gravura atribuída a Tommaso De Vigilia, hoje Carmo de Palermo; o Pordenone a pintou na Madonna del Carmine (Venetia, Accademia delle Belle Arti).
Em seguida as representações tornam-se mais frequentes. Seus atributos: hábito carmelita (que o distingue de São Pedro mártir, dominicano), uma adaga na cabeça, um punhal no peito, uma palma na mão sozinha ou enfiada em três coroas. A tela de L. Caracci da Pinacoteca de Bolonha tem um falso título: não se trata do martírio de Santo Ângelo (crucificado numa árvore e com uma flecha no peito), mas é de um outro carmelita, ou seja, de São Pedro Tomás, bispo. Pedro Testa o representou na Basílica São Martinho aos Montes de Roma com a visão de Cristo no deserto.

LENDAS E FOLCLORE: De Santo Ângelo tomou o nome a localidade Santo Ângelo Muxaro[10] na Província de Agrigento (Sicília) por causa de uma possível estada sua ali; ele também teria habitado numa gruta nos arredores, que estava infestada de espíritos imundos, que ao fugirem, deixaram por sua vez uma grande fenda em forma de cruz; na mesma gruta há a “cama” do santo escavada na rocha. Em Cefalà Diana[11] se mostra a pegada do pé de Santo Ângelo na pedra onde sai a água quente. Em Caltabellotta[12] se conserva o púlpito onde ele teria pregado; em Agrigento havia uma capela na qual ele teria celebrado missa. Teria estado também em Lentini[13].
A sua maior devoção, como é natural, é em Licata, da qual é padroeiro. À direita da igreja ainda hoje está a fonte, que, segundo se diz, brotou no local do martírio e da qual os devotos pegam água sobretudo nas duas festas anuais em maio e agosto. A ele os licateses atribuem a preservação da cidade quando aconteceu o ataque dos turcos em 1553 e a libertação da peste em 1625: foi nesta última ocasião que se estabeleceu a ampliação da igreja (já tinha sido aumentada em 1564), depois reinaugurada em 1662. Até pouco tempo atrás, e em parte ainda hoje, a festa de 5 de maio era celebrada com costumes próprios: na noite da vigília se queimava um barco em honra do santo; no dia da festa se oferecia animais enfeitados (hoje reduzida à bênção de cavalos – fig. 11) e de velas. Durante a tarde se realiza a procissão com a urna do santo circundada por grandes velas em cima de gigantescos candelabros: na rua Príncipe de Nápoles a urna é passada para os marinheiros que completam o trajeto com tochas na mão, recordando o episódio dos turcos obrigados a se afastar.

bibl.: L. Saggi, S. Angelo di Sicilia; studio sulla vita, devozione, folklore, Roma, 1962. Ali há mais bibliografia. Para a iconografia adicionar: Emond, I, pp. 130-136, II, pp. 79-83.
ludovico saggi


[1] Tradução e notas de Frei Wilmar Santin, O.Carm.: “ANGELO di Sicilia”, in Santi del Carmelo, Institutum Carmelitanum, Roma 1972, pp. 172-175
[2] Licata é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Tem em torno de 40 mil habitantes. Suas origens remontam à Pré-história.
[3] Vencida pelos otomanos contra os exércitos da Sérvia e Bósnia. Esta vitória possibilitou a conquista dos Bálcãs pelo Império Otomano.
[4] Fica na região sul da Romênia.
[5] Cf. 2Rs 6,1-7 = prodígio realizado pelo Profeta Eliseu.
[6] Cf. 2Rs 2,8 = Elias e Eliseu passaram o Jordão a pé enxutos.
[7] Cf. 2Rs 5,1-27 = Eliseu cura do sírio Naamã da lepra.
[8] Cf. 1Rs 17,17-24 = Elias ressuscita o filho da viúva de Sarepta; 2Rs 4,18-37 = Eliseu ressuscita o filho da sunamita.
[9] Cf. 2Rs 1,9-14 = por duas vezes Elias faz descer fogo do céu, que devorou os soldados enviados pelo rei com a finalidade de prenderem o Profeta.
[10] Atualmente tem pouco mais de 1.500 habitantes.
[11] Cefalà Diana é uma localidade da Sicília com 1.032 habitantes (2007).
[12] Caltabellotta é uma cidade da Sicília, Província de Agrigento. Em 2008 tinha pouco mais do que 4.100 habitantes. Suas origens históricas remontam aos tempos antes de Cristo.
[13] Lentini é uma cidade da Sicília, Província de Siracusa. Tem em torno de 24 mil habitantes.

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