Entre Rios e Aldeias:
Uma Visita Pastoral aos Munduruku – 2025
– 27 de outubro a 07 de novembro de 2025 -
Relato de Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.
Bispo da Prelazia de Itaituba, PA
APRESENTAÇÃO
“Eu careço de que o bom seja bom e o ruim ruim, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Este mundo é muito misturado …”. (Guimarães Rosa, in Grande Sertão:Veredas)
De 27 de outubro a 07 de novembro de 2025, realizei mais uma visita aos Munduruku para a celebração de crismas. Mais uma vez, revelou-se uma experiência profundamente marcante e encantadora, constituindo uma grande realização pessoal. Cada retorno a essa terra e a esse povo renova-me o sentido da missão e confirma, no coração, a certeza de que sempre vale a pena voltar.
Desta vez, a jornada transcorreu de modo mais sereno, com um tempo maior de permanência em cada aldeia. Frei Sabá organizou as atividades ao longo de duas semanas, permitindo uma convivência mais próxima e fraterna com os Munduruku. Partilhamos não apenas os momentos celebrativos, mas também o cotidiano simples da vida, inclusive a pesca, tão integrada à cultura e ao modo de existir dos Munduruku.
Tive a alegria de visitar duas aldeias que ainda não conhecia. Em todas as aldeias, experimentei alegrias e satisfações singulares, diferentes das visitas anteriores. O acolhimento caloroso, a simplicidade sincera, a emoção dos indígenas ao receberem os pain e os sacramentos tocam profundamente a alma, fortalecem a fé e reacendem o desejo de retornar, servir e permanecer próximo.
Este relato da jornada missionária — ou visita pastoral — nasce, portanto, como um convite ao leitor para que, recorrendo à imaginação e à sensibilidade, possa entrever, ainda que de forma limitada, aquilo que vivi, senti e contemplei ao longo desta experiência de encontro, fé e comunhão.
DIA 27 DE OUTUBRO DE 2025 – SEGUNDA-FEIRA
O dia 27 de outubro de 2025 foi um dia muito especial para mim, afinal eu fui para a Missão São Francisco do rio Cururu para uma nova visita, a fim de realizar crismas nas aldeias dos Munduruku. Tenho feito essas visitas pastorais todos os anos, com exceção do período da pandemia. Cada visita tem sido uma rica e profunda experiência humana, pastoral e espiritual.
Como em outras ocasiões, o Ney, da A.R.T. Táxi Aéreo, prontificou-se para me levar, como forma de auxílio à Igreja em sua missão evangelizadora e sacramental entre os indígenas Munduruku.
Por que ir de avião? Não seria um luxo para quem vai a uma missão evangelizadora e sacramental entre indígenas? À primeira vista pode até parecer, porém é bom ter em mente que só há duas maneiras de chegar à Missão São Francisco do rio Cururu: de avião ou de voadeira. Um teco-teco leva em torno de duas horas – o que já dá uma noção da distância. Para ir de voadeira, deve-se primeiro percorrer 400 km pela rodovia Transamazônica, BR-230, ainda sem asfalto, até Jacareacanga. De lá, subir o rio Tapajós e depois o Cururu durante um dia inteiro, passando por perigosas corredeiras.
Desta vez, foi comigo a jornalista Vivian Maler para fazer um documentário. Ela trabalha no Regional Norte 2 da CNBB, ou seja, no Regional que engloba os estados do Pará e Amapá.
A viagem estava prevista para as 7h30, mas fomos avisados de que o avião precisou fazer uma viagem urgente e, por isso, a decolagem ficou para mais tarde.
Por volta das 9h, o avião retornou, e nós já estávamos esperando. O avião foi abastecido e os nossos pertences foram colocados no bagageiro. Estava tudo pronto.
Chegou a hora de embarcar. Fui o primeiro a entrar. Em seguida embarcaram a Vivian e, por último, o piloto Regisson Maia, mais conhecido como Régis. Ele logo nos avisou: “O avião tem internet! Vocês poderão enviar e receber mensagens. Assim a viagem ficará mais interessante.”
Ele ligou o avião e o deixou aquecendo. Não marquei o tempo, mas calculo que foram uns cinco minutos. Quando estava tudo dentro dos conformes, o avião começou a se movimentar às 9h23. Lentamente foi em direção à pista principal do aeroporto de Itaituba. Uma crescente emoção foi tomando corpo dentro de nós. Era aquela sensação mista de ansiedade e expectativa sobre o voo em si, num pequeno avião. Confesso que fiquei tranquilo, mas com aquele medinho natural. Claro que nestes momentos passam pela memória casos de acidentes aéreos nas decolagens, mas não me tiraram a tranquilidade e a segurança de que eu não estava sozinho: estava ao meu lado Aquele que sempre me acompanha.
Às 9h28, o avião decolou, fez uma curva e passou por cima da cidade. Aproveitei para tirar fotos. Como de costume, depois que o teco-teco alcançou sua altura de voo, quando se olha para baixo, percebe-se que há uma espécie de névoa, que, ainda assim, permite ver bem. Como o avião tinha internet, aproveitei para enviar fotos para meus contatos do WhatsApp. Logo choveram mensagens desejando-nos uma boa viagem e uma missão profícua.
Fotos aéreas da cidade de Itaituba
Mais ou menos na metade da viagem, levamos um grande susto: a portinhola de ventilação do lado direito do avião se abriu. Foi um barulho esquisito e um vento muito forte começou a entrar. Estendi a mão para fechá-la, mas o vento a empurrou violentamente para dentro. Na segunda tentativa já fui com a mão mais firme. Consegui, com dificuldade, puxar, porém não consegui fechar porque uma ponta do gancho pressionava o dedo e tive que largar. O piloto se inclinou de lado por trás do assento, estendendo o braço direito e conseguiu puxar, e com dificuldade fechou. O vento era forte demais. Confesso que, num primeiro momento, levei um grande susto e fiquei com medo. Felizmente, tudo não passou de um susto, sem qualquer consequência grave.
Só houve turbulência uma vez, muito fraca e por pouco tempo. Deus realmente nos havia preparado uma viagem muito tranquila e agradável.
Aterramos às 11h06 no aeródromo Frei Plácido; portanto, a viagem durou uma hora e trinta e oito minutos. Ao descer, percebi que a placa de madeira indicando o nome do campo de pouso já não existe e que poucas crianças se aproximaram do avião. Ao comentar com o Frei Amauri, ele me disse que o motivo do baixo número de crianças era que estavam na escola.
Vista aérea da Missão
No centro a igreja em reforma; do lado direito, a casa dos padres e, do esquerdo, a casa das irmãs
Fomos até a casa dos missionários, uma casa em estilo enxaimel, típico da arquitetura alemã. Ela foi construída em 1924, reformada entre 2010 e 2011. Está em muito boas condições e possui dois pavimentos.
Na missão moram os franciscanos Frei Sabá (Sebastián Robledo) e Frei Amauri Pereira dos Santos. Porém, no momento, também se encontravam ali outros dois franciscanos: Frei Jailson Patrick Assunção e o argentino Frei Gastón Dominguez, mais conhecido como Frei Dody. Frei Jailson está com 26 anos, terminou os estudos de Filosofia no ano passado e está realizando ali uma experiência pastoral até janeiro. Em 2026 irá estudar Teologia em Petrópolis. O Frei Dody tem 25 anos e entrou na Ordem franciscana há 11 anos. Veio para uma convivência de dois meses.
Também estavam ali Frei Érlison Campos acompanhado de seis postulantes. Frei Érlison é o formador e levou os postulantes para conhecerem a realidade da Missão.
Infelizmente, as Irmãs da Congregação das Missionárias Imaculada Conceição, fundadas em Santarém em 1910 e com presença na Missão desde 1911, tiveram que, recentemente, deixar o trabalho missionário por falta de pessoal. Fazem muita falta na Missão! A casa, também em estilo enxaimel, continua ali, dando um testemunho histórico de uma presença de mais de 110 anos com os Munduruku. Rezemos para que Deus as abençoe com vocações e assim possam voltar!
