sábado, 1 de abril de 2023

UMA PESCARIA DIVERTIDA NO RIO CURUÁ


 

UMA PESCARIA DIVERTIDA NO RIO CURUÁ

 

Quem já pescou sabe o quanto é maravilhoso ir à beira de um rio, acampar, pescar, dormir em rede ou no chão, fritar peixe, conversar, contar causos e mentiras... Cansativo é, mas restaura as forças, elimina o estresse e reconforta o ânimo! Cada pescaria tem um encanto próprio que motiva o pescador a querer repetir a experiência! O mágico é que uma pescaria nunca é igual às outras! Cada uma tem um “tchã especial, como esta que vou contar. 

A pescaria divertida aconteceu no rio Curuá, no distrito de Cachoeira da Serra, município de Altamira. Sua nascente fica na Serra do Cachimbo e deságua no rio Iriri, que por sua vez é afluente do rio Xingu, tendo uns 450 km de extensão. Onde fui pescar, perto da cabeceira, tem uma largura média entre 20 e 30 m, portanto não é um grande rio para a Amazônia, porém, é bastante piscoso.

Desde novembro do ano passado tínhamos programado a pescaria. Meus amigos Chico, Áureo e Pipoca, que moram em Cachoeira da Serra, estavam vibrando e me provocando com fotos de outras pescarias. Estava combinado para sairmos às 7h da manhã, mas surgiram imprevistos e só nos foi possível sair às 10h30. O Chico estava impaciente e reclamando do Áureo que não chegava. Eu só dizia: “O tempo é nosso! O nosso objetivo é pescar e não nos estressar! A hora que formos está bom!” Ele se acalmou e não deu bronca quando o companheiro chegou.

O rio estava cheio. Faltava menos de meio metro para o nível do Curuá atingir a ponte. Como as chuvas aumentaram nos dias sucessivos, aconteceu a chamada “enchente de São José” e a água passou por cima da ponte. Segundo o Pipoca, todos os anos nos dias que antecedem a festa de São José, chove muito e provoca uma grande inundação. Neste ano sou testemunha deste fenômeno climático.

Levamos duas voadeiras. Logo abaixo da ponte há um bom porto para se colocar as embarcações no rio. O Áureo tinha adquirido muçum e minhoca para isca, em Cuiabá, porém, esqueceu em casa. Por sorte, o Pipoca é bem prevenido e levou uns peixes pegos na pescaria anterior. Também levou minhocas. Assim tínhamos iscas para pescar.

Fiquei na voadeira com o Pipoca de piloto. Na outra ficaram o Áureo de piloto e o Chico. Fomos os primeiros a sair. Descemos até chegar onde há uma balsa, que serve de apoio para pescadores. É muito bem feita. O assoalho é ótimo. Tem uma mesa, pia, uma churrasqueira e cadeiras. O Pipoca preparou o almoço assando carne de porco e fazendo uma salada de tomate e cebola.

Durante o almoço, o cuiabano Pipoca, que é um falador inveterado, sem embatucar contou-nos uma facécia do tempo em que ele pescava no rio Cuiabá. Era a história de uma traíra guaxa. Eu já tinha ouvido falar de bezerro guaxo, ou seja, de terneiro que não tem mãe e é amamentado por outra vaca ou na mamadeira, mas de traíra guaxa... foi a primeira vez! Disse ele que em certa ocasião pescou uma traíra, com anzol nº 16 - conhecido como mosquitinho, por ser o menor de todos os anzóis. Acrescentou que não tinha colocado castor. Mesmo sendo uma traíra muito pequena - na verdade um filhote, ele a colocou no bornal. Quando chegou em casa, viu que ela ainda estava viva. Percebeu que era uma traíra guaxa e que estava desnutrida. Por isso deu-lhe um pouco de leite. Viu que ela bebeu e gostou. Daquele dia em diante passou a alimentar a trairinha com leite e a deixava no quintal junto com as galinhas. Até brincavam de esconde-esconde. Ela foi crescendo e se tornou uma traíra adulta. Então começaram os problemas: a traíra passou a comer os ovos das galinhas e depois a devorar os pintinhos. Pra complicar mais ainda, os vizinhos foram ao IBAMA e fizeram uma denúncia de que ele estava criando um peixe fora d’água. Ele, que não é bobo e não queria levar uma multa, resolveu devolvê-la ao seu habitat natural. Chamou todos os seus amigos pescadores, vizinhos, colegas de escola para assistir à devolução da traíra ao rio Cuiabá. Até banda de música ele contratou. Com muita festa e barulho rumou para o rio tendo a traíra nas mãos e lágrimas nos olhos, afinal, após meses dando de mamar pra bichinha, ele tinha se apegado demais a ela. A traíra tinha se tornado um verdadeiro xerimbabo, um bichinho de estimação. Ao chegar à margem do rio, enxugou as lágrimas, deu um beijo na testa da traíra e a soltou lentamente à flor da água. Ela foi afundando, afundando até desaparecer. Todos bateram palmas e gritaram: “Viva a traíra guaxa!!! Viva o Pipoca!!!”. Mas eis que de repente todos ficaram em silêncio e uma tristeza geral caiu sobre eles: a traíra estava boiando morta! Tinha morrido afogada!!!

Eu não aguentei e gargalhando disse: “O Pipoca é realmente criativo em contar gazopas!”

Depois de almoçar e ouvir esta e outras caraminholas e pérolas lendárias contadas por pescadores, saímos para pescar.

Como o rio estava bastante cheio, a água entrava na mata ciliar formando o chamado igapó. É para lá que os peixes vão, porque ali há comida, principalmente frutas silvestres e insetos. No leito e nas beiradas do rio havia muita correnteza e nada de peixe. Fomos mudando de lugar e nada de beliscar. Nem piranha atacava a isca. Tentávamos pegar mandi com a minhoca e também nada de beliscar.

Se o rio não estava para peixe, a natureza estava exuberante. Era maravilhoso contemplar as árvores e a vegetação. No céu azul brilhava o astro-rei com todo o seu esplendor, as andorinhas davam um espetáculo todo particular com suas revoadas. Pequenas borboletas de asas amarelas volitavam de uma margem para a outra. Ouvia-se o rumor doce e cantante do repuxo das correntezas. Mas peixe: nada, nada, nada! Parecia que estavam de greve!

Como nem beliscavam, começamos a conversar sobre quem era o "panema" que estava prejudicando a pescaria. Eu logo disse: “Deve ser você, Pipoca, porque no mês passado você pescou aqui no Curuá junto com o Pe. Melquisedeque, que é o maior panema entre os membros do clero do Brasil e quiçá até do mundo. E ele passou a “panemice” pra você”. O Pipoca logo protestou: “Eu não, ele foi com o Chico!” Um ficou empurrando para o outro. O Áureo e eu só dávamos risada. 

