domingo, 16 de maio de 2021

Preta, pobre e feia

Ir. Isaldete


 “Preta, pobre e feia”

 

Em nosso último encontro, na mesa tomando café, a Ir. Isaldete contou-me que, depois de uma Semana Catequética, ao voltar para casa confidenciou à sua mãe que queria ser freira. Sua mãe, com voz baixa e trêmula, respondeu “Oh, minha filha! Elas não vão te aceitar, porque você é preta, pobre e feia.” Rimos muito e na hora percebi que aquilo daria uma bela história. Aproveitei para especular sobre sua vida. Depois, à medida em que ia escrevendo, ela foi me passando, via Whatsapp e e-mail, novas informações sobre seus sentimentos e vida. No final, saiu este relato.

Conheci a irmã Isaldete Almeida da Silva, em abril de 2011, em Jacareacanga, PA. Foi também o meu primeiro contato com religiosas da Congregação da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, fundada em Santarém em 1910.[1] Na oportunidade, eu estava indo para a Missão São Francisco, no rio Cururu, para a abertura das comemorações do centenário da missão com os indígenas Munduruku. Viajamos juntos um dia inteiro, de voadeira, pelos rios Tapajós e Cururu. Foi uma grande experiência para mim, tanto é que a considero meu “batismo” como bispo na Prelazia. Desde o primeiro contato, a Ir. Isaldete me chamou a atenção pela sua alegria e por ser uma pessoa disposta a enfrentar qualquer situação. Ela me acompanhou em visitas às casas dos indígenas.

A família da Isaldete, procedente do Maranhão, era muito católica e fiel participante na comunidade. A própria moça era catequista e participava do grupo jovem. A resposta da mãe expressa bem o que está lá no fundo do coração das pessoas pretas e pobres: um sentimento de que muitas portas estão fechadas para elas, inclusive na Igreja. Felizmente essa situação está mudando. Antes, havia poucos padres e irmãs afrodescendentes. Hoje já existe um bom número, inclusive vários bispos. Há mais ou menos uns 5 ou 6 anos foram nomeados no Brasil, no período de apenas um ano, 5 novos bispos negros.

Deus tem seus próprios caminhos (Cf. Is 55,8) e não tem só um modo de chamar as pessoas. A Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, está cheia de exemplos de vocações em meios, situações e lugares diversos. Hoje, Deus continua chamando e das mais variadas formas. Vou dar alguns exemplos:

Esta história escutei num retiro em 1964, pregado pelo frei Otávio, no seminário dos carmelitas em Graciosa, Paranavaí, PR. Eu estava com 11 anos e só recordo uma única coisa de tudo aquilo que nos foi falado. O pregador contou-nos que uma adolescente passeava pelas ruas de Belo Horizonte. De repente, avistou numa casa de caridade um letreiro, escrito em Latim: “CARITAS ET BONITAS”, que significa: “Caridade e Bondade”. Para ela, a tradução daquelas palavras seria: CARETAS BONITAS. Pensou: Esta casa de caridade é só para quem tem uma cara bonita, e como eu tenho, vou ser freira aqui. E entrou para a congregação daquelas irmãs de caridade.

Dias atrás escutei mais uma vez a música “Ela tornou-se freira”. A canção, composta e cantada pelo gaúcho Teixerinha – com a Mary Terezinha, conta a história de uma moça que se tornou freira e apresenta como motivo uma desilusão amorosa. Esta é apenas mais uma canção com final feliz, mas a vida real mostra que até numa desilusão ou decepção uma pessoa pode descobrir o chamado de Deus, como aconteceu com Santo Afonso Maria de Ligório. Só que com este santo não foi uma desilusão amorosa e sim profissional. Ele era um memorável e bem-sucedido advogado em Nápoles, Itália. Sua fama se estendia por todos fóruns jurídicos italianos. Em certa ocasião perdeu uma causa de grande repercussão em que falhou na argumentação, causando-lhe uma violenta desilusão moral. Este fato fez com que refletisse mais sobre a vida e sobre os desígnios de Deus. Por isso, decidiu abandonar tudo e seguir a vida religiosa.

A minha vocação tem sua origem no dia do meu batismo. Eu estava com quatro meses. Minha mãe conta que, durante o batizado, eu agarrei a estola do frei Ulrico Goevert, O.Carm., que estava me batizando. Ele disse: “Este é um sinal de que este menino será padre”, e me deu uma bênção. Cresci ouvindo esta história e eu sempre dizia que queria ser padre. Minha família era profundamente católica, inclusive em casa, diariamente se rezava o terço após o jantar. Eu participava da Cruzada Eucarística e não faltava às missas dominicais, apesar de ser “um garoto traquina”, muito levado e briguento. Quando fui para o seminário, alguns fizeram apostas sobre quando eu seria expulso do seminário. Lá, três vezes fui ameaçado: “Na próxima vez, você arruma a mala e vai para casa”. Como eu queria continuar, fui me corrigindo. E assim tive também um final feliz.

Voltando à vocação da jovem Isaldete, vou compará-la à freira da música do Teixeirinha. Se você não conhece, aí vai a letra: 

Ela tornou se freira[1]

(Ele = Teixerinha)

Morena dos olhos triste/sempre lhe encontro chorando 

Me digas qual é a mágoa/que está te atormentando 

Sou seu amigo e não posso ver seu pranto derramando 

(Ela = Mary Terezinha) 

Sim meu amigo é verdade/é tão grande a minha dor 

Já fui alegre e feliz/nesse mundo enganador 

Hoje só me resta mágoa/das juras falsas de amor 

(Ele) 

Isso eu já tinha notado/desde a hora em que lhe vi 

Que o seu pobre coração/sofre o mesmo que eu sofri 

Juras falsas e desengano de um amor que conheci 

(Ela)

Amigo lamento muito seu sofrimento também 

Eu fui desprezada um dia quando eu mais queria bem 

Vou envelhecer com a mágoa/não amarei mais ninguém

(Ele) 

Por favor não digas isso/não se dê por derrotada 

Vai-se um amor acha outro por uma melhor estrada 

És tão jovem e tão bonita esqueça a mágoa passada 

(Ela) 

Sim se eu pudesse esquecer/eu esqueceria agora 

Não adianta ser bonita se é só um que a gente adora 

Sou escrava da lembrança do amor que foi embora 

(Ele) 

Então aceite um conselho/de seu amigo que sou

Visto que seu coração/por um só se apaixonou 

Escreva para vir de volta/esse que te desprezou 

(Ela) 

Não escrevo e não aceito/de volta mais esse amor 

Sou uma moça honrada/sou pura e tenho valor 

Amanhã já serei freira de Cristo nosso senhor 

(Ele/ela) 

Hoje lá em uma igreja no altar da santidade 

Tem uma freira rezando sem pecado e sem saudade 

Esqueceu aquele amor que era pura falsidade 

Curou o seu coração é irmã de caridade 

Nas suas preces ela pede: Pai eterno de bondade, 

Mande paz e amor na terra para toda humanidade.   

 

A Isaldete estava com 18 anos quando sentiu mais forte o chamado de Deus para ser freira. A moça da música deveria ter mais ou menos a mesma idade.