O almoço, com a mesa cheia - 13 pessoas - foi muito alegre e divertido, o que animou a todos, ajudando a revigorar as forças.
Visita à Missão Velha
Durante o almoço, decidimos visitar informalmente a chamada Missão Velha, que é a primeira aldeia fundada pelos missionários em 1911. Os franciscanos alemães Frei Hugo Mense e Frei Plácido Toelle chegaram ao rio Cururu em agosto de 1911, após dois meses de viagem, e estabeleceram-se às margens do rio Cururu. É bom lembrar que naquele tempo não existiam embarcações motorizadas, por isso todo o trajeto foi vencido à força do remo. Claro que tiveram de contratar remeiros, mas também precisaram remar. Passar por todas as cachoeiras, como as de São Luís, e pelas perigosas corredeiras de Capoeiras e Chacorão, foi uma aventura extremamente perigosa. Hoje, no tempo da seca, ainda é muito perigoso passar por essas corredeiras devido ao grande número de pedras que ficam escondidas logo abaixo da superfície da água. O piloto deve conhecer bem a região; do contrário, não conseguirá atravessar.
Até a chegada dos missionários, os Munduruku não tinham aldeias à beira dos rios. O motivo era evitar ataques dos inimigos, principalmente à noite. Por isso, foi complicado para os missionários realizarem os primeiros contatos. Os dias se passavam e nada de ver os indígenas. E o pior: não sabiam como encontrá-los nem como fazer o contato. O contato surgiu de uma maneira inusitada. Frei Hugo, que tinha uma flauta, começou a tocá-la e a cantar. Já no segundo dia, atraídos pela música, apareceram alguns indígenas curiosos. E assim teve início o contato dos missionários com os Munduruku. Fundaram uma primeira aldeia, ainda um pouco afastada da margem do Cururu. Como havia o problema da água, os missionários convenceram os nativos a mudar de lugar para perto do rio. Ali a aldeia permanece até hoje. Justamente por ser um local histórico, era do interesse de Vivian visitar, mesmo estando fora da programação.
Saímos para a Missão Velha às 14h59, indo rio acima. Apesar das últimas chuvas, o rio ainda está um pouco baixo e em alguns lugares é difícil de passar, seja por estar raso demais seja pela presença de paus à flor da água.
Às 15h17, chegamos à entrada da Missão Velha, mas nessa época, devido a um banhado muito grande, deve-se fazer uma volta passando por um igarapé bastante estreito em alguns trechos, além disso, raso.
Chegamos ao porto mais perto da aldeia às 15h41. Dali caminhamos quase um quilômetro até a aldeia. Fizemos o trajeto em pouco menos de 15 minutos.
O pessoal da saúde da aldeia-polo Missão estava ali fazendo uma "geral”, com vacinação, exames, tratamentos dentários etc.
Estive ali pela primeira vez em maio de 2011 para a abertura das comemorações do centenário do trabalho missionário na Mundurucânia. Na ocasião todos eram católicos, mas hoje a maioria é evangélica. O cacique tornou-se evangélico e a maioria o acompanhou.
Tiramos várias fotos, Vivian entrevistou algumas pessoas e eu fiz questão de visitar a Dona Brígida Dace, que continua católica. Ela é idosa e a pessoa que mais conhece a história local. Fala muito bem o português e me disse que aprendeu a ler e escrever na escola das freiras. No final, ela me pediu uma Bíblia com letra grande para ela poder ler e ensinar.
Com a Dona Brígida Dace
Filhos e netos da Dona Brígida Dace
Ela me contou que a aldeia original não era ali e sim a cerca de cinco quilômetros distante. A mudança aconteceu para que a aldeia ficasse mais perto do rio.
Despedimo-nos do pessoal da saúde e dos indígenas e iniciamos o retorno, primeiro a pé e em seguida de voadeira. Levamos 20 minutos navegando igarapé abaixo, para chegar ao Cururu e depois mais 21 minutos para chegarmos à Missão às 17h15.
DIA 28 DE OUTUBRO – TERÇA-FEIRA
Crismas na Aldeia Nova Paxiúba
Saímos às 7h08 da Missão rumo à aldeia Nova Paxiúba. Fomos em duas voadeiras: uma levando os postulantes e os Freis Amauri e Érlison, e a outra, a nós, a saber: Frei Sabá, Frei Dody, Vivian e eu. Poucos minutos depois da nossa saída começou uma garoa fraquinha, aquela conhecida como “molha-trouxa”.
Às 7h19 entramos num varadouro, também chamado de furo, para encurtar o caminho. A voadeira dos postulantes seguiu o caminho normal, pois o piloto ainda não sabia que já era possível passar pelo varadouro.
Às 7h25 avistamos a aldeia e chegamos um minuto depois.
Como “porta de entrada”, há um letreiro: XIPAT EPESOT WAYOPTIPPIP AT KABE WUYXI EPETA BE, que significa: “Seja bem-vindo à aldeia Paxiúba para a festa da padroeira”.
A aldeia está localizada no lado esquerdo do rio Cururu, mas não à margem e sim à beira de um igarapé. Nela moram oito famílias. A maioria chegou ali saindo da Missão São Francisco. Também há indígenas provenientes da aldeia Caroçal. Foi a minha primeira visita a esta aldeia.
A celebração foi muito alegre, as leituras foram na língua Munduruku, bem como todos os cânticos. Crismei sete pessoas e cinco fizeram a Primeira Comunhão. Os crismados eram quatro homens e três mulheres. Também houve um batizado, realizado antes do rito da Crisma. A padroeira da comunidade é Nossa Senhora Aparecida.
Como ainda não há uma igreja, o local da celebração foi na maior sala da escola. Esta sala serve também de salão para encontros comunitários.
Terminadas a celebração e a sessão de fotos, foi servido o tradicional café comunitário.
Às 9h16 iniciamos a viagem de retorno para a Missão, onde chegamos às 9h36. O céu estava encoberto por nuvens, o que amenizou o calor.
À tarde atendemos às confissões dos crismandos e padrinhos e depois houve o ensaio da celebração do dia seguinte.
DIA 29 DE OUTUBRO – QUARTA-FEIRA
Crismas na Missão São Francisco
Às 7h, houve a celebração da missa com oito crismandos e treze Primeiras Comunhões. Novamente as leituras e os cânticos foram na língua Munduruku.
A celebração foi na praça, porque a igreja está em reforma. Concelebraram com o bispo os Freis Sabá e Érlison. O céu estava encoberto por nuvens, consequentemente o clima era agradável. Todos os crismandos estavam vestidos a caráter, ou seja, com suas vestimentas de festa, com os corpos pintados e usando saias de sisal.
Após a celebração houve a sessão de fotos. Em seguida tomamos café e nos preparamos para a nova etapa da missão, nas aldeias Pratakti e Cajual.
Viagem para as Aldeias Pratakti e Cajual
Às 10h28, iniciamos a viagem para as aldeias Pratakti e Cajual, situadas acima da Missão; portanto, a navegação seria contra a correnteza. Estavam na voadeira: Dom Wilmar, Frei Sabá e a jornalista Vivian, além do piloto Candido Akay, que é o pai do Frei Jean, o franciscano Munduruku que está estudando Teologia em Petrópolis. Se perseverar, será o primeiro Munduruku a ser ordenado padre.
Às 11h04, entramos num pequeno varadouro que nos ajudou a encurtar a distância. Andamos por ele apenas dois minutos para entrarmos novamente no Cururu.
Chegamos às aldeias Pratakti e Cajual às 11h16. As duas aldeias estão uma ao lado da outra. Constituem-se como comunidades distintas, mas compartilham algumas estruturas, como a escola, a igreja e o posto de saúde. Ficamos hospedados na aldeia Cajual.
À tarde atendemos às confissões e foi realizado o ensaio da cerimônia da crisma.
Toda quarta‑feira, nas Completas — a oração que padres e religiosos(as) rezam antes de dormir — há uma breve citação da Carta de São Paulo aos Efésios que ontem me fez adormecer refletindo: “Não pequeis. Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento. Não deis ocasião ao diabo” (Ef 4,26‑27).