Infelizmente não dá pra negar: o Pe. Melquisedeque é panema desde que nasceu. Acho até que ele é um dos maiores panemas que nasceram entre os descendentes de Adão e Eva. Ele até gosta de pescar, mas nunca consegue pegar um peixe sequer. Nem mandi, que se fisga sozinho, ele consegue fisgar. Entretanto, na pescaria anterior ele conseguiu pegar um bonito exemplar de surubim. Eu vi a foto. Confesso que duvidei que tinha sido ele quem tinha fisgado. O Pipoca me garantiu que foi ele mesmo. Fiz de conta que acreditava. Seja como for, parece que acabou a “panemice” dele. Porém, se tal aconteceu, ele a passou para seu companheiro de pesca que estava no mesmo barco. Eu tinha entendido que ele estava na voadeira com o Pipoca, mas o Pipoca se defende dizendo que não. Nenhum dos dois quer ser o herdeiro da panemice. Mas, sempre que o Pe. Melquisedeque retorna para uma pescaria, há uma disputa sobre quem vai levá-lo na voadeira, porque ele é gente boa demais!, bonachão, de fala mansa e gostosas gargalhadas, principalmente quando é chamado de panema. Ele entende que é brincadeira e entra no clima com boas risadas.

Os indígenas Apiaká da aldeia Pontal lá do rio Juruema me disseram que para acabar com a panemice deve-se abraçar o tachizeiro por 10 minutos, deixando a terrível formiguinha tachi picar à vontade. Não há quem aguente suas picadas porque a dor é muito intensa, fica-se com a sensação de que está queimando. Já receitei para o Pe. Melquisedeque abraçar um tachizeiro – a árvore onde as tachis gostam de ficar – mas ele não tem coragem, prefere continuar panema.

Quando se está ali esperando o peixe beliscar, muitas recordações e pensamentos vêm à memória. Por exemplo: outras pescarias em que pegamos muitos tucunarés, cacharas, surubins, pirararas, trairões,  pescadas (corvinas) e piranhas. Mas também aparecem pensamentos espirituais e religiosos. Desta vez de repente veio à memória o salmo 64(65), principalmente a última estrofe:

“– As colinas se enfeitam de alegria, * 

e os campos, de rebanhos; 

– nossos vales se revestem de trigais: * 

tudo canta de alegria!”

Vi-me louvando a Deus pela criação. Senti que realmente “tudo cantava de alegria”. 

Pode até parecer coincidência, mas o salmo também menciona chuva – “Visitais a nossa terra com as chuvas, e transborda de fartura. Rios de Deus que vêm do céu derramam águas e preparais o nosso trigo” – e enquanto repassava na cabeça o versículo, pelas 16h30, o Pipoca – interrompendo minha contemplação – me disse: “Vai chover em poucos minutos!”. Eu nem tinha reparado que o céu estava abaçanado por nuvens cor de chumbo, que as nuvens escuras estavam ligeiras e vindo em nossa direção.

Ele começou a recolher os anzóis e me estimulou: “Rápido! Rápido! Recolha as linhas! A chuva vai ser torrencial! Nem vai dar tempo de chegarmos na balsa”.

Com as “traias” recolhidas, nos pusemos em movimento subindo o rio.  Nem tínhamos navegado 200 m e já começou a chover com a chuva engrossando logo em seguida. O Pipoca – sempre previdente - tinha levado dois guarda-sóis. Conseguimos nos proteger, no entanto, o Chico e o Áureo, que não foram previdentes, tomaram um banho sem tamanho.

Ainda chovia quando resolvemos ir até a balsa e esperar a chuva passar. Os dois “pintos molhados” estavam tremendo de frio. O Áureo disse: “Pena que não temos uma cachaça para ajudar a esquentar”. O Pipoca, que é previdente como as cinco virgens da parábola (Mt 25,1-13), tinha levado uma garrafinha com a danada. Ele é tão esperto que, para ninguém saber que ele leva cachaça, colocou-a numa garrafa plástica de meio litro comprada em Aparecida do Norte com a imagem de Nossa Senhora, simulando assim que é água benta. O Áureo foi o primeiro a tomar. Logo foi dizendo: “É muito fraca” e tomou o dobro para poder esquentar. Realmente havia evaporado muito do álcool. Mesmo assim eles puderam se esquentar e evitar a gripe.

Na balsa começamos a lamentar que não tínhamos pego nem um mandizinho sequer. Recordei o que aprendi com meu amigo José Bissone, de Curitiba: “Numa pescaria, peixe é um detalhe, detalhe importante mas um detalhe. O principal deve ser esfriar a cabeça, descansar a mente, desestressar, tomar uma cervejinha, conversar e contar vantagens de outras pescarias, etc.”

Ao pardejar, como não estava dando nada, resolvemos ir embora antes do previsto. Mas a certa altura da volta, o Pipoca me disse: “Vamos parar aqui porque vou pegar um trairão. Neste lugar até a minha mulher já pegou um trairão”. Confabulei com meus botões: “Mais uma bobeira do Pipoca. Só vamos perder tempo”. Mas para não contrariá-lo e com a esperança de que seria eu é que pegaria o trairão para poder contar vantagem, acabei anuindo. No entanto, foi ele quem pegou um, mas não um trairão e sim um peixe-pau, a saber, um enrosco, ou, engate – como dizem os ribeirinhos. Como não conseguiu tirar o peixe-pau d’água, teve que arrebentar a linha perdendo o anzol e a chumbada. Quem manda ser teimoso!

Ao retornarmos o Áureo ligou o som do carro e, por coincidência,  a primeira canção foi: “Pescaria no Mogi Guaçu” com Dino Franco e Mouraí[1] cantando. Aproveito para colocar a letra da música:

 

Fui fazer uma pescaria

Lá no rio Mogi Guaçu

Fiquei no rancho do Dida

Caboclo bom pra chuchu

 

Eu levei anzol de vara

Pra pegar piabauçu

O Xô preparou um cóvo

Só de taquara bambu

 

O Chicão encheu a cara

Com o Ocridão Barbaçu

E foram fazer a janta

Saiu tudo meio cru 

 

O Neto tava com fome

Foi aquele sururu

Sei dizer que nós não vimos

Nem o cheiro do tatu 

 

Perguntei pro Zé Cardoso

Se ali dava nhambu

Ele disse: - não é sempre

Mas às vezes canta um jacu

 

Então já me deu vontade

De matar esse jaburu

Mas o nosso tira-gosto

Foi rolinha com angu 

 

Eu fisguei um peixe grande

Bem maior que um jaú

Ele arrebentou o anzol

Da linhada do Dudu 

 

Peguemos de promombó

Muito lambari tambiú

Pescaria igual a essa

É só no Mogi Guaçu

 

É certo que foi uma pescaria baldada, mas rendeu uma boa história ou crônica. No entanto, depois de ouvir esta linda canção, acho que da próxima vez vou convidar meus amigos para irmos pescar no Mogi Guaçu. Com certeza, não será outra pescaria inusitada como esta!

 

Wilmar Santin, O.Carm.