As duas são morenas, mas a Isaldete é mais escura e mostra de maneira evidente que é afrodescendente.

As duas são bonitas. O Teixeirinha diz “És tão jovem e tão bonita” ao que ela responde: “Não adianta ser bonita”. Apesar da mãe da Isaldete chamá-la de feia, ela tem um rosto que mostra toda a beleza da raça negra. Seus lábios estão sempre sorrindo e os olhos brilhando, manifestando a felicidade e a alegria do seu coração. Como não recordar do salmo que diz: “Vossos lábios espalham a graça, o encanto, porque Deus, para sempre, vos deu sua bênção” (44,3). Ou é como diz Machado de Assis no seu conto Ponto de vista: “Com os lábios fala a cabeça, com os olhos o coração”. Se alguém julgar que a Isaldete é feia, aplico a máxima latina: “De gustibus et coloribus non disputandum est” (Sobre gosto e cores não se discute) e não discuto, porque é perda de tempo.

As duas tiveram uma desilusão! A freira da música teve uma desilusão amorosa, e a Isaldete sentiu o desprezo por ser “pobre, preta e feia”. Uma tristeza e uma desilusão instalou-se em seu coração, como ela mesma diz. Em sua cabeça só apareciam os questionamentos: “O que vai ser da minha vida? Por que eu tinha que ser ‘pobre, preta e feia’? Por que Deus me deu uma vida tão sofrida?” Temporariamente seus olhos ficaram tristes, no entanto, ela não permitiu que a chama de sua vocação e a luz da esperança se apagassem por completo em seu coração.

A motivação da vocação à vida consagrada das duas é bem diferente. A freira da música foi uma desilusão amorosa. A vocação da Isaldete tem sua origem na vivência cristã de sua família e no seu engajamento na comunidade paroquial, onde era uma entusiasmada e dedicada catequista. Mas como ela mesma conta, o testemunho dos padres verbitas da sua paróquia foi de fundamental importância para o seu despertar vocacional. Eles eram irlandeses, falavam arrastado, às vezes ficavam sem paciência e davam broncas, contudo eram movidos por um grande espírito missionário e de doação ao povo. Iam para as comunidades rurais de carona, de bote, de carroça e muitas vezes a pé. Enfrentavam sol e chuva para levar a Palavra de Deus e os sacramentos, sem reclamar. A imagem que ficou na memória da jovem Isaldete foi a dos missionários chegando a pé em sua comunidade com os sapatos cobertos de pó ou enlameados. Caminhavam 7 km e se hospedavam na casa dela. Ela não conhecia freiras. Ela só pensava: Se eu fosse um rapaz, iria ser padre que nem esses missionários. Eram os padres conhecidos como Patricinho e Patricião. Certamente receberam o nome de Patrício por causa de São Patrício, que é o padroeiro da Irlanda.

A situação da Isaldete começou a mudar dois anos depois, quando ela se mudou para a casa de seu irmão Djalma. Sua cunhada Laurinete fazia parte das voluntárias da Pastoral da Criança. Uma freira foi até Trairão para dar um curso de formação para as líderes da Pastoral. Era a Ir. Amélia Lage. A possibilidade de conversar com a religiosa fez com que reacendesse em seu coração a esperança de concretizar sua vocação. Seus olhos voltaram a brilhar e transmitir alegria. Confiante conversou com a freira. Esta a aconselhou a conversar com as irmãs de Itaituba. Foi o que ela fez. Elas entraram em contato com a casa central da Congregação de Santarém e apresentaram a possível candidata. A resposta foi novamente um verdadeiro balde de água fria: o estudantado, que acolhia jovens do interior para estudar e que queriam ser irmãs, só tinha 12 vagas e estas já estavam preenchidas. Só havia 6 beliches; portanto, não haveria lugar para ela.

Ela não desistiu. Resolveu confidenciar ao padre da paróquia suas inquietudes vocacionais. Ele lhe disse que seria possível que ela se tornasse freira e que iria conversar com as irmãs de Santarém, pois as conhecia. A primeira resposta foi novamente de que as vagas estavam preenchidas e que ela deveria esperar até o ano seguinte. Além deste, havia outro problema: ela tinha estudado só até a 6ª série. Mas o pároco insistiu: “É uma moça honrada, pura, tem valor e é bem engajada na comunidade. Ela será uma boa religiosa!”. Por fim foi aberta uma exceção e o aspirantado começou com 13 jovens interessadas em seguir a vida religiosa. Das 13, só a “pobre, preta e feia” perseverou até o fim e tornou-se freira. Deus tem os seus caminhos e o seu tempo!

Ainda comparando as duas, a maneira de reagir diante da frustração e desilusão foi bem diferente. A freira da música, como é normal nestes casos, ficou triste e magoada. Isto é expresso no verso “Hoje só me resta mágoa”. Ficou sem esperança: “Vou envelhecer com a mágoa” e não via possibilidade de reação ou de futuro: “Sou escrava da lembrança”. Mas reagiu: 

Amanhã já serei freira de Cristo nosso Senhor 

Hoje lá em uma igreja no altar da santidade 

Tem uma freira rezando sem pecado e sem saudade

Esqueceu aquele amor que era pura falsidade 

Curou o seu coração, é irmã de caridade.

A Ir. Isaldete reagiu de maneira diferente, apesar dos questionamentos: “O que vai ser da minha vida? Por que eu tinha que nascer ‘pobre, preta e feia’? Por que Deus me deu uma vida tão sofrida?”, não ficou magoada, não abandonou o que estava fazendo na comunidade, mas como Maria, guardou todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19). Por isso, mesmo ficando um pouco triste, não perdeu a esperança, não se amargurou e ficou na expectativa de um momento favorável. Algo que gostava de fazer era contemplar o pôr-do-sol, pois isso lhe trazia a paz interior, segurança e confiança.

 

A ENTRADA NO CONVENTO

 

Era o dia 05 de janeiro de 1995 quando chegou ao Convento do Colégio Santa Clara em Santarém, na companhia do Pe. Patrícião do Verbo Divino. Ela levou sua rede porque não havia mais vaga nos beliches. A Ir. Anunciada, responsável pelo grupo de candidatas, não estava: havia saído para fazer compras na feira. Isaldete estava com aqueles sentimentos característicos de medo e insegurança de quem chega a um lugar desconhecido: será que vão me receber bem? Para combater o medo ela se recordava dos dois conselhos que a Ir. Amélia lhe havia dado: “Minha filha, faça tudo que as irmãs lhe pedirem, faça logo amizade com as outras candidatas e você irá longe!”. Por isso logo se enturmou com as outras candidatas e foi ajudar a descascar macaxeira. Suas angústias e inquietações podem ser muito bem expressas na oração do salmo: “Quem me dera ter asas de pomba e voar para achar um descanso! Fugiria, então, para longe, e me iria esconder no deserto” (Sl 54,7-8). Nisso chegou a irmã. Quando a Isaldete viu a freira, seu coração disparou, seu rosto ficou mais branco do que a neve e só pensou: “o que esta irmã vai me dizer? Será que serei bem recebida?” A irmã se aproximou e lhe perguntou: “Você é a candidata que veio de Trairão?” A resposta foi um sim baixo, meio engasgado e marcado pela insegurança. A irmã Anunciada então lhe disse as palavras mais doces que ela poderia ouvir naquele momento: “Isaldete, seja bem-vinda entre nósSinta-se em casa!” Ela sentiu um alívio imediato, sua cor voltou ao normal, deu aquela respirada funda, como se quisesse encher todo o seu ser com a alegria que sentia. Em seu coração agradeceu a Deus: “Senhor, muito obrigada! Fui bem-recebida! Obrigada, Senhor!