Adormecer carregando ressentimento, rancor, ódio, raiva ou mágoa só faz mal ao ser humano. Quem não consegue perdoar e alimenta esses sentimentos, pouco a pouco, vai se tornando alguém amargo, rancoroso, agressivo, pessimista e triste. O remédio para evitar esse caminho é, sem dúvida, o que São Paulo nos oferece nesse versículo.
É sempre salutar adormecer rezando ou meditando um trecho da Sagrada Escritura. A Palavra de Deus pacifica o coração, ilumina a mente e prepara a alma para um descanso verdadeiramente restaurador.
É nesse contexto que me vem à mente João Guimarães Rosa, quando, em Grande Sertão: Veredas, nos oferece a seguinte passagem:
“Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho de Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”.
DIA 30 DE OUTUBRO – QUINTA-FEIRA
Crismas nas Aldeias Cajual e Pratakti
Às 7h, na praça, foi realizada a celebração da missa com crismas e batizado das comunidades Pratakti e Cajual. Com a presidência de Dom Wilmar e concelebração de Frei Sabá, foram realizadas cinquenta crismas e um batizado. Como há apenas uma igreja para as duas aldeias, ambas compartilham a mesma padroeira: Santa Isabel da Hungria. As leituras e os cânticos foram, como de hábito, na língua Munduruku. Todos os crismandos estavam vestidos com o traje festivo munduruku. Foi a primeira vez que ali houve um número tão elevado de crismas.
Após a celebração, houve café comunitário no salão que também serve de escola. Havia beiju, pipoca, pão, mingau de manicuera e as bebidas kaxidi e caperi (café). O kaxidi, ou caxiri, cujos principais ingredientes são batata-doce e caldo de cana, é uma bebida sagrada, e eles não dão a fórmula ou a receita para ninguém, especialmente para as mulheres. Vivian pediu a receita; todavia, eles desconversaram e não deram.
Ida para a Aldeia Wareri
Após o almoço, saímos às 12h10 rumo à aldeia Wareri. Mais uma vez, subimos o rio Cururu. Cerca de dez minutos após a nossa saída, começou uma longa chuva de aproximadamente quarenta minutos. Como a lona estava sendo usada para proteger nossas coisas e não tínhamos capas, “tomamos toda a chuva no lombo”. Felizmente ninguém ficou gripado.
Ao longo da viagem vimos vários jacarés, alguns atravessando o rio, mas a maioria descansando nas praias que ainda não desapareceram. Em breve, essas praias desaparecerão, visto que o nível do rio está subindo.
Às 13h24, entramos no varadouro para o rio Wareri e saímos dele às 13h59. Cerca de dez minutos depois, chegamos a um local onde havia muito capim e mururu, levamos em torno de quinze minutos para ultrapassá-lo. Finalmente, às 14h29, chegamos à aldeia.
A recepção e a acolhida foram emocionantes, com crianças cantando e dançando para nos acolher. Confesso que fiquei emocionado. Quando acabaram de cantar, todas correram para nos abraçar. As próprias crianças levaram nossas coisas até a escola, onde ficaríamos hospedados.
Ao conversar com o capitão Josimar Manhuari, perguntei sobre o antigo capitão Bruno Manhuari. Ele me disse que este falecera em decorrência da Covid-19. Bruno era filho de um dos indígenas peruanos Kokama, que chegaram no alto Tapajós na época da seringa. Segundo o seu Bruno, a maior parte dos descendentes dos Kokama vive na Barra de São Manuel com os sobrenomes: Manhuari, Tariquarima, Mariman, Macuyama e Chancho (Porco).
À tarde, foram atendidas as confissões dos crismandos e padrinhos, bem como de outras pessoas da comunidade. Estavam previstas 10 crismas, mas quatro dos crismandos estavam em Jacarecanga e só chegariam no dia seguinte. Isso fez com que a crisma fosse adiada por um dia. Portanto, o dia seguinte seria livre para nós. Por isso programamos ir pescar.
O jantar foi na casa do capitão, onde no foi servido arroz com pato cozido. Uma delícia! Foi a primeira vez que comi pato em uma aldeia.
imagens da aldeia
No momento a aldeia está passando por uma grande dificuldade: está sem energia. Um raio destruiu o sistema elétrico da aldeia, por esse motivo, não há iluminação noturna, e o auxílio provém das lanternas. A consequência é que por volta das 20h todos já estão recolhidos em suas casas e deitados em suas redes.
Ao deitar-me na rede, comecei a rememorar histórias sobre escuridão e noites escuras. Foi então que recordei o conto “Origem da noite”, narrado por Flávia Savary no livro Lendas da Amazônia... e é assim até hoje. A lenda começa afirmando: “Depois do mundo feito, vem um pra achar defeito. O índio Uánham achou na criação uma falha: era dia atrás de dia, atrás de dia. Noite não havia pra se dormir e descansar”. Uánham procurou pela noite durante anos e descobriu que sua detentora era a cobra Surucucu. Ele foi até a casa da cobra para comprar a noite. Embora tenha oferecido seu arco e flecha em troca, a Surucucu não os aceitou. Depois, ofereceu uma faixa que usava na perna, proposta que também foi recusada. Por fim ofereceu venenos. A cobra aceitou e deu-lhe uma noite pequena dentro de um cesto. Ele só poderia abrir o cesto quando chegasse em casa, mas os companheiros tanto pediram que ele abriu antes. Ele cedeu e, assim, “libertou-se a primeira noite. A novidade das trevas, nunca vistas antes, assustou os amigos de Uánham. Foi-se cada um prum lado! O índio, largado só naquele abandono sem luz, só fazia pedir:
– Cadê o luzeiro que me há de alumiar nesse breu? Cadê? Cadê o luzeiro?
Vendo-o desamparado, os parentes da Surucucu, com quem a cobra havia dividido os venenos, vieram picar o pobre. A Jararaca, a Lacraia e a Centopeia cercaram Uánham. A Jararaca, mais feroz, mordeu o dedo do pé do rapaz”.
Uánham morreu, mas foi ressuscitado pelo tuxaua e voltou até a casa da Surucucu, levando uma cabaça cheia de veneno para comprar uma noite grande. A Surucucu pegou jenipapo e misturou com imundícies da mata para fazer uma grande noite.
“Pouca gente sabe, mas a noite grande é resultado da mistura de jenipapo e imundícies. E é por essa razão que, à noite, as febres pioram, o medo aperta o coração, a baba escorre no travesseiro e a boca acorda, no dia seguinte, amarga e com mau hálito.
Bem, pelo menos na noite grande se pode descansar à vontade, já que, pela manhã, o mau cheiro se resolve com um bom banho de rio”.
DIA 31 DE OUTUBRO – SEXTA-FEIRA
O último dia de outubro foi programado como um dia livre para nós. Aproveitamos para pescar tanto de manhã quanto à tarde.
Na parte da manhã, pescamos vinte tucunarés e nove piranhas. O pain Sabá pegou o maior tucunaré, um exemplar de cinco quilos. Os dois primeiros tucunarés, porém, fui eu quem pesquei. Já saboreamos um tucunaré assado no almoço. Foi o capitão quem nos levou para a pescaria.
Durante a ida para a pescaria deu para observar melhor a natureza. Encontrei uma grande variedade de pássaros, muito mais do que nas outras vezes e nos outros locais. As principais espécies avistadas foram: martim-pescador, mergulhão, biguá, andorinha, rolinha, cigana, saracura, jaçanã, garças de vários tamanhos. Avistei também um bem-te-vi, além de outros pássaros, cujos nomes desconheço.
Ali é um verdadeiro paraíso ecológico. Como não agradecer a Deus pela criação, pela "Casa Comum", que ali é tão bem cuidada pelos Munduruku? De repente, me vi recitando partes do “Louvor das criaturas ao Senhor”, ou seja, o Cântico de Daniel (Dn 3,57-88), que é rezado nas Laudes aos domingos e nas solenidades. O texto completo:
– 57Obras do Senhor, bendizei o Senhor,
* louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
– 58Céus do Senhor, bendizei o Senhor!
* 59Anjos do Senhor, bendizei o Senhor!