Itaituba, 1º de abril de 2023.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Eu daria tudo que eu tivesse pra voltar aos dias de criança


 

 

 “Eu daria tudo que eu tivesse pra voltar aos dias de criança” (Ataulfo Alves)

 

Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

 

Assim como o grande Ataulfo Alves, muitas vezes também tenho o desejo de voltar aos dias de criança. Porém, voltar aos dias de criança só seria possível acionando a memória, deixando-me guiar pelas asas da saudade ou num filme, como o “De volta para o futuro”. Como não tenho a capacidade de “voltar ao futuro”, vou voltar aos belos e inesquecíveis anos da minha infância e garimpar, no filão das recordações, algumas reminiscências dos melhores anos da vida - e tentar tanto quanto possível revivê-las no mundo mágico da imaginação. 

Deixando a poesia e os desejos de lado, é bom frisar que aquilo que vivemos não volta mais. Se tentarmos repetir as nossas experiências, poderemos nos frustrar, porque nunca serão iguais pelo simples fato de que nós não somos mais os mesmos. É como ensinou o filósofo pré-socrático, Heráclito de Éfeso: “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio… pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem!”.

Estamos sempre em contínua mudança. Cada dia nos tornamos pessoas novas e, apesar de não percebermos, já somos pessoas diferentes do que fomos no dia anterior. Aquilo que nos é agradável, nós queremos que se prolongue no tempo e que nunca termine. Outro dia, uma menina me disse que não queria crescer, queria ficar para sempre criança. Ela deve estar vivendo uma infância muito feliz e sabe que é feliz, mas vai crescer e deixará de ser criança, querendo ou não.

Machado de Assis publicou um conto com o título “A Segunda Vida”. Usou sua prodigiosa imaginação para descrever como poderia ser a vida de uma pessoa, se ela voltasse a nascer com a experiência que tinha quando morreu. Com a categoria que Deus lhe deu, narra a história de um homem que foi conversar com um padre, ou melhor, com um monsenhor. O homem começou contando que tinha morrido aos 68 anos, mas que foi reenviado “à terra para cumprir uma vida nova”. Ele só aceitou voltar com a condição de que devia nascer experiente. Segundo suas próprias palavras, sua nova vida estava sendo só aborrecimentos e frustrações:

— “Renasci em cinco de janeiro de 1861. Não lhe digo nada da nova meninice, porque aí a experiência teve só uma forma instintiva. Mamava pouco; chorava o menos que podia para não apanhar pancada. Comecei a andar tarde, por medo de cair, e daí me ficou uma tal ou qual fraqueza nas pernas. Correr e rolar, trepar nas árvores, saltar paredões, trocar murros, coisas tão úteis, nada disso fiz, por medo de contusão e sangue. Para falar com franqueza, tive uma infância aborrecida, e a escola não o foi menos. Chamavam-me tolo e moleirão. Realmente, eu vivia fugindo de tudo. Creio que durante esse tempo não escorreguei, mas também não corria nunca. Palavra, foi um tempo de aborrecimento; e, comparando as cabeças quebradas de outro tempo com o tédio de hoje, antes as cabeças quebradas”.

Ao reler este conto, recordei uma maravilhosa experiência que tive em maio de 2012, no rio Tapajós, entre os indígenas Munduruku, na comemoração dos 100 anos da Missão São Francisco do rio Cururu. Foi organizado um mutirão de visitas missionárias às aldeias dos outrora “cortadores de cabeças” antes do encerramento das comemorações do centenário. Foram recrutados 35 missionários, entre padres, religiosos/as e leigos, e enviados dois a dois. Tive como companheiro, o meu amigo Jonas Pinheiro, de Curitiba. Visitamos as aldeias Katon, no rio Kabitutu, e Sai Cinzas, à margem esquerda do Tapajós. Depois seguimos até a Missão São Francisco, onde haveria as comemorações finais. Ao sairmos da aldeia Sai Cinzas pelas 7h da manhã, encontramos três jovens índias banhando-se no rio. Uma delas estava com uma criança nascida na semana anterior, “ensinando” a frágil criaturinha a nadar. Segurava-a nos braços e a embalava na água. Ela me pediu para dar uma bênção para o “anjinho” ainda tão tenro. Após abençoá-lo, perguntei se não era arriscado trazer a criança nesta idade para o rio. Disse-me que a criança tem que aprender a gostar do rio desde o dia do nascimento. Fiquei com aquilo na cabeça.

Uma hora mais tarde chegamos à aldeia Boca das Piranhas, situada à margem direita do Tapajós. Paramos para pegar dois missionários. Junto à barranca do rio, havia seis crianças brincando na água com uma alegria exuberante. Pelo tamanho, davam a impressão de que tinham entre 2 e 3 anos ou 4 no máximo. Pareciam pequenas lontras, tal a agilidade: subiam numa árvore, pulavam no rio, nadavam até o barranco, saíam e repetiam ininterruptamente, as mesmas ações rindo e gritando. Transmitiam uma felicidade contagiante. Um gaúcho diria: “Estão mais faceiras do que lambari em sanga!” A alegria e a felicidade daquelas crianças me deixaram impactado e renovado. A energia positiva, ali recebida, me ajudou a aguentar as mais de 9 horas de viagem na voadeira, rio acima.

Foram longas aquelas horas sob o sol, sentado, ou melhor, meio “acrocado”, porque o banco era baixo. Aos poucos foi dando uma dor nas costas, mas a imagem de felicidade daquelas crianças, tão vivazes, fez com que eu recordasse alguns fatos encantadores da minha infância, sobretudo de banhos e pescas no rio Tigre, em Nova Londrina, onde nasci.

Como era gostoso e tentador ir tomar banho no rio nos tempos de infância e adolescência. O pai e a mãe não nos deixavam ir, a não ser que um dos irmãos mais velhos fosse junto. Tinham receio de que nos afogássemos. Nós fugíamos e íamos. Se chegássemos em casa com o calção molhado: a surra era certa. E quantas vezes apanhei por causa disso!

Como na vida é possível dar um jeito em quase tudo, arrumamos um jeito de não chegar em casa com o calção molhado. Passamos a sair da água um pouco antes do anoitecer. Tirávamos o calção e o batíamos contra a parede onde estava a turbina, para sair o máximo possível de água. Assim dava tempo do calção secar até chegarmos em casa. Mas como nada é perfeito, a parte do elástico ficava molhada. Algumas vezes a mãe ou o pai percebia que o elástico estava molhado. Daí o chinelo comia solto nas nádegas e nas pernas. Era o costume da época!

Por falar em surra, quando penso nas que levei, constato que não ficou qualquer trauma ou problema psicológico. Lembro que apanhei muito, mas não lembro da dor em si das varadas ou chineladas. Não tenho qualquer revolta por causa das muitíssimas sovas que levei. E quando lembro, a minha reação é dar risada e dizer: “Eu merecia”. A mãe só dava tapas. Só acertava o primeiro, porque quando ia dar o segundo, já tínhamos fugido. E ela ficava dizendo: “Venha aqui que eu quero te bater”. Como éramos desobedientes e não queríamos apanhar, corríamos para longe. Ao voltarmos, a raiva da mãe já tinha passado. Por isso não batia mais.