Em Santarém ficou até concluir o Ensino Fundamental e o Médio. Suas colegas, uma a uma foram saindo e voltando para seus familiares. Somente Isaldete perseverou. Em 1999 entrou no aspirantado em Monte Alegre.

 

O FILME DA VIDA

 

Antes de iniciar a nova etapa de formação, ela repassou na memória muitas vezes, sua história, para poder se situar melhor em sua opção de vida e tomar a decisão final. Fazia verdadeiras viagens pelo seu passado e história. Isso a ajudou a não perder suas raízes

Recordou que nasceu no Maranhão, mais especificamente no município de Grajaú, em 27 de abril de 1972. Era meio-dia quando uma bela menina deu o seu primeiro choro e produziu uma grande alegria ao casal Ciríaco Ribeiro da Silva e Maria de Jesus Ferreira de Almeida. Mas a alegria maior foi da avó materna, que pela quinta vez esperava o nascimento de uma neta e viu concretizada sua esperança. Até parecia a profetisa Ana ao tomar o menino Jesus nos braços quando foi apresentado no templo (Lc 2, 36-38).

Dona Izabel havia pedido à filha Maria e ao genro Ciríaco que, caso nascesse uma menina, gostaria de criá-la como filha, para que quando estivesse na velhice pudesse ser cuidada por essa “filha”. O casal, após longas conversas, reflexões e orações, chegou à conclusão, com o coração partido, que deixaria a filha ser criada pela avó.

Naquela época o ultrassom ainda não tinha chegado em muitas regiões do interior do Maranhão. Por isso só descobriam o sexo da criança na hora em que nascia. Naquele dia, na hora em que o sol brilhava intensamente, viram que a tão esperada criança recém-nascida era a sonhada menina.

A futura freira “preta, pobre, feia” foi batizada em 25 de maio do mesmo ano e, aos 11 meses, quando desmamou, foi levada para a casa da avó. Cresceu chamando a mãe de mãe e a avó, de mãezinha.

Ainda bem pequena era levada para o roçado pela avó, que a deixava debaixo de uma árvore enquanto trabalhava. Na medida em que foi crescendo, queria ajudar sua mãezinha. Por isso pegou o facão e começou a bater num coco babaçu. O resultado foi que em vez de quebrar o coco, acabou fazendo um corte em sua mão. Sua mãezinha amarrou um pedaço de pano na mão cobrindo o ferimento e disse que antes dela casar, iria sarar. Isaldete gostava de colher algodão, porque não tinha perigo de se ferir. Ela guarda boas lembranças daquele tempo em que tinha uma vida bem simples e vivia com alegria, mesmo chegando cansada após um extenuante dia no sol. Foi ensinada que antes de dormir devia agradecer a Deus e pedir a bênção aos mais velhos. Além de catar algodão, suas diversões eram pescar e armar arapucas para pegar principalmente nambus e rolinhas.

Quando Isaldete completou cinco anos, sua mãe faleceudeixando sete filhos, o mais novo com apenas um aninho. E a mãezinha, que já cuidava da Isaldete, passou a ajudar na educação de seus irmãos, mesmo não morando na mesma casa. Assumiu também a criação de seu irmão menor, Elisvam, que estava com um ano de idade.

O que não faltava em sua casa era fé e prática do catolicismo. Está ainda muito forte em sua memória, quando, ainda pequena, com os passos lentos, segurava na saia da mãezinha indo participar das celebrações na comunidade, aos domingos. Isso era sagrado!

Aos 7 anos acompanhou a família, que, na esperança de dias melhores e de encontrar a “terra prometida”, migrou para o Pará, estabelecendo-se no município de Trairão, em um lugar muito inóspito, sem escola. A vida era trabalhar, trabalhar e trabalhar. O ritmo só mudava aos domingos porque iam participar das celebrações na comunidade. Escutar a Palavra de Deus, rezar e se encontrar na comunidade era o que lhes dava força, alento e esperança por dias melhores.

Ela só pôde começar a frequentar uma escola aos 12-13 anos. A escola funcionava na igrejinha do povoado Vinte Dois, conhecido como Nova Esperança. Três anos mais tarde mudaram-se para uma estrada vicinal e ali não havia escola. Aos 17 anos cursou a 4ª série. As aulas eram em um barraco coberto de palha, sem paredes. Não havia um quadro-negro nem cadeiras. Os alunos se sentavam em tamboretes de madeira. Era uma professora para todas as séries. As crianças que ainda não sabiam escrever ficavam junto com as já alfabetizadas. Isaldete, ao terminar suas lições, ajudava a professora com as tarefas dos demais alunos. Muitas crianças tinham que atravessar grotas, lamas e passar por cima de pinguelas para ir à escola, mas para elas era uma verdadeira festa, porque assim não precisavam ir trabalhar na roça.

Nesse mesmo tempo, ela começou a se preparar para a Primeira Eucaristia. Todos os sábados andava por volta de 11 km para participar da catequese. A catequista era dona Gracinha. Enfim, chegou o grande dia para receber Jesus na Eucaristia. Sentiu um frio na barriga, cresceu a curiosidade de como seria receber Jesus pela primeira vez e o que iria sentir. O padre José Ferreira chegou, atendeu as confissões e em seguida celebrou a santa Missa. Todos estavam vestidos de branco como sinal de pureza. O coração de Isaldete quase explodiu de tanta felicidade no momento em que recebeu Jesus. Ela recorda com nitidez a gratidão que sentia pela catequista, que lhe deu um cartãozinho escrito: “Isaldete, você mesma, seja firme em Jesus Cristo”.

Depois, as sete famílias, que moravam naquele lugarejo, construíram uma pequena capela dedicada a São José Operário. Isso motivou Isaldete a ajudar na comunidade. Com incentivo dos familiares e por saber ler, ela se tornou catequista e ministra da palavra. Para se preparar para as liturgias, ouvia as missas pela Rádio Nacional, pegava sua Bíblia e ia para debaixo das árvores e lia bem alto, até sentir-se segura.

Repassou na memória muitas vezes a Semana Catequética, quando descobriu o chamado de Deus. Foi na comunidade Cristo Rei no Itapacurazinho. Durante aquela semana, para sua surpresa, foi apresentada a uma jovem de nome Rosely que estava indo para o convento. Nesse momento a Isaldete foi arrebatada por uma radiante alegria e descobriu que poderia realizar seu sonho de se dedicar em tempo integral ao Reino, não sendo uma “padra” e sim uma irmã religiosa.

Só Deus sabe quantas vezes veio à tona a lembrança de sua mãezinha com a voz trêmula lhe dizendo: “Minha filha, não vão lhe aceitar não, porque você é preta, pobre e feia”. E pensava: “É, minha mãezinha se enganou. Eu apesar de preta, pobre e feia, fui aceita porque devo ser bonita pra Deus”, e dava boas risadas – continua dando gargalhadas até hoje quando comenta o fato.