– 60 Águas do alto céu, bendizei o Senhor!
* 61 Potências do Senhor, bendizei o Senhor!
– 62 Lua e sol, bendizei o Senhor!
* 63 Astros e estrelas, bendizei o Senhor!
– 64 Chuvas e orvalhos, bendizei o Senhor!
* 65 Brisas e ventos, bendizei o Senhor!
– 66 Fogo e calor, bendizei o Senhor!
* 67 Frio e ardor, bendizei o Senhor!
– 68 Orvalhos e garoas, bendizei o Senhor!
* 69 Geada e frio, bendizei o Senhor!
– 70 Gelos e neves, bendizei o Senhor!
* 71 Noites e dias, bendizei o Senhor!
– 72 Luzes e trevas, bendizei o Senhor!
* 73 Raios e nuvens, bendizei o Senhor!
– 74 Ilhas e terra, bendizei o Senhor!
* Louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
– 75 Montes e colinas, bendizei o Senhor!
* 76 Plantas da terra, bendizei o Senhor!
– 77 Mares e rios, bendizei o Senhor!
* 78 Fontes e nascentes, bendizei o Senhor!
– 79 Baleias e peixes, bendizei o Senhor!
* 80 Pássaros do céu, bendizei o Senhor!
– 81 Feras e rebanhos, bendizei o Senhor!
* 82 Filhos dos homens, bendizei o Senhor!
– 83 Filhos de Israel, bendizei o Senhor!
* Louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
– 84 Sacerdotes do Senhor, bendizei o Senhor!
* 85 Servos do Senhor, bendizei o Senhor!
– 86 Almas dos justos, bendizei o Senhor!
* 87 Santos e humildes, bendizei o Senhor!
– 88 Jovens Misael, Ananias e Azarias,
* louvai-o e exaltai-o pelos séculos sem fim!
No retorno, o capitão viu um macaco-guariba em uma árvore à beira do rio. Ele atracou a voadeira, ele e outro indígena que estava conosco desembarcaram e abateram o macaco para o consumo. O macaco é uma das caças mais apreciadas por eles.
Conversando com eles sobre caça, disseram-nos que, devido aos incêndios do ano passado, diminuiu muito a caça na região, especialmente o porcão ou queixada, que ou se espantou ou sucumbiu aos incêndios. Também escassearam o jabuti, a anta e outros animais que não conseguiram fugir.
À tarde, fomos pescar pirarara no rio Cururu, junto à foz do Wareri, mas não obtivemos sucesso na pesca, a não ser uma piranha e uma arraia. Na volta, fomos atingidos por uma chuva forte e prolongada.
Como não havia luz, logo após o jantar, fomos repousar em nossas redes. Eram cerca de 20h30. Naturalmente, o sono tardou a vir; por esse motivo comecei a repassar o dia e, no meio das recordações, recordei a quadra de Fernando Pessoa:
Linda noite a desta lua.
Lindo luar o que está
A fazer sombra na rua.
Por onde ela não virá.
DIA 1º DE NOVEMBRO - SÁBADO
Às 7h, celebramos a missa com seis crismas. Como de costume, todos os cantos e as leituras foram na língua Munduruku. Era para ser dez crismas, mas os quatro que foram para Jacareacanga não conseguiram voltar. Por isso, o número diminuiu. Para não esperarem até o próximo ano, autorizei o pain Sabá a crismá-los em dezembro, quando ele fará uma nova visita à aldeia.
Além de catequistas, a aldeia conta com o Ministro da Palavra Jacenildo Cogo, o que garante, aos domingos, a celebração da Palavra na aldeia.
Após a celebração, houve o tradicional café comunitário.
Viagem até a Missão
Saímos rio abaixo, às 9h25, rumo à Missão São Francisco, onde iríamos almoçar.
Às 9h29, chegamos ao lugar onde o capim e o aguapé fechavam o rio, dificultando a nossa passagem. O piloto acelerou bastante, mas não foi suficiente para passar. A voadeira “encalhou”. Com remos e puxões no capim e no mururu, lentamente conseguimos ir adiante. Levamos quatro minutos para passar.
Às 9h45, entramos no varadouro. Estava com menos água do que dois dias atrás. O que é muito interessante, visto que ontem choveu bastante. Claro que isso também dificultou um pouco a passagem, mas, no fim, saiu tudo bem.
Vi pouquíssimas borboletas atravessando o rio. Nas outras vezes, havia muito mais. Aliás, durante todos estes dias, só vi uma panapaná na beira do rio em frente à aldeia.
Passando por varadouros ou furos
Durante a passagem no varadouro, vi duas borboletas panamás. Ao avistar as panamás, recordei do tempo de seminário. Era a borboleta que mais gostávamos de ver, por ser muito bonita; além disso, por possuir dimensões superiores às da maioria, ela é uma borboleta que encanta com o seu azul. Ela é bonita "demais da conta", como dizem os mineiros.
Chegamos ao rio Cururu às 10h03. O rio estava mais cheio, o que ajudava a navegação a ser mais rápida.
O dia estava ensolarado, mas não muito quente. Havia poucas praias no rio Cururu. Havia mais garças do que na subida. Também eram mais abundantes as andorinhas, aquelas que pousam em galhos secos ou paus que estão à flor da água. É bonito ver o espetáculo delas revoluteando e dando rasantes na água e, de repente, iniciar uma rápida subida de 90º.
Nestas ocasiões, muitos pensamentos e recordações vêm à memória, inclusive trechos de leituras. Foi assim que me aflorou uma frase de Machado de Assis: “Chovera muito nos dias anteriores; mas o sol agora alagava tudo de luz, e a chácara parecia uma linda viúva, que troca o véu do luto pelo do noivado”. (Ex cathedra – in Histórias Sem Data). É, ler os clássicos da literatura imprime marcas indeléveis em nossa existência!
Às 11h14, passamos pelas aldeias Pratakti e Cajual.
Às 11h23, entramos num pequeno varadouro. Durou só um minuto e meio, ajudou a encurtar o caminho.
Às 11h36, passamos pela entrada da Missão Velha.
Finalmente, chegamos às 11h54 à Missão São Francisco, onde almoçamos e descansamos.
Ida ao Posto Munduruku
Saímos para o Posto Munduruku às 15h59, conduzidos pelo piloto Arnaldo Akay, mais conhecido como Capitãozinho.
Às 16h28, passamos pela aldeia Caroçal.
Às 16h46, chegamos à aldeia do Morro do Kurap. Fizemos uma pequena parada de dois minutos. O pain Sabá precisava entregar algumas coisas. Algo nos chamou atenção: inexistia qualquer embarcação atracada à margem. Isso significava que a maioria dos indígenas estava fora.
Às 16h51, entramos no primeiro furo. Esse varadouro leva ao lago do Pacu e é ele que encurta bastante o caminho. É bom lembrar que, os atuais lagos constituíam, outrora, o leito do rio. No final do lago, entramos em novo varadouro, do qual saímos às 17h02. Os últimos 10 m foram com muita dificuldade porque era muito raso, mas logramos êxito na travessia.
Às 17h22, avistamos o Posto Munduruku e chegamos um minuto depois. Ficamos na casa de Evandro Kirixi e Railane Waru.
Durante toda a descida vimos muitas moitas de mururus e aguapés, indício de que o rio encontra-se em regime de cheia e levando-as das lagoas e das beiras dos igarapés.
O Posto Munduruku ou aldeia Waro Apompo
O Posto Munduruku, situado à margem esquerda do rio Cururu, surgiu em 1942 como uma base de contato entre os indígenas Munduruku e o Estado brasileiro, especialmente por meio do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). O SPI foi criado em 1910 e, em 1967, foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI). [[1]]
A aldeia Waro Apompo se tornou um ponto central de articulação cultural, religiosa e política para o povo Munduruku. É uma das aldeias-polo da Mundurucânia. Até recentemente, era chamada de Posto Munduruku, mas, com a cessação de toda e qualquer ingerência administrativa por parte da FUNAI na aldeia, voltou ao seu nome original, Waro Apompo.