Com o pai não adiantava correr, porque ele nos pegava quando voltávamos. As lapadas dele eram pesadas e prolongadas. Tinha um pé de marmelo no quintal e era dali que ele pegava a vara. Como aquela vara demorava para quebrar, se é que quebrava! Ele utilizava também seu chinelo de couro. Colocava a nossa cabeça entre suas pernas, ficávamos, consequentemente, curvados com o traseiro pra cima e pronto pra receber as chineladas. Como era doído!!! Muitíssimas vezes também usava a cinta. As pernas dançavam e saltavam querendo inutilmente escapar das cintadas.

O nosso castigo mais temido não era a surra, mas sim uma xícara de azeite de oliva, que o pai nos obrigava a tomar. Era da marca Gallo ou Carbonell. Como era ruim!!!! Eu preferia tomar cinco tundas do que uma xícara daquela coisa que custava a descer pela garganta e com seu gosto ficando por muito tempo na boca. Não virou trauma, mas sim um certo bloqueio psicológico, tanto é que até hoje me repugna e evito usá-lo na salada.

Mesmo com as surras e castigos, não desistíamos de ir ao rio tomar banho. O meu grande problema foi aprender a nadar. Não tive a mesma sorte das crianças Munduruku, que são levadas desde o dia do nascimento para serem banhadas no rio. Tive que aprender como os outros meninos aprendiam. O “pulo do gato”, o modo infalível para aprender a nadar era engolir um peixinho vivo. Sim, isso mesmo: engolir um lambarizinho vivo! A crença era de que ele iria nadar dentro do estômago e assim ensinava a criança a nadar. E por incrível que possa parecer, a artimanha funcionava muito bem. No meu tempo todos os meninos aprenderam a nadar engolindo pelo menos um peixinho vivo. Essa “técnica” funcionava como alavanca para fazer com que a criança perdesse o medo, que é o principal entrave para alguém aprender a nadar.

Eu custei a perder o medo. Por isso tive que engolir vários guarus. Um dia consegui pegar um lambari maiorzinho. O bichinho desceu fazendo cócegas na garganta. Me senti forte e sem medo. Entrei em águas mais profundas e comecei a nadar como um “cachorrinho”. Batendo as mãos e pés consegui chegar ao outro lado do rio. Que alegria e que sabor de vitória! Só quem passou por uma experiência semelhante entenderá essa sensação de superação.

Para nós era normal "matar aula" para ir tomar banho no rio. Se o pai ficasse sabendo, a coça era dupla: uma por matar aula e outra por ir ao rio, mas moleque não tem jeito! Sempre havia pessoas linguarudas para contar: “Vi teu filho tomando banho no rio durante o período das aulas”. É, em cidade pequena o controle social é grande!

Diz-se que a primeira pesca nunca se esquece, principalmente se consegue pegar seu primeiro peixe. Recordo perfeitamente a minha primeira vez: peguei dois peixes! Foi um atrás do outro. Meu irmão mais velho ia pescar e me levou junto. Eu devia ter uns 6 anos. Lembro-me que foi depois da Copa do Mundo de 1958. Está na minha memória o local onde chegamos: era para cima da indústria de bebidas do Hilário Zilio e havia árvores, portanto, não ficávamos expostos ao sol. Meu irmão se instalou no melhor poço e não me deixou pescar ali, visto que o poço era pequeno. O jeito foi arrumar um local para mim. Subi uns 15 a 20 metros e pressenti que ali era um bom local. O meu faro de pescador não falhou: foi jogar a minhoca na água e já fisguei um dourado cachorro. Como gritei e pulei de alegria! Foi maravilhoso demais pegar aquele primeiro peixe! Joguei o anzol de novo e peguei o segundo. Eu nem acreditava! A sensação era de que estava vivendo momentos de pura magia! 

Meu irmão veio e tomou o meu poço, dizendo: “Você não sabe pescar! Eu vou pescar aí!” Ele era bem maior que eu e se eu engrossasse, além de levar alguns safanões, não seria chamado outras vezes. Claro que eu “afinei”, obedeci e deixei o poço para ele. Fui ao local onde ele estava. Não peguei mais nada, mas a vitória já era minha! Cheguei em casa radiante, com o troféu na mão, podendo mostrar os dois peixes e contar a história para o pai. Ele profetizou: “Você será um grande pescador!” Acho que ele acertou! Oh felicidade!

Muitas vezes íamos pescar lambari. O material de pesca era comprado na Casa Japonesa, próxima ao rio. Só tínhamos um único anzol, ou seja, o da vara. Não havia um de reserva! Se enroscasse, pulávamos na água para desenroscar. Normalmente pescávamos do lado de baixo da represa. Havia um “ladrão” antes da turbina por onde a água excedente passava formando uma pequena cachoeira. Ali dava muito lambari. Quando chovia, a água ficava barrenta e então só dava bagre e mandi. A isca, para qualquer peixe, era sempre minhoca. 

Na represa, formada para abastecer a turbina geradora de luz para a cidade, havia muito aguapé e daí pescávamos de peneira. Normalmente pegávamos o peixe espada, também conhecido como morenita ou tuvira. Em dois enfiávamos a peneira debaixo do aguapé e a erguíamos; um terceiro tirava o aguapé e os peixes ficavam na peneira. De vez em quando aparecia um bagre ou mandi. Lambari era muito difícil de pegar na peneira. Eles fugiam quando nos aproximávamos. 

Festa mesmo, era quando, na peneira, havia uma piramboia (muçum, enguia, também chamada de peixe cobra, por parecer com uma). É lisa e difícil de ser contida nas mãos, por isso corríamos para onde havia areia fora da represa. Com areia nas mãos era fácil de pegá-la. De cor preta, ficava branquinha depois que tirávamos as tripas e jogávamos água quente em cima, raspando com uma faca. Era muito saborosa. Recentemente descobri que é uma excelente isca para pegar pintado.

Em torno de um quilômetro para baixo da turbina havia um ótimo lugar para tomar banho. O local era conhecido como “pinguela”, devido a uma árvore caída e atravessada no rio, que possibilitava o trânsito a pé de uma margem para a outra. Quando íamos tomar banho ali, sempre víamos um cardume de curimbas. Este tipo de peixe é muito difícil de pegar com anzol, porque ele chupa a isca sem morder.

Para ir até a pinguela descíamos a avenida até a última rua antes do rio. Na esquina, do lado direito, estava a Casa Japonesa; dobrávamos à esquerda e íamos até o fim, onde na esquina do lado esquerdo residia a família Gehring. Era uma casa grande de madeira com várias janelas e de cor verde. Continuávamos pelo lado da serraria do Sr. Carlos Antonio Gehring, seguindo transversalmente em direção ao rio.

Do outro lado do rio, margem direita, estava a propriedade do Sr. José Raimundo. Ali trabalhava a família de Pedro Agostinho Arraes e Maria Vitória do Nascimento. O filho Agostinho Pedro Arraes, que mais tarde se tornou um famoso judoca e professor de judô, passava pela pinguela todo dia para ir à escola. Segundo o Agostinho, não se tem notícia de que alguém tenha caído no rio ao passar pela pinguela, com o detalhe de que não havia um corrimão.