 

DECIDINDO A VIDA

 

Repassar muitas vezes o seu passado ou os filmes de sua vida só reforçou sua decisão de seguir em frente e ao mesmo tempo impediu que ela esquecesse suas raízes, ou seja, sua origem simples, seus familiares e sua experiência de fé em casa e na comunidade. Porém, punha também em evidência algo que a perturbava: sua mãezinha. Sim, a sua mãezinha, aquela que a havia criado, a fim de que na sua velhice pudesse estar amparada. Era um verdadeiro dilema: de um lado o dever de gratidão e de outro as palavras de Jesus:Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus” e “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 60.62).

Certo dia resolveu escrever uma carta para sua mãezinha e lhe expôs seu dilema: continuar na vida religiosa ou ir cuidar da mãezinha de acordo com aquilo que tinha sido planejado desde antes de seu nascimento. Sua mãezinha entendeu bem a situação e, suscintamente respondeu: “Minha filha, eu já tracei o meu caminho, agora siga o seu”. E assim, Isaldete ficou despreocupada e sem remorso para seguir sua vocação.

Após o aspirantado em Monte Alegre, em 2000 fez um ano de postulantado em Quixadá, Ceará. Em seguida fez o noviciado em Fortaleza, CE, e fez seus primeiros votos, em 2 de fevereiro de 2003, na Igreja Matriz Jesus, Maria e José da capital cearense.

Sua primeira transferência foi para Santarém e no ano seguinte para Belém. Como era uma irmã disponível e livre para aceitar o que viesse, em 2005, foi enviada para a missão Indígena, na Prelazia de Itaituba, em Jacareacanga. Em 2007, nova transferência para a comunidade São José de Santarém.

 

EXPERIÊNCIA NA ÁFRICA

 

Em 2008 teve uma experiência única: foi para a Namíbia, África, participar do programa de formação em comum com irmãs de vários países. Do Brasil foram enviadas a Ir. Isaldete e a Ir. Lucimar da Unidade da Santa Cruz de Salvador. Era um programa formativo organizado pelo Governo Geral de sua Congregação. Foi com a cara e a coragem porque não sabia inglês, aliás, a única coisa que sabia era "I am hungry" (“eu estou com fome”). As duas brasileiras foram recebidas com muita alegria, o que fez com que de imediato se sentissem em casa, mesmo não falando a língua. Os rituais e as celebrações tocavam profundamente no coração da Ir. Isaldete. Seria pelo fato de ela ter raízes africanas? A alegria e o acolhimento das pessoas em geral também ajudaram para que aqueles dois anos se tornassem um tempo de profunda comunhão com Deus.

Ela ainda estava na África quando seu pai faleceu. Recebeu a notícia quase um mês depois, por carta enviada pelo seu irmão Cláudio. Foi uma experiência muito forte. Certamente ela esperava que fosse uma carta com notícias boas, como a carta que os apóstolos e anciãos enviaram através de Judas Bársabas e Silas para a comunidade de Antioquia e que a sua leitura causou alegria, por causa do estímulo que trazia (Cf. At 15,22-31). Ela deixou para ler a carta após a janta. Ao mesmo tempo em que estava na expectativa de boas notícias, tinha no fundo do coração aquela preocupação causada pela acentuada sensibilidade que toda mulher tem de antever alguma notícia triste. Abriu a carta, leu e não conteve as lágrimas. Passou a noite em claro, chorando, sozinha, na solidão do seu quarto. Estava longe da família, longe da pátria, sem falar bem a língua, não tendo com quem desabafar e sentindo o vazio da certeza de que nunca mais veria seu pai. Pela manhã pensou em não ir à oração para que as coirmãs não vissem seus olhos inchados, mas resolveu ir, porque pensou: É lá que vou encontrar força! Chegou com um pouco de atraso, mas justamente no momento em que a irmã iria começar a ler o evangelho do dia, cujas palavras eram: Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai e anuncia o Reino de Deus” (Lc 9, 60). Seu coração se abriu e começou a agradecer a Deus pelo tempo que teve com seu pai, que já estava junto de Deus. Também tomou consciência de que deveria continuar o seu caminho sem olhar para trás. Além disso, ela tinha visto que na África, o dia que a pessoa morre é um dia de festa. O sepultamento tem todo um ritual próprio que leva a se ver o sentido da morte não como o fim e sim o começo de uma nova vida em Deus.

Marcante e gratificante para ela foram as visitas às aldeias e às tribos. Ali são falados mais de 40 dialetos. Em cada visita se sentia feliz pelo contato direto com aquele povo simples, pobre e muito sofrido, porém  extremamente acolhedor. A comunicação se dava através de gestos e sorrisos, o que, segundo a sua opinião, era melhor do que saber a língua.

 

DE VOLTA AO BRASIL

 

Ao regressar para o Brasil, chegou decidida a se consagrar totalmente a Deus, por isso fez seus votos perpétuos, em dia 25 de Julho de 2010, na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Santarém. A celebração foi presidida por Dom Esmeraldo Barreto de Farias e concelebrada pelos padres Patrícião e Patricinho, cujo testemunho de vida missionária dos dois foi de fundamental importância para que ela sentisse o chamado para a vida religiosa.

Após seus votos perpétuos voltou para a missão Indígena, em Jacareacanga. Em 2013 foi transferida para Quixadá para estudar História na Universidade Estadual do Ceará. Concluiu a graduação em 2017. Em seguida foi transferida para Manaus e um ano depois para a Missão São Francisco no Rio Cururu. Passou a pandemia da Covid-19 entre os indígenas Munduruku, sendo ali uma presença de apoio e esperança. Seu testemunho despertou a vocação de quatro meninas-adolescentes indígenas para a vida religiosa. Semanalmente fez encontros com elas e deu-lhes formação. Oxalá elas perseverem e se tornem mulheres consagradas para trabalharem entre os próprios Munduruku. Se tal acontecer, darão uma boa contribuição para que a Igreja tenha um rosto cada vez mais amazônico nas várias realidades.

Em 2021 foi transferida para coordenar a comunidade Santa Isabel, que é uma comunidade de irmãs idosas em Fortaleza. Ali continua esbanjando simpatia, alegria e dando um testemunho de verdadeira discípula missionária, não se importando de ter sido chamada de “preta, pobre e feia” ou ser chamada carinhosamente por alguns de “nega véia”. Que Santa Dulce dos Pobres olhe por ela e interceda para que Isaldete persevere até o fim, sem olhar para trás!

 

Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

Bispo da Prelazia de Itaituba



[1]A Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, fundada em 5 de dezembro de 1910, por franciscanos alemães, com a colaboração de Irmãs contemplativas brasileiras, é a segunda congregação nascida na Amazônia. Hoje, é uma congregação internacional, com presença em quatro Continentes: Europa, África, Ásia, América do Norte e do Sul. Tem uma história de amor, de dedicação, de ideal missionário, marcada por grandes sacrifícios. Esta Congregação já tem uma santa canonizada: Ir. Dulce dos Pobres.