DIA 2 DE NOVEMBRO – DIA DE FINADOS
Neste ano, o Dia de Finados caiu em um domingo. O dia começou com uma missa às 7h, na igreja, rezada em sufrágio da almas dos fiéis falecidos da aldeia e de todo o povo Munduruku. O padroeiro da aldeia é Santo Antônio.
Após a celebração, aconteceu o café comunitário no salão.
Ao terminar o café, fomos ao cemitério para fazer uma oração pelos mortos e proceder à aspersão de água benta sobre as sepulturas. Enquanto fazíamos a aspersão, os Munduruku acenderam velas, colocando-as nas covas de seus entes queridos.
Na homilia, usei o texto do Segundo livro dos Macabeus (12,43-46):
“Judas Macabeu, tendo feito uma coleta, mandou duas mil dracmas de prata a Jerusalém para se oferecer um sacrifício pelo pecado. Obra bela e santa, inspirada pela crença na ressurreição, porque se ele não esperasse que os mortos ressuscitassem, seria coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Ele considerava que aos falecidos na piedade está reservada uma grandíssima recompensa. Santo e salutar esse pensamento de orar pelos mortos, para que sejam livres dos seus pecados.”
Ressaltei, enfaticamente, os versículos: “Santo e salutar esse pensamento de orar pelos mortos” e “se ele não esperasse que os mortos haviam de ressuscitar, seria coisa supérflua e vã orar pelos defuntos”.
À tarde, atendemos em confissão os fiéis e, depois, o pain Sabá fez os ensaios para a celebração da crisma no dia seguinte.
DIA 3 DE NOVEMBRO – SEGUNDA-FEIRA
Crismas no Posto Munduruku ou aldeia Waro Apompo
Presidi a celebração da missa com treze crismas e dois batismos na igreja às 7h. Frei Sabá concelebrou. O recinto estava totalmente cheio. Todos os cânticos e as leituras foram na língua Munduruku. No final, houve a sessão fotográfica fora da igreja.
Após a celebração, houve, novamente, café comunitário. Em seguida, preparamos nossas coisas para seguir viagem até a Barra de São Manuel, no Amazonas.
Café comunitário
Ida até a Barra São Manoel
Saímos do Posto Munduruku às 9h13. Descemos o rio Cururu até a foz e, depois, subimos o rio Tapajós até a Barra São Manuel, situada já no estado do Amazonas, portanto à margem esquerda do Tapajós.
Às 9h40, chegamos à aldeia Morro do Careca. Fizemos uma pequena parada para o pain Sabá entregar alguns documentos.
Pain Sabá comentou que, no dia 13 de agosto, havia falecido o capitão Geraldo Saw, que era o capitão católico dessa aldeia. Infelizmente a aldeia está dividida entre católicos e evangélicos. Desde que metade da aldeia se tornou evangélica – há cerca de 10 anos atrás -, esse grupo elegeu um novo capitão para si e não participa mais do café comunitário nem das reuniões. Na prática, podemos dizer que são dois grupos na aldeia. Não há briga nem violência entre eles, mas os evangélicos abandonaram muitas coisas que fazem parte da cultura Munduruku, como, por exemplo, as pinturas no corpo por ocasião de festas e comemorações. Inclusive, há pastores que se manifestam contra a língua Munduruku, afirmando que ela é a língua do diabo.
Quando constato esses ataques a certos elementos da cultura Munduruku, vem-me à mente o alerta do Papa Francisco na encíclica Laudato Si’: “É preciso assumir a perspectiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social supõe um processo histórico no âmbito dum contexto cultural e requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura. Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano” (Nº 144), ou a advertência: “O desaparecimento duma cultura pode ser tanto ou mais grave do que o desaparecimento duma espécie animal ou vegetal” (Nº 145). Por isso, insistimos para que as leituras e cantos nas celebrações sejam em Munduruku, e pedimos que eles se vistam com seus trajes de festa nas crismas e pintem seus corpos de acordo com sua cultura.
Continuamos a viagem às 9h45. Portanto, a parada foi de apenas cinco minutos.
O dia estava lindo, com muitas aves voando e encantando a paisagem. O barulho do motor nos impedia de ouvir qualquer canto, além de espantá-las. O clima estava agradável e, de vez em quando, avistava-se algum jacaré. As aves mais avistadas eram garças e andorinhas, e, em número menor, os biguás.
Bartolomé Bossi, em seu livro Viagem pitoresca pelos rios Paraná, Paraguai, São Lourenço, Cuiabá e o Arinos, ao descrever os indígenas guaicurus do Gran Chaco afirma que “o jacaré é um manjar muito preferido por eles”. O mesmo não se pode dizer dos Munduruku, pois não comem jacaré, assim como também não comem capivara nem a ave cigana. O fato de eles não se alimentarem de jacaré favorece a proliferação desses animais no rio Cururu. Semanas atrás, um jacaré matou e devorou uma criança na aldeia Santa Maria.
Às 10h04, passamos pela entrada da aldeia Saw Maybu. Estive ali no ano passado.
Às 10h10, passamos pela entrada da aldeia Boca da Estrada, situada à margem direita do Cururu. Esta aldeia tem São José como padroeiro, mas Santa Dulce dos Pobres foi a primeira padroeira. A história da mudança de padroeiro é inusitada. Certo dia, o capitão foi até a Missão conversar com Frei Messias, que era o padre responsável pelo atendimento pastoral e espiritual dos indígenas. Ele disse que queria mudar de padroeiro para São José, porque Santa Dulce não está na Bíblia. Frei Messias concordou, e, assim, foi mudado o padroeiro.
Estive ali já na primeira festa, tendo São José como padroeiro. Foi a minha primeira e única visita a esta aldeia. Foi em 2019, nos dias 18 e 19 de março. Foram realizadas dezesseis crismas, sendo nove da própria aldeia Boca da Estrada e sete da aldeia Saw Muybu. Na grande festa do padroeiro, frei Filomeno batizou três crianças.
Às 10h26, avistamos algo incomum: um agrupamento de seis garças em uma única árvore. Normalmente, as garças andam solitárias.
Às 10h38, passamos pela aldeia Patauazal. Esta é tida como totalmente evangélica, mas o capitão, que é evangélico, está pedindo para o pain ir lá fazer batizados e casamentos. Eu o conheci na festa de São José, na aldeia Boca da Estrada. Na ocasião, ele me convidou para visitar a aldeia. No ano passado, fui ali, mas ele não estava, tinha ido para Jacareacanga.
Às 10h54, passamos pela entrada da aldeia Campinho, situada à margem direita e é a última aldeia descendo o Cururu ou a primeira subindo. Estive ali no ano passado (2024). É uma aldeia pequena e deve-se caminhar quase um km até chegar lá. Porém, o último trecho é uma subida muito íngreme de quase 100 m.
Um detalhe interessante é que nesta aldeia há uma mulher pajé. Não é caso único entre os Munduruku. Este fato fez-me recordar alguns vídeos[[2]], feitos por IA (Inteligência Artificial), que rodam pela internet sobre a possível existência de uma “cacica” de nome Cunhambebe no Pará, “muito antes de Belém nascer”, consequentemente antes de 1616. No entanto, tal assertiva carece de respaldo de fontes historiográficas. O nome “Cunhambebe” é tupi e pode revestir-se de sonoridade feminina por conter kunhã (“mulher”), mas o personagem histórico documentado era um homem. Sim, existiu um cacique chamado Cunhambebe, atestado por fontes históricas, como os relatos Les singularitez de la France Antarctique, de André Thévet, publicado em 1557, e Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden, (título original: Warhaftige Historia und Beschreibung einer Landschaft der Wilden Nacketen, Grimmigen Menschfresser-Leuthen in der Newenwelt America gelegen …. “História verdadeira e descrição de uma terra de povos selvagens, nus e ferozes comedores de homens, situada no Novo Mundo, América…”), também em 1557.
No século XVI, o cacique Cunhambebe foi um dos mais importantes líderes indígenas do Brasil. Foi o líder supremo dos Tupinambá e figura central da Confederação dos Tamoios, a aliança indígena que resistiu à colonização portuguesa. Governou diversas aldeias entre Cabo Frio (RJ) e Bertioga (SP). Tornou-se conhecido por sua força militar e por sua influência política entre os povos costeiros. Foi aliado dos franceses no episódio da França Antártica (1555).