Recordo que um pouco para cima, do outro lado do rio, havia uma família oriunda da Checoslováquia. Meu pai tinha uma grande amizade com o chefe daquela família. Guardo na memória uma conversa do meu pai com o velho tcheco sobre a final da copa do mundo de 1962, quando o Brasil se sagrou bicampeão ao vencer a final justamente contra a Tchecoslováquia. Masopust havia feito 1 a 0 para os tchecos, mas Amarildo, Zito e Vavá viraram o jogo para 3 a 1 a favor da seleção canarinha e o Brasil se tornou bicampeão mundial.

Em relação ao clã tcheco, recordo também do Bodalírio Constantini, que era casado com uma das filhas do casal tchecoslovaco e era poceiro, ou seja, furava poços e fossas. Um dia teve a infelicidade de morrer soterrado devido a um desbarrancamento no poço que estava cavando. Por ser uma pessoa muito querida, causou grande comoção na pequena cidade.

Um dado interessante é que - segundo a minha memória - durante o período da nossa infância não morreu afogada uma criança sequer, na represa e no rio Tigre. Por que será? Certamente o anjo da guarda nos protegeu muito bem! Em casa, a nossa mãe, além do “Santo Anjo”, nos ensinou a rezar uma oração bem curtinha: “Meu anjinho, meu amiguinho, me leve sempre pelo bom caminho”. 

Se recordo as travessuras e loucuras que fazíamos no rio, percebo que, sem dúvida alguma, os anjos da guarda nos protegeram. É só pensar no atrevimento e irresponsabilidade da “molecada” ao pular naquelas águas, de cima do monte de pó de serra, para se ter certeza. No fundo do rio havia paus que foram jogados junto com a serragem vinda da serraria. Era um perigo medonho, mas nunca aconteceu nada. Por que será? Sorte ou proteção divina?

Era encantador ficar observando as jaçanãs, que chamávamos de marrequinhas, andando sobre os aguapés. Essa linda ave de bico amarelo, peito preto, costa marrom e asas, quando abertas, de cor amarela clara - quase branca, me fascinava. Minha vontade era armar uma arapuca para pegá-las e poder levá-las para casa. Infelizmente de vez em quando aparecia um caçador e as matava. Com isso a natureza perdia um pouco do seu encanto, da sua beleza, alegria e esplendor.

Mas as minhas idas ao rio não foram só alegrias, também aconteceram alguns acidentes. Vou contar apenas um, sucedido em janeiro de 1965. Estávamos voltando do banho e passando por uma erosão feita pelas enxurradas que desciam pelas ruas da cidade. Era uma valeta enorme tanto de largura como de profundidade. Não me lembro quem estava caçando, mas o tal sujeito deu um tiro numa cachopa de abelhas. Todos corremos. Eu comecei a correr olhando para trás, quando me virei, bati com a testa na quina de uma grande vigota que estava atravessada na valeta. Fez um talho na testa e não parava de sair sangue. Precisava dar pontos, mas meu medo de injeção era e é maior que o estrago provocado por aquela grande valeta. Tenho verdadeiro pavor de levar uma espetada de agulha. Não importa o tamanho da agulha, nem se é anestesia, vacina ... eu evito o máximo que posso. Para obturar um dente sempre digo que é para fazer sem anestesia. 

Naquela ocasião, meus pais, irmãos e mais alguns conhecidos tiveram um trabalhão para me levar até o hospital. O experiente médico da cidade, Dr. Olivier Grandene, meu padrinho de crisma, estava de férias. No hospital, os dois estudantes de medicina, que estavam estagiando, ficaram apavorados! Ninguém conseguia me segurar. Recordo que na sala estavam meu pai, minha mãe, meus dois irmãos mais velhos, Valdir e Valdomiro. Também o meu tio, Narciso Santin, os dois estagiários e mais algumas pessoas que foram chegando. Tinha apenas 12 anos, mas eu parecia o Sansão; minha força e resistência era tamanha, que eles não conseguiam me imobilizar. Por fim chegou o Sr. Leitner, que era gordo e bem barrigudo. Ele deitou em cima dos meus joelhos e me imobilizou. Daí o estagiário, que usava um bigodinho, conseguiu anestesiar. Levei seis pontos!

Teria ainda muitas histórias e peripécias para contar, creio que estas, por hoje, são suficientes para ajudar o leitor a recordar sua própria infância. Termino com uma poesia que contém muitas coisas com as quais me identifico. Não é do Patativa do Assaré, mas muito semelhante à dele.


Menino de rua 

 

Menino de rua 

Que pinta, que esbanja, que rouba laranja no meu quintal 

Que atiça o cachorro, que joga bolinha 

Que engraxa sapato, que xinga a vizinha 

Que vende jornal 

Menino de rua 

Moleque vadio que fuma 

Que nada no rio em dia de sol 

Que grita, que briga 

Que faz arruaças, que estraga telhado 

Que quebra vidraças com seu futebol 

Menino de rua 

Que foge da escola 

Que forma seu bando de gente gabola no becos sem luz 

Que diz nome feio, que gospe e conjus 

Que segue o palhaço 

Que mente, que jura com dedos em cruz 

Menino de rua 

Que pisa na lama, que senta no chão, que suja as calças 

Que põe apelidos 

Que busca recados, que leva bilhetes por vinte centavos 

Menino de rua 

Magrinho e briguento que quase não come 

Que dorme ao relento sem nada queixar 

Que vai ao cinema, que banca o mocinho 

Que canta e assobia, que sofre sozinho, que vive sem lar 

Menino de rua 

De brecha na testa, de calça rasgada 

Que em dia de festa a gente não vê 

Que joga baralho, que pula, que salta 

Que brinca de pique 

Menino Peralta 

Invejo você! 

Lucia Javorski Bara[ [1] ]

 

Itaituba, 22 de fevereiro de 2023.

 


 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

“De Nazaré pode sair algo de bom?” - 1




“De Nazaré pode sair algo de bom?” - 1

UMA EXPERIÊNCIA NO PRESÍDIO DE ITAITUBA


Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

 

Certo dia recebi um convite para representar a parte católica numa celebração ecumênica no presídio da cidade de Itaituba. Não fui informado sobre quantas e quais outras igrejas tinham sido convidadas. Sempre que posso, aceito com muita alegria convites para participar de celebrações ecumênicas. Rezar juntos é maravilhoso e sempre faz bem! Jesus nos dá o fundamento: “Onde dois ou três estão reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Nessas celebrações sempre estamos reunidos em nome de Jesus.

O presídio, cujo nome oficial é Centro de Recuperação de Itaituba, foi construído há mais de 25 anos com o objetivo de abrigar 190 detentos. Porém, segundo notícias veiculadas na imprensa local, normalmente está lotado e algumas vezes com mais de 400 reclusos. A superlotação provém do fato de que a casa prisional recebe presos dos municípios de Aveiro, Itaituba, Jacareacanga, Novo Progresso, Rurópolis e Trairão.