<http://nossosantaclara.com.br/a-congregacao/>

sábado, 1 de maio de 2021

O PULO DO GATO


O PULO DO GATO

Faz muito tempo, quando os bichos ainda falavam, que esta história aconteceu.

     O Gato era famoso entre os animais pela sua agilidade, e um certo dia, estando à beira de um rio para beber água, lá foi encontrá-lo a Onça.

– Bom dia, mestre Gato; como vai você?

– Vou bem, obrigado, comadre Onça; e você?

– Assim, assim, – disse ela. – Ando tão triste ultimamente.

– Triste por que, comadre? Será que eu posso ajudá-la?

– Mestre Gato, você é o único bicho que pode ajudar-me. Sinto-me assim porque ouço sempre falar da sua habilidade para pular, e eu não sou capaz de fazer o mesmo. Você não quer me ensinar, amigo Gato?

– Ora, comadre, é só esse o seu problema? Não se aborreça! Vou lhe ensinar, sim. Podemos começar já, quer?

– Claro que sim, disse a Onça muito satisfeita.

Começou então a mais estranha aula deste mundo: o Gato exibia todos os tipos de pulos que podia executar, e a aluna procurava imitá-lo da melhor maneira possível. Saltavam de um lado para outro, subiam às árvores e de lá pulavam para o chão, davam saltos de altura, de extensão, e o Gato mostrava que era de fato um mestre, mas a Onça não deixava de ser uma boa aluna; depois de algum tempo já estava pulando quase tão bem quanto o professor.

Aconteceu, porém, que com todo aquele exercício a Onça ficou com fome, e resolveu satisfazê-la da maneira mais simples: comer o Gato. Saltou sobre ele, disposta a devorá-lo, mas o Gato, com grande agilidade, saltou de banda, escapando assim de ser comido. A Onça, muito desapontada, lhe disse:

– Ora, Mestre Gato, este pulo você não me ensinou…

– Comadre Onça, – respondeu o Gato, muito esperto, – você não sabe que nem tudo aquilo que o professor aprendeu, ele ensina aos seus alunos?

E com esta última lição lá se foi embora o Gato, muito alegre e satisfeito, deixando a Onça a ver navios…

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Frei Enedino Caetano Pereira, O.Carm.



 

Frei Enedino Caetano Pereira, O.Carm.

 

O filme “O Ébrio” com Vicente Celestino é excepcional. É uma das grandes produções do cinema brasileiro. Dirigido por Gilda de Abreu, esposa de Vicente Celestino, conta a história da ascensão e decadência de um famoso médico chamado Gilberto Silva. Ainda que seja em preto e branco e tenha sido produzido em 1946, vale a pena assistir a esse filme. Está no YouTube! É emocionante!

Quase no final do filme, uma escritora procura uma história para seu novo livro. Ela foi ao “Café da Paz”, cujo dono era um português. Um dos seus acompanhantes ofereceu uma garrafa de cachaça para um bêbado (Vicente Celestino) ali presente para que contasse a sua história. A escritora pergunta-lhe o motivo pelo qual se embriagava. Ele pegou um violão e contou a sua história compondo a canção “O Ébrio”.

Querendo escrever uma pequena história, não fui ao “Café da Paz” ou a outro lugar para me inspirar, mas busquei no armazém da minha memória uma história de alguém que marcou a minha vida. Voltei aos tempos da infância e adolescência e, de repente, surgiu a imagem do Frei Enedino Caetano Pereira. Decidi contar a sua história e algo da sua influência na minha vida!

Tudo começou em 13 de janeiro de 1964, que foi o dia em que o conheci. Naquele dia visitei pela primeira vez o Seminário Imaculada Conceição de Graciosa, distrito de Paranavaí, no estado do Paraná. Era uma segunda-feira. 

O padre carmelita, Frei Mathias Warneke, reitor do seminário, estava em Nova Londrina substituindo o pároco, Pe. Vicente Magalhães Teixeira, que tinha ido de férias para o Ceará, sua terra natal. O padre “Puxa Carrrramba”, como era chamado pelos seminaristas por usar constantemente a expressão, com o “r” bem arrastado, aproveitou para fazer propaganda do seminário. Queria levar meninos que haviam terminado o curso Primário e que desejavam ser padres. Naquele tempo, antes da Lei nº 5.692/1971, o ensino tinha a seguinte divisão: Primário (4 anos), Ginásio (4 anos) e Colegial (3 anos). O Colegial com as opções para os cursos: Científico, Clássico, Normal (formava professores para lecionarem no curso primário) e Comércio (para atuação na contabilidade). Depois, o obrigatório vestibular para entrar numa faculdade. Vale lembrar também que, após o término do Primário, para entrar no Ginásio era necessário fazer um “mini vestibular” chamado de Exame de Admissão. Frei Mathias decidiu levar os interessados para conhecerem o seminário. Havia somente dois pretendentes: Ciro Longo e eu. Mas o Frei Mathias levou também os seminaristas nova-londrinenses do seminário de Maringá que estavam de férias. Lotou uma kombi. E lá fomos nós, felizes e ansiosos, para conhecer o seminário de Graciosa.

Assim que chegamos, apareceu o seminarista, Enedino, nos oferecendo melancia. Comparado com nossa idade, já era madurão: 27 anos. Mostrava um rosto muito sereno e alegre, que me impressionou. Fiquei pensando: aqui deve ser muito bom, porque este rapaz parece ser muito feliz. Esta primeira impressão reforçou a minha decisão de ir para aquele seminário.

Frei Enedino Caetano Pereira nasceu em Brumado, BA, no dia 08 de dezembro de 1946. Perdeu a mãe quando ainda era menino e seu pai tinha lábio leporino. A família migrou para o Paraná e se fixou na comunidade Água do Barreiro, zona rural do município de Paranavaí.

Sua vocação para o sacerdócio foi tardia, ou seja, depois dos 18 anos. Como era da roça, pouco tinha estudado. Com muito esforço terminou o Primário e entrou no seminário dos padres carmelitas de Graciosa, concluindo, em 1964, o Ginásio. Neste ano fomos colegas no seminário. Ele terminava e eu começava.

Todos os seminaristas tinham uma enorme estima e admiração pelo Enedino, que era visto como o protótipo de seminarista. Era calmo, tranquilo, reservado, estudioso, patusco, trabalhador e tinha uma espiritualidade exemplar. Fazia parte do coral do seminário. Não sei se ele era santista ou “pelezista”, como se dizia na época, ou seja, seu time do coração era o Santos Futebol Clube.

O Enedino era um bom aluno, gostava do latim e de jogar futebol. Seu rival nos estudos de latim era o Guido Feuser. Por falar no Guido, cultivamos uma boa amizade até hoje. Ele saiu do seminário no final daquele ano e depois se formou advogado. Mais tarde, tornou-se promotor de justiça em Santa Catarina. Todas as vezes que nos encontramos, falamos sobre a situação atual da Igreja e recordamos os bons tempos de seminário. Quando recordamos como o estudo no seminário era “puxado”, sempre mencionamos o latim e fazemos “provas” um com o outro sobre questões da língua do Lácio.