Às 10h59, entramos no último varadouro. É um varadouro muito estreito, mas abrevia sobremaneira o percurso.
Saímos às 11h03 do varadouro e ingressamos, novamente, no Cururu.
Às 11h07, chegamos ao Tapajós e iniciamos a subida do rio em direção à Barra São Manuel.
Às 11h28, passamos pela aldeia Vista Alegre 1. É uma pequena aldeia, a qual ainda não visitei, mas, no dia subsequente, seria realizado o sacramento da crisma naquela localidade. Dali, já se avista a Barra São Manuel.
Às 11h30, passamos pela aldeia Vista Alegre 2. É a primeira no Tapajós. Estas duas aldeias estão à margem direita do Tapajós.
Olhando ao longe a silhueta da Barra São Manuel e o azul do céu, recordei-me de parte do cântico do profeta Habacuc, que nós rezamos uma vez por mês na Liturgia das horas:
O céu se enche com a sua majestade, *
e a terra, com sua glória.
– Seu esplendor é fulgurante como o sol, *
saem raios de suas mãos.
– Nelas se oculta o seu poder como num véu,
* seu poder vitorioso.
– O meu Deus e meu Senhor é minha força
* e me faz ágil como a corça;
– para as alturas me conduz com segurança
* ao Cântico de salmos (Hab 3,3b-4.19).
Chegamos à Barra São Manuel às 11h33. Levamos duas horas e vinte minutos de viagem desde o Posto Munduruku.
Vivian e eu fomos instalados em uma acomodação congênere a uma pousada. A estrutura de instalações sanitárias banheiros e aposentos privativos.
Pain Sabá, Frei Dody e o piloto foram até a aldeia Primavera. Ali, prepararam os crismandos para que, no dia subsequente, recebessem o sacramento da confirmação na aldeia Bela Vista 1.
Barra de São Manoel
DIA 4 DE NOVEMBRO – TERÇA-FEIRA
Crismas na Aldeia Vista Alegre 1
Antes das 7h, o piloto Capitãozinho nos conduziu à aldeia Vista Alegre. Ao chegar, tivemos que enfrentar um barranco não muito alto, mas íngreme e liso, em virtude da chuva da noite anterior. Subi com muito cuidado para não escorregar.
Logo em seguida, chegaram as voadeiras procedentes das aldeias Vista Alegre 2, Primavera e Santa Cruz.
Foi emocionante ver a alegria dos Munduruku por receber pela primeira vez a visita do bispo e por poderem receber o sacramento da Confirmação.
Ali ainda não há uma igreja, mas eles já têm o Evangelista São Marcos como padroeiro. Pretendem construir uma capela em breve.
Às 7h30, deu-se início à celebração da missa campal, durante a qual crismei treze indígenas e batizei uma criança. Os crismados eram das comunidades Vista Alegre 1 e da aldeia Primavera.
Entre eles, chamou-me profundamente a atenção a alegria radiante de um idoso da Vista Alegre 1. Parecia estar nas nuvens. Seu rosto tinha uma luz especial, transbordando felicidade. Caminhava de um lado para outro sorrindo sem parar. Não sei como foi a catequese que recebeu, mas ele transmitia claramente a impressão de ter compreendido, com o coração, a força que vem da ação do Espírito Santo. Se tivesse um gaúcho conosco certamente diria: "Está mais faceiro que piá em loja de doce".
Após a celebração e a sessão de fotos, participamos do tradicional café comunitário.
Notícia triste
Ao chegarmos à Barra, Vívian recebeu a notícia de que sua tia, em Manaus, tinha sofrido dois infartos e estava em coma. Pouco depois, veio a devastadora informação de que ela havia tido um terceiro infarto, não resistira e falecera.
Vivian encontrou muitas dificuldades para se comunicar com parentes nos Estados Unidos. Seu sofrimento e angústia aumentavam diante da quase impossibilidade de encontrar um meio de chegar rapidamente a Manaus. De repente, surgiu uma esperança: recebemos a notícia de que uma aeronave buscaria uma senhora com complicações no parto, que precisava ser removida para Jacarecanga. O avião poderia levar a Vívian junto. Além disso, por mais uma gentileza do Ney, a aeronave seguiria depois para Manaus, permitindo que ela chegasse a tempo do sepultamento. Contudo, após a decolagem em Itaituba, a criança nasceu, tornando desnecessário que o avião fosse à Barra de São Manuel. Consequentemente, a Vivian perderia a carona. Mas, pouco depois, surgiu uma nova informação: o avião continuaria a viagem para buscar três pessoas da equipe de Saúde que trabalhava na aldeia Restinga. O trajeto, porém, não incluiria mais Jacareacanga, apenas Itaituba, impossibilitando o voo para Manaus. Diante da incerteza, Vívian decidiu pegar a carona para ir até Itaituba, planejando seguir para Manaus no dia seguinte. Felizmente ela acabou conseguindo chegar a tempo para o sepultamento da tia em Manaus.
Crismas na Barra de São Manuel
À tarde, estavam previstas confissões. por esse motivo, por volta das 17h, fui até a igreja para ministrar sacramento da Penitência aos crismandos e padrinhos. Às 19h30, aconteceu a celebração com oito crismas e três Primeiras Comunhões. Esta foi a terceira vez que fui à Barra de São Manoel para as Crismas. Estive presente em outras ocasiões para celebrar a Eucaristia ou, meramente, realizar uma breve visita de cortesia.
DIA 5 DE NOVEMBRO – QUARTA-FEIRA
Visita à aldeia Santa Cruz
Saímos da Barra São Manuel às 7h58, em direção à aldeia Santa Cruz, situada no rio Anipiri. O trajeto foi sair da Barra, no estado do Amazonas, subir até a confluência dos rios Teles Pires e Juruena, portanto, na tríplice fronteira, e depois subir o rio Teles Pires até chegar à foz do Anipiri, situado na margem direita do rio Teles Pires, no estado do Pará, e subir até a aldeia, que não fica longe da foz. Ali, no Teles Pires, ainda há muitas praias.
Chegamos às 8h16. Portanto, uma viagem curta de dezoito minutos. Caminhamos quase 1 km do rio até a aldeia. Quando a enchente aumentar, a maior parte desta área ficará inundada.
Fomos recepcionados primeiro por crianças, depois por adultos que foram chegando e carregando as nossas coisas até o salão, onde houve um pequeno café comunitário. Depois, nos instalamos na escola, onde armamos as nossas redes.
Como não haveria crismas, ficamos sem atividade na parte da tarde. Em razão disso, aproveitamos para pescar. O Menailson Kabá foi conosco. Eu fui o único que levou anzol pequeno para pegar mandizinhos e piranhas pequenas. Peguei onze piranhas e três mandis. Quem tirava a piranha do anzol era o Menailson. Quando eu fisguei a primeira piranha, ele a tirou do anzol, pegou a faca pontiaguda e a enfiou na cabeça da piranha.
Aproveitei para contar uma experiência ocorrida no Pantanal, mais precisamente no Porto Jofre – rio Cuiabá, município de Poconé. Deve ter sido em 2007. Eu estava lá com meu amigo dos tempos de seminário, Valdomiro Pazini, e estávamos pescando piranha para fazer caldo. Um ribeirinho se ofereceu para tirar as piranhas do anzol. Cada uma ele segurava firme com a mão esquerda e, enquanto dizia: “Piranha deve ser tratada que nem mulher: com muito carinho!”, enfiava a faca bem no meio da testa da bichinha. O Menailson riu bastante e começou a dizer: “Essa vou também tratar com carinho!”, sem mencionar a mulher.
Por falar em mulher, há interessantes histórias de índias guerreiras. Uma delas, que pouca gente conhece, é sobre as “Icamiabas”. Eu também não a conhecia, só recentemente li algo sobre essas valentes guerreiras.