Todo ano a imagem de Sant’Ana é levada ao presídio antes dos festejos da padroeira. Por isso, estive nesse lugar algumas vezes acompanhando a imagem. Normalmente passamos pelos corredores e entramos nas celas. Porém, uma vez isto não nos foi possível entrar nas celas e nem sequer passar pelos corredores devido ao alto risco de uma rebelião. Fomos levados para a parte de cima das celas e de lá podíamos ver os presos e eles também conseguiam nos ver. Fomos cantando, rezando e mostrando a imagem. Os presos nos olhavam um pouco assustados sem entender o que estava acontecendo. Ao verem a imagem, alguns faziam o sinal da cruz e outros demonstravam uma cara de poucos amigos. 

Há uma ala feminina, mas sempre com poucas detentas. Numa das vezes, uma presa se ajoelhou, rezou, pediu uma bênção implorando para que eu rezasse por ela. No dia da festa de Sant’Ana, dia 26 de julho, ela participou da procissão e conversou comigo dizendo que tinha recebido um indulto e que iria recomeçar a vida. Seis anos depois ela me encontrou na rua e me perguntou se eu a reconhecia. Tive que responder que não. Ela me disse: “Sou aquela presa que o senhor rezou por ela. Me regenerei e constituí uma nova família. Estou muito feliz!” Naquele momento senti uma grande alegria e elevei a Deus uma oração de agradecimento. O Papa Francisco tem razão ao afirmar: “Antes de tudo lembremo-nos de que a conversão é uma graça, portanto, deve ser pedida a Deus com força”. O Sucessor de Pedro também explica que a conversão “Na Bíblia, significa primeiro mudar a direção e a orientação; e depois também mudar a maneira de pensar. Na vida moral e espiritual, converter meios de passar do mal ao bem, do pecado ao amor de Deus”. Aprofunda afirmando que a conversão “envolve a dor pelos pecados cometidos, o desejo de se livrar deles, o propósito de excluí-los da própria vida para sempre. Para excluir o pecado, é preciso também rejeitar tudo o que está ligado a ele: a mentalidade mundana, a superestimação do conforto, do prazer, do bem-estar, das riquezas. O Pontífice conclui: "Nós nos convertemos verdadeiramente na medida em que nos abrimos à beleza, à bondade, à ternura de Deus. Então deixamos o que é falso e efêmero, para o que é verdadeiro, belo e dura para sempre" (Angelus – 06 de dezembro de 2022).

Desta vez quando cheguei em frente ao presídio, havia ali na rua um grupo de evangélicos. Fui conversar com eles e me apresentei. Disseram-me que eram da Congregação Cristã no Brasil. Um deles me pareceu ser do sul do país, por isso perguntei de onde ele era. 

- “Do Paraná!”, respondeu-me. 

- “De que cidade?” 

- “De Maristela!”

- “Maristela, distrito de Alto Paraná?” 

- “Sim”.

Espontaneamente brinquei: - “Mas de Maristela pode sair coisa que presta?” 

Ele não gostou, me olhou com um olhar ameaçador, fechou a cara e não respondeu, dando as costas pra mim. Tentei amenizar dando uma risadinha e dizendo: - “Só sai coisa boa de Alto Paraná ou Paranavaí!” Não teve jeito: continuou com a cara amarrada. Não me preocupei, porque sabia que tudo se resolveria na celebração.

Entramos, conversamos com os dirigentes e funcionários do presídio que foram muito amáveis e manifestaram alegria pela nossa presença. Ofereceram-nos um café com lanche.

A celebração foi realizada no pátio externo ao ar livre. O motivo era a formatura de um grupo de detentos que tinham feito um curso de reciclagem de plásticos. Estavam presentes também o juiz e o promotor. Fui o primeiro a ter a palavra. Usei como texto bíblico  a narrativa do encontro de Jesus com Natanael (Jo 1,29-51). Ao comentá-lo, fiz uma atualização do versículo 46, ou seja, a pergunta de Natanael a Filipe: “De Nazaré pode sair algo de bom?”, interrogando sobretudo os presos mas também as pessoas ali presentes: “Porventura, pode sair algo de bom deste presídio?” Foi um silêncio total! Passei o olhar sobre todos os detentos e concluí com voz potente e segura: “Claro que pode! Vocês em breve vão sair daqui e vão recomeçar a vida. Por isso fizeram este curso de reciclagem. Só depende de cada um de vocês iniciar uma nova fase na vida para não ter que voltar para cá”. Continuei estimulando-os a aproveitarem a liberdade, ao saírem da prisão, para começarem uma vida nova. Citei como exemplo aquela presa que me pediu a bênção, que se regenerou e estava muito feliz. Recordei o que em geral a população pensa em relação aos presos. Repeti a frase de Natanael que duvidava que de Nazaré pudesse sair algo de bom. Acentuei: “De Nazaré saiu Jesus, o nosso Salvador!” Em seguida me dirigi ao homem de Maristela: “Pois é, lá fora eu brinquei com nosso irmão lá do Paraná perguntando se podia sair coisa que presta de Maristela. Quero lhe dizer que eu tinha em mente este versículo do evangelho. Eu não queria desprezar Maristela, o simpático e progressista distrito de Alto Paraná.” O homem, que estava ainda com a cara amarrada, abriu um lindo sorriso. Viramos amigos! Temos nos encontrado várias vezes. Sempre conversamos e comentamos sobre nossas idas ao Paraná. Eu gosto de me encontrar com ele e sinto que ele gosta de se encontrar comigo.

Aí está uma prova de que quando rezamos juntos, nasce amizade, alegria e o mais bonito: passamos a nos tratar como verdadeiros irmãos!

 

Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

02 de fevereiro de 2023.

Festa da Apresentação do Senhor

 

 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Quando um doce de abóbora é especial

 

Quando um doce de abóbora é especial

 

 

 


A vida é um livro que deve ser foleado página a página, sem que se consulte o índice” (Coelho Neto).


Uma das coisas mais encantadoras e prazerosas da vida é recordar as belas e edificantes experiências. Particularmente, me é apaixonante recordar os tempos de criança. Se olho para minha infância, vejo que fui muito feliz, apesar de todas as dificuldades que vida nos impôs.

Tive a graça de nascer numa família numerosa. Sim, considero este fato um privilégio e uma verdadeira graça de Deus. Éramos 9 filhos = 5 x 4 para os homens. Por uma fatalidade, o mais velho morreu num acidente automobilístico aos 28 anos. Portanto, há mais de 45 anos somos em 8, ou seja, 4 homens e 4 mulheres. 

Meu pai era marceneiro e carpinteiro. Órfão de mãe com um ano de idade e de pai aos 9 anos. Foi criado por uma virtuosa e santa madrasta. Desde pequeno teve que trabalhar. Foi um pai muito rígido com os filhos e amabilíssimo com os netos. Gostava muito de futebol e era palmeirense, portanto não negava sua origem italiana. Cresci indo com ele assistir jogos do Nova Londrina Esporte Clube. Ele por décadas fez parte da diretoria do time. Como católico praticante, exigia que os filhos participassem da missa dominicalmente. Por mais de 30 anos foi ministro extraordinário da Eucaristia. Despediu-se serenamente deste mundo aos 85 anos.