O Guido tem uma posição muito pessimista em relação às atualizações provocadas pelo Concílio Vaticano II. Ele é pouco favorável ao aggiornamento, ao ar novo para a Igreja desejado pelo saudoso Papa São João XXIII ao convocar o Concílio. Ele dizia que o Cursilho de Cristandade, que na época era o mais forte e ativo entre os movimentos eclesiais, iria causar um cisma na Igreja. Sempre o contestei em suas afirmações pessimistas em relação à Igreja pós-conciliar. Uma vez nos encontramos, já estávamos nos anos de 1990. Recordei-lhe a sua afirmação sobre o possível cisma e lhe disse que o tal cisma não aconteceu e nem iria acontecer. Prontamente, ele, rindo, com uma entonação de voz bem solene respondeu: “O Cursilho em si já é um cisma!” 

Como ele sabe que fui um bom aluno de latim, gosta de me provocar. Ele estudou muito mais latim do que eu. Durante todo o período de ginásio, teve aulas da língua latina todos os dias e eu só duas vezes por semana, porque o latim já estava saindo da grade curricular dos estudos seminarísticos. Uma vez me pediu para declinar a palavra “senex” (ancião, velho). Na “bucha” de pronto declinei: senex (nom.), senis (gen.), seni (dat.), senem (acu.), senex (voc.), sene (abl.). Ele contestou: “Errou! Porque é senex, senecis!” Respondi: “Quem errou foi você! Aprendi que certas palavras da terceira declinação são parassilábicas, têm o mesmo número de sílabas no nominativo e no genitivo. A “Ars latina”, o livro em que você e eu estudamos latim, apresenta alguns exemplos de palavras parassilábicas que tínhamos que decorar. Ficaram na minha memória: senex, pater (pai), mater (mãe), frater (irmão), accipiter (gavião), ...” Ele foi humilde o suficiente para reconhecer e dizer: “Você tem razão! Eu é que me confundi”. Nossas conversas são sempre divertidas e com muitas risadas por causa de suas assertivas eclesiais. Lamento não ter tido a oportunidade de me tornar um bom latinista, visto que eu gostava muito do latim. O motivo é que, quando entrei no seminário, o latim gradativamente estava sendo deixado de lado, mas, mesmo após mais de 50 anos, ainda recordo muita coisa de latim.

Ao concluir o ginásio no seminário de Graciosa, Frei Enedino foi para o Seminário Nossa Senhora do Carmo de Itu, onde fez o ensino médio. Com ele foi o seu companheiro de turma Antônio Carlos Amaro de Faria. Depois ele iniciou o curso de Filosofia em Belo Horizonte e o terminou em Curitiba. O curso de Teologia foi feito em Curitiba no antigo Instituto de Teologia de Curitiba (ITC). Era um bom e atualizado curso, que levava em consideração as decisões do Vaticano II e as conclusões de Medellín. Ali estudavam os seminaristas das dioceses de Santa Catarina que deixaram de estudar no ITC quando foi fundado o Instituto Teológico de Santa Catarina (ITESC) em 1973. Isso impossibilitou a continuidade do ITC por falta de alunos e assim foi fechado no final daquele ano. Mas os carmelitas freis Enedino e Antônio Ferraz tinham concluído o curso em julho de 1972 e já estavam ordenados. Os seminaristas que não tinham terminado o curso no ITC, em maioria, se transferiu para o Studium Theolgicum de Curitiba. Um deles foi o Frei Estanislau José de Souza, O.Carm, o primeiro carmelita a estudar nesta escola de Teologia dos claretianos. Ali eu também estudei Teologia.

Frei Enedino foi ordenado diácono em 31 de julho de 1971 e padre dia 08 de dezembro do mesmo ano. Ambas as ordenações foram na então co-catedral São Sebastião de Paranavaí, tendo como bispo ordenante Dom Benjamin de Sousa Gomes. Com ele foram ordenados o carmelita Frei Antônio Ferraz Júnior e um grupo da Congregação dos Oblatos de Cristo Sacerdote, fundada pelo Pe. Januário Baleeiro de Jesus e Silva, OCS.

Machado de Assis, em seu conto Manuscrito de um Sacristão, conta que o lente de retórica do seminário onde o sacristão filósofo – autor no Manuscrito - estudou, dizia: — “A teologia é a cabeça do gênero humano, o latim a perna esquerda, e a retórica a perna direita”. Sempre tive a impressão de que o Frei Enedino “coxeava da perna direita” por não ser um inflamado pregador, ou seja, não era de entusiasmar multidões. Como o Pe. Teófilo da história contada pelo sacristão, Frei Enedino sabia muito as coisas de teologia, filosofia, latim, história sagrada, porém, faltava algo na hora de fazer a homilia: a retórica. Até explicava bem a doutrina, mesmo sem os recursos da retórica. Conseguia transmitir sempre uma boa mensagem. Falo isso porque o escutei todos os domingos nos seus dois primeiros anos de sacerdócio exercidos na Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Vila Fanny em Curitiba. Mas isso não o impediu de ser um bom e santo sacerdote, que eu sempre admirei e que me influenciou e influencia até hoje.

Em certa ocasião conversei sobre as dúvidas que estavam aparecendo em relação à minha vocação. Eu queria ter certeza de que era chamado. Na verdade, eu queria que Deus me desse um sinal e esse sinal não aparecia. Pra minha surpresa, ele me disse que teve essa mesma dúvida por anos e anos. O sinal nunca chegou como ele desejava, mas que encontrou certeza da vocação pela paz e alegria que sentia e também em textos bíblicos. Citou-me vários, mas um de Jeremias ficou na minha memória: Quanto a mim, estou em vossas mãos. Fazei de mim o que achardes melhor, mais correto” (Jr 26,14). Anos mais tarde, já padre e pároco em Paranavaí, caiu-me nas mãos um folheto com a Oração do Abandono de Charles de Foucauld. Comecei a rezá-la, porém, já na primeira parte senti um arrepio. A oração pedia para que eu me abandonasse a Deus e que Ele fizesse de mim o que quisesse. Nessa hora o diabo atentou e me enviou o pensamento: e se Ele me mandar uma doença que me fará sofrer muito ou que fique cego? Dei uma respirada forte, e me questionei recordando as palavras acima de Jeremias. Eu já tinha me entregado nas mãos de Deus e tinha dito que ele poderia fazer de mim o que achasse melhor. Decidi rezar com mais confiança e entusiasmo na certeza de que Ele só me dará o que for melhor pra mim, mesmo que seja o sofrimento. Rezei a oração diariamente por um longo tempo. Como é uma bela oração, decidi incluí-la aqui.

Oração do Abandono de Charles de Foucauld

Meu Pai, 

Eu me abandono a Ti, 

Faz de mim o que quiseres. 

O que fizeres de mim, 

Eu Te agradeço. 

Estou pronto para tudo, aceito tudo. 

Desde que a Tua vontade se faça em mim 

E em tudo o que Tu criastes, 

Nada mais quero, meu Deus. 

Nas Tuas mãos entrego a minha vida. 

Eu Te a dou, meu Deus, 

Com todo o amor do meu coração, 

Porque Te amo 

E é para mim uma necessidade de amor dar-me, 

Entregar-me nas Tuas mãos sem medida 

Com uma confiança infinita 

Porque Tu és... 