Segundo relatos históricos e tradições indígenas, as icamiabas eram um grupo de mulheres guerreiras que possivelmente teriam vivido na Amazônia. Elas ficaram conhecidas como as “amazonas brasileiras”. O termo “icamiabas” vem do tupi e costuma ser interpretado como “mulher sem marido” (ou, em algumas interpretações populares, “mulher sem seio”, embora isso seja discutido por linguistas).
A respeito deste tema, o cônego Francisco Bernardino de Souza, ostenta um posicionamento assaz inequívoco:
“A existencia das Amasonas é ainda um d’esses problemas complexos que a historia não tem podido resolver.
Seria possivel a existencia de um paiz, de uma republica exclusivamente composta de mulheres, que tivessem achado meios de se conservarem e progredirem, sem que as fatigasse o exercicio das armas e o estado violento em que se achariam collocadas? Si fôr isto admittido, diz um escriptor brasileiro, meio resolvido estará o problema.
Por mais desparatada que pareça a crença nas amasonas, achou e ainda acha sectarios, mesmo entre aquelles que menos apaixonados se mostram do romantico e do maravilhoso. Colombo acreditava na existencia d’essas mulheres guerreiras; Raleigh espalhou essa crença na Inglaterra, Hernando Herrera assevera que a ouvira no Paraguay; porém foi La Condamine quem mais generalisou-a” (Lembranças e Curiosidades do Valle do Amazonas, 1873, p. 163).
José Coutinho de Oliveira, em sua obra Lendas Amazonicas, publicado em 1916, afirma:
“Eram uma especie de Atilas femininos: o terror supersticioso ou a valentia no combate daquellas guerreiras fazia com que as outras tribus se deixassem facilmente vencer nas correrias que ellas lhes davam, obrigando assim todos os povos visinhos a respeitarem a sua independencia e o seu viver mysterioso.
Deste modo apareciam ellas em diversos pontos do continente amazonico, travando luta, ora com outros indios, ora com os invasores europeus, como dizem ter acontecido a Orellana, que chamou-as simplesmente amazonas e sagrou com o nome dellas o mais importante rio do mundo” (p. 19-20).
As principais referências às icamiabas derivam de cronistas do século XVI, especialmente do espanhol Gaspar de Carvajal, integrante da expedição de Francisco de Orellana pelo rio Amazonas em 1541–1542.
Carvajal relatou ter ouvido falar de mulheres guerreiras que:
- Viviam sem homens em suas aldeias;
- Recebiam homens apenas para reprodução;
- Criavam somente as filhas mulheres;
- Eram habilidosas no uso de arco e flecha.
Tais descrições remeteram os espanhóis às amazonas da mitologia grega — fato que, presumivelmente, norteou a nomenclatura do rio Amazonas.
Lenda ou realidade?
Até a presente data, inexistem evidências arqueológicas que corroborem a existência de uma organização social estritamente gineocrática, tal como fora descrita pelos europeus.
Alguns historiadores sustentam a tese de que:
- possivelmente subsistiram agrupamentos indígenas com proeminente atuação feminina nos conflitos bélicos. A título de exemplo, há registros de que, entre os Munduruku, numerosas mulheres acompanhavam os guerreiros nas batalhas;
- Os relatos foram exagerados pelos cronistas;
- A narrativa foi influenciada pela mitologia europeia.
No entanto, é certo que as icamiabas fazem parte do arcabouço mitológico e cultural da Amazônia brasileira. Elas aparecem em:
- Lendas indígenas;
- Literatura regional;
- Estudos históricos sobre o período das grandes navegações e da colonização da América do Sul.
As amazonas, segundo a mitologia grega
Conexão com as amazonas da Grécia Antiga
Na mitologia grega, as Amazonas eram mulheres guerreiras que viviam sem homens, treinadas para a guerra e independentes. Elas aparecem em vários mitos, enfrentando heróis como:
· Hércules [[3]]
· Teseu [[4]]
· Aquiles [[5]]
Os europeus do século XVI conheciam muito bem tais histórias clássicas. Quando os exploradores espanhóis ouviram relatos indígenas sobre mulheres guerreiras na Amazônia, associaram-nos prontamenteamente às amazonas da mitologia. Gaspar de Carvajal, que participou da expedição de Francisco de Orellana em 1541–1542, descreveu embates travados contra belicosas indígenas. Impressionado, comparou-as às amazonas gregas.
DIA 5 DE NOVEMBRO - QUINTA-FEIRA
Às 7h, celebramos a missa, durante a qual estava prevista a crisma de 5 fiéis; contudo, os três homens que receberiam o sacramento partiram para Belém participar da COP30 e as duas mulheres, que também seriam crismadas, preferiram esperar para serem crismadas junto com seus respectivos maridos. Para não esperarem mais um ano, autorizei o pain Sabá a realizar as crismas em sua próxima visita, em dezembro.
Como ainda não construíram uma capela, a celebração foi no salão comunitário. Todos os cantos e as leituras foram na língua deles. Foi uma celebração muito animada, com a participação de todos os membros da aldeia.
Após a missa, houve o tradicional café comunitário. O capitão Faustino Kabá agradeceu muito a nossa visita, pedindo para virmos mais vezes.
Ida até Pedro Colares
Saímos às 8h38. A maioria dos indígenas dirigiu-se ao porto para se despedir. Às 8h49, encostamos na aldeia Primavera para abastecer e pegar o combustível que foi deixado ali, no dia anterior, para ter menos peso para as idas à aldeia Vista Alegre e Barra São Manuel.
Saímos às 9h08.
Às 9h12, passamos em frente à Barra São Manuel.
Às 9h16, passamos em frente à aldeia Vista Alegre 1.
Às 9h33, passamos pela foz do Cururu.
Às 9h37, atracamos em frente à Aldeia Restinga a fim de que o pain Sabá procedesse à de documentos. A Restinga é uma aldeia-polo e está situada bem próximo, 3-4 minutos abaixo, do rio Cururu.
Saímos às 9h51, tendo como destino a vila Pedro Colares, no estado do Amazonas, portanto, à margem esquerda do rio Tapajós. É uma comunidade de “brancos”. Sua fundação remonta ao período da demarcação da Terra Indígena dos Munduruku.
Às 10h06, passamos em frente à aldeia Pesqueirão.
Às 10h10, passamos em frente à aldeia Sawré Maybu.
Às 10h19, passamos em frente à aldeia Samaúma. Estive nesta aldeia no ano anterior, realizei vinte e uma crismas e batizei uma criança.
Logo depois de passar pela aldeia Samaúma, assaltou-me a memória o fato de que, às margens do rio Cururu, inexistem as portentosas sumaúmas que se erguem em profusão ao longo dos rios Juruena, Teles Pires e Tapajós, onde a floresta parece reconhecer nelas suas colunas mais altas, quase como se a rainha sumaúma reinasse soberana sobre o dossel amazônico. Tampouco ali são frequentes as castanheiras, que em outras regiões se impõem tanto pela altura, como pelo poder de sustentar economias e vidas, como se fossem a imperatriz discreta dessa monarquia vegetal. Ainda assim, a ausência dessas árvores na paisagem não significa ausência de seu papel na cultura: entre os Munduruku, a coleta da castanha permanece conhecida e valorizada, lembrando que, na Amazônia, a soberania da floresta não se mede apenas pelo que se vê, mas pelo que se vive e se transmite.
Chegamos a Pedro Colares às 10h48, onde iríamos almoçar.
Os moradores da vila promoveram uma recepção apoteótica, com cantos, bandeirinhas, bexigas e tapete vermelho. Foi, deveras, um momento memorável!
Não houve missa, mas o pain Sabá batizou os meninos Samuel e Mateus, com toda a comunidade presente.
O almoço foi um verdadeiro banquete para toda a comunidade. O ambiente festivo e a alegria contagiante, sem dúvidas, ficarão marcados para sempre no coração daquela gente e no nosso.
Com uma experiência assim, como não louvar e agradecer a Deus rezando o Salmo 91(92):
– Como é bom agradecermos ao Senhor
* e cantar salmos de louvor ao Deus Altíssimo!
– Anunciar pela manhã vossa bondade,
* e o vosso amor fiel, a noite inteira,
– ao som da lira de dez cordas e da harpa,
* com canto acompanhado ao som da cítara.