A minha mãe é uma guerreira, dotada de uma força e disposição incríveis. Além de se dedicar aos 9 filhos, encontrava tempo para costurar para fora e fazer permanente nos cabelos das mulheres para ajudar nas despesas da casa. Também foi empreendedora: teve bazar, mercearia e funerária. Era incansável em fazer, duas ou três vezes por semana, o pão caseiro mais gostoso da cidade pra alimentar a “renca” de filhos. Não nos deixava comer pão quente. Dizia que dava dor de barriga. Uma vez eu lhe disse que isso não era verdade, porque a gente comia arroz e feijão quentes e não dava dor de barriga. Ela ponderou que pão era massa. Na “tampa” retruquei: “Mãe, a gente come macarrão quente, que é massa, e não dá dor de barriga!” Ela me disse: “Ah, não sei! Você está perguntando demais, mas que comer pão quente dá dor de barriga, dá!”

Por muito tempo fiquei matutando esta convicção da minha mãe sobre o pão quente. Fiquei observando e pensando. Por fim cheguei à conclusão de que realmente comer pão quente dá dor de barriga, mas não porque o pão está quente e sim porque é muito gostoso, por isso a pessoa come muito além do normal, se empanturra e como consequência passa mal. Eu com 10 anos, se a mãe deixasse, eu comeria pelo menos dois pães inteiros, ou seja,  a quantidade de pão destinada para a família toda no café da manhã.

Nunca passamos fome, mas o dinheiro era escasso. Tempos de crise braba! A vontade de ir ao cinema para assistir aos famosos bangue-bangues do Velho Oeste era enorme. Como não recordar os filmes: “O dólar furado” com Giugliano Gemma? ou “Os três homens em conflito - O Bom, o Mau e o Feio” com Clint Eastwood, Lee van Cleef e Eli Wallach? Como esquecer os filmes do Zorro com o índio Tonto? e do Tarzan? do Gordo e Magro ou Mazzaropi? Os nossos heróis cinematográficos eram: Roy Rogers, Henry Fonda, John Wayne, Burt Lancaster, Kirk Douglas, ... Entretanto, o melhor de tudo era depois ir brincar de “mocinho”. Como éramos felizes com tão pouco!!!! Um cabo de vassoura colocado entre as pernas “virava” um cavalo, qualquer pequeno pedaço de pau podia virar um revólver! Todo mundo dava tiro à vontade, as balas nunca acabavam e ninguém morria: só matava! O grande escritor e orador Cícero exclamaria: “O tempora! O mores” (Ó tempos! Ó costumes!) Porém, parodiando o grande cônsul defensor dos ideais republicanos em Roma, digo “Ó tempos encantadores! Ó experiências inesquecíveis!!!”

Ao repassar na memória aqueles tempos magníficos, os meus lábios começam a recitar espontaneamente o início da poesia “Meus oito anos”: 

Oh! Que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!

Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!

Os poetas românticos, como Casemiro de Abreu nesta poesia, foram geniais e se eternizaram. Basta mencionar Gonçalves Dias, Castro Alves, Álvares de Azevedo... para ter a confirmação da genialidade dos românticos. Por falar em poetas românticos, recordo que o Romantismo foi introduzido no Brasil por Gonçalves Magalhães, em 1836, com o livro "Suspiros poéticos e saudades".

É certo que o Romantismo brasileiro foi marcado por um certo exagero sentimental. Os românticos souberam despertar a emoção e a ação do leitor e da leitora ao idealizarem o amor e o saudosismo, ao valorizarem o nacionalismo e colocando em destaque a figura do índio como herói, quesito este em que o grande José de Alencar se sobressaiu com as obras: “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”. Até hoje o romantismo está presente com maior ou menor intensidade na cultura e mentalidade dos brasileiros.

Mas a realidade da infância não foi só de sonhos e alegrias: foi dura e às vezes também cruel! Que sentimento de frustração era o de ter vontade imensa de ir a cinema e não ter o dinheiro para a entrada. Que sensação horrível era “sentir as lombrigas assanhadas” ao ver doces e sorvetes, mas não poder comprá-los por falta do “baioque”, como dizia a mãe ao nos contar como o nono Foletto chamava a grana. A mãe nos colocou em sintonia com a tradição familiar contando as histórias de sua infância e das peripécias de seu pai e irmãos. Repetiu muitas vezes o que o nono dizia, em dialeto vêneto, quando os comerciantes queriam comprar fiado a sua produção de banha: “Vien il baioque e via la banha!" ou "Senza baioque prima, la banha non va!” (“Venha o dinheiro e vai a banha!" ou "Sem dinheiro primeiro, a banha não vai”). Só entregava a banha quando o dinheiro estava na sua mão. Certamente ele tinha sido enganado algumas vezes pra não confiar nos compradores. A vida é mestra e nos ensina!

Nós nos virávamos como podíamos pra arrumar alguns trocados. Íamos derriçar e colher café, à “panha” de algodão, carpir, escolher e separar grãos de café na cooperativa, engraxar sapatos, ... Nós catávamos mamona, deixávamos secar no pátio e depois recolhíamos grão por grão manualmente colocando-os numa lata de um litro. Quando a lata estava cheia, íamos vender no seu Severino Troian por um cruzeiro. Dava pra comprar um picolé. Ah! como eram deliciosos aqueles picolés! Quando a colheita era maior, dava pra comprar um ingresso para o cinema. Que felicidade!

Quantas vezes fiquei desejando comer os doces que eram vendidos no bar São João do Seu Vitório Zoletti, em frente de casa e não tinha nem um cruzeiro. Havia um doce de abóbora em forma de coração. Como era saboroso!

Lembro que eu sabia todas as orações rezadas por um católico, menos a Ave Maria. Rezávamos um terço do rosário todas as noites em família. Portanto, eu repetia 50 vezes esta oração diariamente e nada de decorar. Sabia rezar junto com os pais e irmãos, mas não conseguia rezar sozinho. Até hoje não sei qual era o porquê do bloqueio, mas não tinha jeito de aprender a principal oração dedicada à Mãe de Deus. Um dia meu pai me prometeu dar um cruzeiro se aprendesse de cor a principal oração dedicada à Virgem Maria. Ah! num instantinho aprendi. Cheguei e disse: 

- “Pai, o senhor me prometeu dar um cruzeiro se eu aprendesse de cor a Ave Maria e agora eu sei.” 

- “Eu prometi e eu cumpro o que prometo. Porém, reze primeiro pra eu ter a certeza de que você sabe tudo direitinho sem pular nada ou embaralhar”, contestou. 

Rezei sem me atrapalhar, ele me deu a nota de um cruzeiro, que tinha a imagem do Almirante Tamandaré, e eu todo feliz corri até o Bar São João comprar o saboroso doce de abóbora em forma de coração. Deu pra comprar dois! Que alegria! Que felicidade! É só eu recordar aquele momento tão especial, e logo me dá água na boca!