Meu Pai!

 

Frei Enedino sempre foi humilde, alegre, responsável e sem grandes ambições. Nunca o escutei manifestando o desejo de ser bispo ou de ocupar algum alto cargo na Igreja ou na Ordem. Também não cobiçava as meias roxas dos cônegos ou monsenhores. Era ferrenho defensor e admirador do Papa. Lia todos os documentos papais e falava dos mesmos com entusiasmo. Especificamente defendia a posição do Papa na encíclica Humanae Vitae (1968). Recordo-o comentando as Exortações Apostólicas Marialis Cultus (1974) e Evangelii Nuntiandi (1975) do brilhante São Paulo VI.

Toda a sua vida ativa como padre, Frei Enedino a viveu na década de 1970, ou seja, desde a sua ordenação presbiteral em 1971 até 1979, quando foi acometido por um problema de saúde, que o deixou muito limitado para exercer com normalidade o seu sacerdócio entre os fiéis. Consequentemente foi padre numa época muito especial na História da Igreja.

Foi um tempo de grande ebulição na vida eclesial. Estava-se implantando as reformas do Concílio, iniciadas pouco depois da última sessão conciliar de 8 de dezembro de 1965. A impressão que se tinha é de que havia uma certa anomia, ou seja, ausência de lei ou de regra, anarquia e desorganização na vida da Igreja. Por exemplo: o Código de Direito Canônico, que havia sido promulgado em 1917, era ridicularizado como ultrapassado e sem validade. Um novo Código de Direito Canônico só foi promulgado em 1983. Muitos padres “deixaram a batina” e se casaram. O mesmo aconteceu com irmãs religiosas. As vocações diminuíram e muitos seminários foram fechados. Os movimentos tradicionais como Cruzada Eucarística, Filhas de Maria e Congregados Marianos desapareceram ou se tornaram insignificantes na maioria das paróquias e comunidades. O Apostolado da Oração foi uma exceção e continua forte e atuante em quase todos os lugares até nossos dias. Se alguns movimentos desapareceram, surgiram novos, tais como: Cursilho de Cristandade, Movimento Familiar Cristão e outros na linha da pastoral familiar. Para os jovens surgiram o TLC, JAM, Emaús, Jornada, PJ e outros que entusiasmaram e evangelizaram a juventude. Surgiram as CEBs e muitas pastorais. Apesar de certos exageros na aplicação dos decretos conciliares, a renovação era necessária e produziu muitos bons frutos.

Dois pontos que afetaram muito o ritmo eclesial do povo foram: a missa e a devoção aos santos.

A missa era em latim e o padre celebrava de costas para o povo. Rezava-se o terço durante a missa. O povo assistia a missa, não participava como hoje. As pessoas só podiam receber a comunhão ajoelhadas e na boca. As mulheres deviam usar um véu na cabeça. O Concílio, através da Constituição Conciliar SACROSANCTUM CONCILIUM - SOBRE A SAGRADA LITURGIA, promoveu uma significativa reforma no rito da missa. A missa passou a ser celebrada na língua vernácula, ou seja, do país – é bom que se diga que a missa em latim nunca foi abolida, tanto é que está no missal e o Papa constantemente a celebra. O povo deixou de assistir e passou a participar. O padre preside olhando para o povo. Colocou-se com destaque as duas mesas: da Palavra e da Eucaristia. Não é necessário mais ficar de joelhos para receber a comunhão e é dada também na mão. Leigos fazem as leituras e preces. Nas missas hoje canta-se muito mais do que antigamente. Em resumo: hoje está bem melhor do que antes do Concílio.

Em relação à devoção aos santos, todos os dias havia uma lista de santos a serem recordados. Havia mais dias santos de guarda. Tendo em vista que a celebração de tantíssimos santos parecia que escondia a pessoa de Jesus, o Concílio estabeleceu uma reforma no calendário litúrgico e que somente os santos mais significativos deveriam ser recordados. Por isso foram tirados das celebrações diárias vários santos populares, como São Jorge. Erradamente dizia-se que foram “cassados”, isso é, que deixaram de ser santos. Não! Os santos que foram tirados do calendário podem ser recordados nas celebrações sem problemas, só que não é mais obrigatório.

Aquela situação pós-conciliar me faz lembrar o primeiro livro de Samuel quando diz: “Naqueles dias, a palavra do Senhor era escassa e as visões não eram frequentesMas nem tudo estava perdido ou fora de controle porque “A lâmpada de Deus ainda não tinha se apagado”. Naqueles anos muitos bispos e padres escutaram o chamado de Deus e deram a mesma resposta de Samuel: “Fala, teu servo escuta” (1Sm 3,1-2.10). Não tenho dúvidas de que essa sempre foi a resposta dada por Frei Enedino. Ele sempre estava atento para escutar a voz de Deus, tendo com exemplo a Virgem Maria (cf. Lc 1,26-38; 11,27-28)

Nas décadas de 1960-70 não houve grandes e significativas mudanças apenas na Igreja, houve também uma enorme efervescência na vida político-social no Brasil e no mundo. Quero recordar em nível mundial apenas a denominada “Primavera de Praga”, em 1968. No Brasil, em 1964, começou a ditadura militar, que descambou com violação de direitos humanos, torturas, cassações de mandatos de políticos que não liam na cartilha oficial, limitações de direitos, desaparecimento de pessoas, censura de jornais e meios de comunicação, rádios foram lacradas arbitrariamente – como a Rádio 9 de Julho da Arquidiocese de São Paulo, fechada por decreto do presidente Emílio Garrastazu Médici em novembro de 1973 - e tantas outras barbaridades. Tudo tão evidente e conhecido, mas há quem negue. Isso me faz recordar o texto de Isaías: “Este povo é cego, embora tenha olhos perfeitos, ... este povo é surdo embora tenha ouvidos” (Is 43,8). 

Quando, em 1973, comecei a estudar Filosofia na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, ainda estava em vigor o Decreto-Lei nº 477, de 26 de fevereiro de 1969, baixado pelo “ditador presidente” Arthur da Costa e Silva. O insuspeito senador Jarbas Passarinho, que foi ministro da Educação e Cultura de novembro de 1969 a março de 1974, considerou este decreto como "draconiano" e o apelidou ironicamente com "Terceira Lei de Newton Depravada" – por causa da desproporção entre a intensidade da ação e da reação. Esteve em vigor até 1979, quando foi promulgada a lei da anistia. Este decreto definia as infrações disciplinares praticadas por professores, alunos e funcionários de estabelecimentos de ensino público ou particulares. Era a maneira que a ditadura tinha para tentar controlar o pensamento e reflexões ideológicas nas universidades e escolas. Todos tinham medo de serem enquadrados pelo famigerado decreto. Os professores podiam ser sumariamente exonerados e impedidos de dar aulas por cinco anos; e os alunos, expulsos e proibidos de se matricular em qualquer outro estabelecimento de ensino pelo prazo de três anos.