Ida até a Aldeia Escondido
Após o almoço, nos dirigimos para a aldeia Escondido, situada à margem direita do rio Tapajós, descendo o rio em relação a Pedro Colares.
Estive na aldeia Escondido no ano passado. Sua localização geográfica compreende as coordenadas: 6°38′48″ S 58°25′51″ O. Trata-se de uma aldeia relativamente pequena, mas muito animada.
DIA 7 DE NOVEMBRO – SEXTA-FEIRA
Às 7h, houve a celebração da missa no salão comunitário, porque ainda não foi construída uma igreja.
Na missa, estavam presentes também pessoas das aldeias Igarapé Preto e Igarapézinho, situadas um pouco acima. Ainda não tive a ocasião de visitar estas duas aldeias.
Após a celebração, fiz uma pequena visita à escola e bati um papo com os professores. No momento há quatro professores trabalhando ali:
- Cláudia Assis, 38 anos, 12 anos atuando na área indígena;
- Paulo Rodrigo da Silva, 38 anos, 12 anos na área indígena;
- Erismar Boro (indígena), 33 anos, 4 anos trabalhando como professor na área indígena.
- Samaiara Carlos da Silva, 32 anos, 4 anos na área indígena.
Cláudia, Samaiara, Erismar e Paulo
Saímos às 8h19, em direção ao ramal do Bena, localizado na margem esquerda do rio Tapajós, consequentemente, no estado do Amazonas. A aldeia Escondido fica do outro lado em relação ao ramal do Bena. É só atravessar o rio, mas como no momento há bastante água, está menos perigoso. No entanto, o rio não estava tranquilo para a navegação devido a um banzeiro. Por isso, o piloto conduziu a voadeira mais devagar e com uma atenção maior. Nessas situações, sempre aparece um medinho e eu o combato rezando o “Santo Anjo do Senhor”.
Chegamos exatamente às 8h39, ou seja, uma viagem de vinte minutos. Poderia até ter sido um pouco menos, se não fosse o banzeiro inicial.
O carmelita Frei Ari de Souza, OCD, estava nos esperando. Ele é o pároco da Paróquia Santo Antônio e São Pedro de Jacareacanga.
Partimos do ramal às 9h18, tendo diante de nós um percurso de aproximadamente 100 km para chegar em Jacareacanga. Chegamos à divisa entre Amazonas e Pará às 9h59. Todo o trajeto estava sem buracos, contudo, ao ingressarmos em território paraense, a realidade transmutou-se: a via encontrava-se em precário estado de conservação, com crateras profundas. Levamos mais de duas horas para superar o trecho paraense da Transamazônica.
Desta vez não vi qualquer draga no rio Tapajós sugando areia para pegar ouro. Pode até parecer que “auri sacra fames” [[6]] tenha arrefecido, o que, decerto, não corresponde à realidade. IBAMA combateu bastante, queimando e destruindo balsas e retroescavadeiras.
Curiosidades
É provável que o leitor se questione acerca da viabilidade financeira e dos custos operacionais desta missão: quanto custou toda essa visita pastoral? Quantos litros de combustível foram necessários? De onde vêm os recursos? Apresento, abaixo, os esclarecimentos pertinentes.
A maior despesa é sempre com o combustível. Desta vez, foram gastos cerca de 400 litros de gasolina e mais 16 litros de óleo dois-tempos para a lubrificação do combustível. Além disso, há as diárias do piloto (R$ 150,00), além dos gêneros alimentícios (levamos arroz e macarrão, café, açúcar e sal). Peixe, caça e farinha ficaram por conta dos indígenas. Salada, não há.
Todas as despesas com a manutenção dos missionários e dos trabalhos missionários da Missão, inclusive das viagens para crismas, são custeadas pelos franciscanos dos Estados Unidos. É necessário fazer projetos e enviar a prestação de contas, bem fotos e relatórios.
RESUMO NÚMERICO
CRISMAS
Nova Paxiúba = 7
Missão = 9
Cajual = 51
Wareri = 6
Waro Apompo = 13
Vista Alegre 1 = 13
Barra São Manuel = 8
TOTAL 107
BATIZADOS
Nova Paxiúba = 1
Cajual = 1
Waro Apompo = 2
Vista Alegre 1 = 1
Pedro Colares = 2
TOTAL 7
PRIMEIRA COMUNHÃO
Nova Paxiúba = 5
Missão = 13
Barra de São Manoel = 3
TOTAL 21
Aldeias visitadas
Missão
Missão Velha
Nova Paxiúba
Cajual
Pratakti
Wareri
Waro Apompo
Vista Alegre 1
Escondido
Santa Cruz
TOTAL 10
Visitadas pela primeira vez
Nova Paxiúba
Vista Alegre 1
TOTAL 2
Vilas
Barra de São Manuel
Pedro Colares
TOTAL 2
[1] O fim do famigerado SPI:
“Permanentemente carente de recursos, o órgão acabou por envolver de militares a trabalhadores rurais que não possuíam qualquer preparação ou interesse pela proteção aos índios. Suas atuações à frente dos Postos Indígenas de todo o país acabaram por gerar resultados diametralmente opostos a esta proposta. Casos de fome, doenças, depopulação e escravização eram permanentemente denunciados. No início da década de 1960, sob acusações de genocídio, corrupção e ineficiência o SPI foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O processo levou à demissão ou suspensão de mais de cem funcionários de todos os escalões (Oliveira e Freire, 2006: 131). Em 1967, em meio à crise institucional e ao início da ditadura, o SPI e o CNPI foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (Funai)”.
<https://pib.socioambiental.org/pt/Servi%C3%A7o_de_Prote%C3%A7%C3%A3o_aos_%C3%8Dndios_(SPI)>
[2] Como por exemplo: <https://www.facebook.com/share/r/16syByuD22/>.
[3] Hércules (ou Héracles) e as amazonas
A conexão mais direta ocorre no nono trabalho de Hércules, quando ele recebe a missão de obter o cinturão mágico de Hipólita, rainha das amazonas. Hipólita é uma das figuras centrais desse povo de guerreiras, e seu cinturão era símbolo de poder e autoridade. Segundo a tradição, Hipólita aceita entregar o cinturão, mas Hera — inimiga de Hércules — espalha o boato de que o herói planejava raptar a rainha. Isso provoca um combate entre Hércules e as amazonas, que termina com a morte de Hipólita em algumas versões.
[4] Teseu e as amazonas
A relação de Teseu com as Amazonas é geralmente associada à expedição em que ele acompanha Héracles em seu nono trabalho, cujo objetivo era obter o Cinturão da rainha amazona Hipólita. Durante essa jornada, segundo algumas tradições, Teseu rapta a amazona Antíope (às vezes identificada como irmã de Hipólita) e a leva para Atenas. Esse episódio teria provocado a invasão das amazonas à Ática, desencadeando a chamada Amazonomaquia, um conflito célebre na mitologia e amplamente representado na arte grega.
[5] Aquiles e as amazonas
A ligação entre Aquiles e mulheres guerreiras aparece sobretudo no encontro dele com a rainha amazona Pentesileia, um dos episódios mais fortes e simbólicos do ciclo troiano.
[6] Esta expressão utilizada pelo famoso escritor romano Virgílio para condenar a ambição insaciável de riqueza. Significa: "execrável fome de ouro" ou “maldita fome de ouro”. Fonte: Virgílio, Eneida, III, 56-57.
Foi uma missão muito especial em todos os sentidos. Realização de sonho em poder usar a minha profissao em prol da evangelização e mostrar o lindo trabalho missionario da Missao Sao Francisco. Mas Papai do Ceu tinha outros planos e nao consegui finaliza-la. O sentimento da alegria transformou-se em profunda tristeza e ao mesmo tempo eterna gratidao pelo carinho e apoio de Dom Wilmar e de todos que naquele momento uniram-se para que eu pudesse chegar para velorio de minha tia-madrinha que ajudou a me criar, com quem eu morava. A missão ainda não terminou, terá continuação, tão logo seja possivel. Lindo trabalho Dom Wilmar!
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