O tempo passou, crescemos e a vida se transformou. Os gostos mudaram, muitas coisas que “adorávamos” foram pouco a pouco ficando para trás. Passaram-se os anos e as novas atividades foram nos engolindo. É raro nos lembrarmos dos picolés, dos doces, dos mocinhos, dos filmes... Tudo isso deixou de ser uma necessidade para nós!

Quando voltei a morar em Paranavaí, já com mais de 32 anos, constantemente eu ia para Graciosa visitar os confrades do seminário. Nestas idas, algumas vezes visitava o Seu Manoel Jó. Ele era um nordestino do sertãozão da Paraíba com uma incrível sabedoria popular, adquirida no dia-a-dia com as experiências e dificuldades da vida. Conversar com o seu Manoel era para mim ocasião de prazer e de enriquecimento pessoal ouvindo as experiências e conhecimentos daquele sertanejo paraibano. Quase a vida toda ele trabalhou na roça, mas, quando as forças já não eram as mesmas, e a idade começava a pesar, ele comprou um bar para continuar ganhando o pão de cada dia.

Certa vez fui encontrá-lo no seu bar. Ficamos conversamos, dando risadas com seus causos e experiências. De repente olho para as prateleiras. Vejo potes transparentes de vidros cheios de doces. Fui vendo os potes com pirulitos, com balas de diversos tipos, com paçoquinhas, pés de moleque, ... e de repente meus olhos se fixaram extasiados no pote que continha os inigualáveis doces de abóbora formato de coração. Aflorou-me na memória os tempos de criança, fiquei com uma vontade imensa de comer aquela delícia feita de abóbora. Comentei que fazia uns 20 ou mais anos que não via o meu doce preferido em forma de coração. Claro que pedi um. Seu Manoel se levantou e foi buscar a “divina” iguaria. Não o comi: devorei-o! Foi tamanha a minha voracidade que o Seu Manoel pegou mais um e me deu. Num instantinho também desapareceu na minha boca.

Quando fui pagar os doces. Seu Manoel me disse:

- “Não vou cobrar não. Nunca vi alguém comer um doce de abóbora com tanto gosto como desta vez. Fiquei tão feliz que nem tenho coragem de cobrar”.

Ao repassar esses fatos da minha infância apareceu na minha memória o texto do Apóstolo Paulo: “11Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. 12Agora nós vemos em espelho e de maneira confusa; mas, depois, veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido” (1Cor 13,11-12).

Não sou mais criança, mas tenho que reconhecer que, com meus 70 anos, aquelas experiências dos tempos de infância foram importantes para me ajudar a ser aquilo que sou hoje. Sou grato a Deus por ter me proporcionado uma infância tão feliz! Só recordo as coisas boas e edificantes, as ruins ou foram incorporadas na minha experiência me fortalecendo ou já as esqueci.

Concluo com as primeiras duas estrofes e a conclusão de uma das poesias publicadas por Gonçalves de Magalhães em Suspiros poéticos e saudades ao introduzir o movimento artístico cultural denominado Romantismo no Brasil em 1836.

A INFÂNCIA

Oh minha infância! Oh estação de flores!

De inocente ilusão alva saudosa!

Inda hoje te apresentas

Ante mim, como a imagem deleitosa

De um sonho que encantou-me a fantasia,

Ou como a aurora de um formoso dia.

Oh da infância atrativos lisonjeiros!

Mentirosos afetos!

Com que prazer amigos passageiros,

Inúmeros, na infância contraímos!

E quão fáceis após os repelimos,

De ligeiras palavras agastados.

...........

Oh quão perto a velhice está da infância!

E quão perto da infância a morte adeja!

 

Wilmar Santin

Itaituba, 15 de novembro de 2022.



ADENDO

 

De 2 a 10 de janeiro de 2023, fiz, no Mosteiro de Itaici (Indaiatuba, SP), o retiro anual para bispos. Um dos métodos de oração é ler um texto bíblico, depois imaginar a cena e colocar-se dentro dela como participante. Normalmente, não consigo entrar na cena; fico de fora assistindo como se fosse um filme. Partilhei com o orientador essa minha limitação. No meio da conversa, contei a dificuldade que tive para aprender a Ave Maria e como esse bloqueio foi removido. Ele me orientou a incluir na cena o menino feliz que gosta de doce de abóbora e que está dentro de mim. Foi tiro e queda: deu certo; consegui participar e não apenas assistir.

 

A primeira cena em que o doce de abóbora apareceu foi no episódio em que Jesus voltou para Nazaré e seu retorno a Cafarnaum (Lc 4,16-37). Consegui acompanhar Jesus e participar. Fui com ele visitar Nossa Senhora em Nazaré. Vi na cena ela dizendo pra Jesus: “Como eu sabia que você viria, preparei doce de abóbora que você tanto gosta”. Ali, junto com Jesus, saboreei o doce de abóbora feito pela própria mãe de Jesus.

Depois dos acontecimentos na sinagoga de Nazaré em que Jesus lê o texto de Isaías a respeito do Messias e diz: “Hoje se cumpre esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (v. 22). Seus amigos de infância e conhecidos se revoltaram e quiseram matar Jesus. “Mas Jesus passou no meio deles e seguiu seu caminho” (v. 30).

Jesus foi para Cafarnaum. Acompanhei Jesus nesta viagem. Mais ou menos na metade do caminho, paramos para um descanso. Ofereci para Jesus água e doce de abóbora, que sua mãe tinha me dado.

Senti que o menino tinha saído de mim e estava acompanhando Jesus. Nem é preciso dizer da minha alegria e felicidade por a oração ter fluído tão bem.

 

Outro texto rezado e meditado foi Lc 7,36-30 = Jesus perdoa a pecadora na casa do fariseu.

Jesus foi convidado para jantar na casa do fariseu Simão. Uma pecadora vai lá, chora aos pés de Jesus, enxuga com seus cabelos e passa perfume. Em seus pensamentos, o fariseu julga Jesus: “Se esse homem fosse um profeta, saberia quem é a mulher que está tocando nele: é uma pecadora” (v. 39). Jesus dá uma lição no fariseu e perdoa os pecados da mulher de maneira bem direta: “Teus pecados estão perdoados” (v. 48).

Consegui participar e não só assistir. O fariseu, quando viu que eu estava com Jesus, me convidou diretamente: “Wilmar, você também está convidado para o jantar. A sobremesa será doce de abóbora!” Pensei: se tem doce de abóbora eu tenho que ir de qualquer jeito. Fui e na hora da sobremesa, claro que o primeiro a ser servido seria Jesus, afinal ele era o convidado especial, mas, quando estavam trazendo a sobremesa, Jesus disse: “Primeiro deem para o Wilmar porque ele gosta demais de doce de abóbora”! Foi muito privilégio comer doce de abóbora antes de Jesus!!!!!!!!!


Mosteiro de Itaici (Indaiatuba, SP), 10 de janeiro de 2023.

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