A ditadura militar afetou diretamente a democracia no Brasil. A posição da Igreja foi firme e decisiva para a redemocratização e a volta do Estado Democrático de Direito. Os documentos promulgados pela CNBB tiveram impactos excepcionais para pôr fim à tortura e gradativamente voltar às eleições amplas e livres em todos os níveis. Por exemplo: não havia eleições diretas para presidente, governador e para prefeitos das capitais e áreas decretadas de segurança nacional – houve até a indicação dos chamados senadores biônicos para que o governo militar pudesse ter a maioria no Congresso Nacional. A Igreja foi a primeira instituição a falar contra a tortura e a violação dos Direitos Humanos durante a ditadura militar no Brasil. Quando toda a sociedade clamava contra a tortura e a violação dos Direitos Humanos, a Igreja mudou o discurso e começou a falar de redemocratização. O principal documento lançado pela CNBB neste sentido foi: “EXIGÊNCIAS CRISTÃS DE UMA ORDEM POLÍTICA” (1977). Tudo isso teve um desgastante custo para a Igreja: prisões, torturas e assassinatos de padres e leigos, expulsão de sacerdotes estrangeiros e até o sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu.


Sinais dos tempos e esperança profética


Analisando a caminhada de Igreja pós-conciliar e a atual, sob a direção do Papa Francisco, não tenho receio de aplicar as palavras do Senhor anunciadas pelo profeta Isaías: “Estou fazendo coisas novas e já estão despontando: ainda não percebeis?” (Is 43,19).


Frei Enedino e o espírito do Concílio


Frei Enedino percebeu os sinais dos tempos e apoiou as reformas promovidas pelo Vaticano II. Enfrentou toda a ebulição eclesial pós-conciliar, bem como as “papagaiadas” políticas da época, com muita serenidade e sobretudo com muita fé e esperança.


A vocação e o retorno ao Carmelo


Ouso afirmar que o desejo de Frei Enedino foi sempre de ser um humilde padre carmelita. Porém, ele pediu para fazer uma experiência durante três anos como diocesano em Planaltina do Paraná. Não aguentou, por isso voltou para a vida conventual antes do tempo previsto e foi morar no Seminário de Graciosa, onde fez sua Profissão perpétua em 15 de janeiro de 1977.


A espiritualidade do cotidiano


Sobre seu jeito de viver a espiritualidade, encontrei em seu diário: “Estou vivendo um momento muito rico. Meu pensamento se ocupou, hoje, com a jaculatória: “Meu Deus e meu tudo”. 

Substitui todos os pensamentos negativos ou inconvenientes.

O que mais devo procurar? Se Ele é tudo para mim? O que mais devo desejar, se Ele é tudo o que existe de desejável para o homem?” (22/02/79).


O início da paixão silenciosa


Era maio de 1979, quando começou sua dolorosa paixão. Foi em Graciosa que, durante o café da manhã, aconteceu algo muito estranho. Frei Enedino pegou o bule de café e o colocou debaixo do braço. Começou a andar em torno da mesa com os frades atônitos olhando sem entender. Após dar três voltas, caiu perdendo a consciência. Foi levado para o hospital em Paranavaí e depois para Curitiba. Na capital do Paraná foi atendido pelo Dr. Benjamin Smaniotto, que tinha estudado no Seminário de Graciosa junto com Frei Enedino. Em Curitiba foi constatado que ele estava com um tumor na cabeça e tinha que ser operado. Suas chances de sobreviver eram pequenas. Mas como enquanto há vida, há esperança, ele foi submetido à intervenção cirúrgica. Foi um sucesso, mas ele teve só uma melhora temporária e depois os problemas voltaram. Foi um verdadeiro Calvário, que durou quase 8 anos.

No mês de setembro ele começou a piorar. Foi constatado que ele estava com três tumores na cabeça e vários em formação. As previsões eram de que ele não passaria do final de outubro. Passou! No início de novembro a previsão era até o final do mês. Entrou dezembro e ele continuava vivo. Ele falava que morreria no dia 08 de dezembro, dia do seu aniversário de nascimento e ordenação presbiteral. Por coincidência seria também o dia da minha ordenação presbiteral. Não morreu e as novas previsões eram de que não chegaria até o fim do ano.


Milagres discretos


Na semana, após o Natal, - não sei precisar o dia – antes da missa das 19h30, ele começou a passar mal e ter fortes convulsões. Eu, já ordenado, corri para o quarto. Fiquei com a nítida impressão de que seria o seu fim. Pedi para um dos nossos estudantes chamar o Frei Justino para dar a Unção dos Enfermos. Eu ainda não tinha ministrado este sacramento e o Frei Justino, como o superior da casa, era quem devia fazê-lo. Ele ministrou a unção. Como eu tinha a missa, fui presidi-la. Apresentei como intenção principal: o pedido de saúde para o Frei Enedino e disse que provavelmente após a missa já estaria morto. Não sei bem como consegui rezar aquela missa. Ao terminar fui direto para o quarto. Para minha surpresa e alegria, Frei Enedino estava sentado jantando. Foi um verdadeiro milagre!

No início de janeiro o médico disse que não tinha explicação o fato de ele ainda estar vivo e que não faria mais qualquer previsão, mas queria fazer uma nova tomografia para ver como estavam os tumores. Frei Enedino disse que não aceitava fazê-la porque não queria matar a curiosidade de ninguém. A tomografia não foi feita. Ele foi se recuperando aos poucos, entretanto nunca mais voltou ao normal. Como sequelas: não conseguia pronunciar bem as palavras e tinha alguma dificuldade para andar. Também não conseguia mais raciocinar como antes. Porém, em geral conseguia rezar a missa todos os dias na capela do convento.


Amizades que sustentam


Uma de suas marcantes alegrias durante aquele período de enfermidade foi a visita de seu amigo de turma Antônio Carlos Amaro de Faria, que no tempo de seminário tinha o apelido de Grandão. Os dois terminaram juntos o ginásio e foram juntos para o seminário de Itu. Depois o Grandão deixou o seminário, e nunca mais os dois tinham se encontrado. Na época ele estava fazendo o curso de diácono permanente. Frei Enedino não teve a alegria de ver seu amigo ser ordenado diácono permanente, mas eu tive a alegria de, no dia 8 de dezembro de 1989, participar da ordenação diaconal de Antônio Carlos Amaro de Faria. O bispo ordenante foi o futuro Cardeal Dom Eusébio Oscar Scheid, que era bispo da Diocese de São José dos Campos. Foi a última ordenação de Dom Eusébio nesta diocese. Depois foi transferido para a Arquidiocese de Florianópolis e mais tarde para o Rio de Janeiro. E lá se vão já mais de 31 anos!

Outro colega de turma a visitar o Frei Enedino foi o Guido Feuser. Foi quem mais o visitou durante seu período de enfermidade. Destas visitas, o que ficou na memória de Guido foi a grande demonstração de otimismo de Frei Enedino de que ficaria totalmente curado e a sua profunda devoção a Nossa Senhora.

Neste período de sofrimento, ele mostrou toda a sua fé. Enfrentou a doença com resignação, paciência e oblação total. Nunca vi ou ouvi o Frei Enedino reclamando por causa da doença. Continuou sendo o que sempre foi: uma pessoa alegre, de fé e muito perseverante nos compromissos. Rezava a missa todos os dias na capela do convento, atendia confissões e dava conselhos aos estudantes. Seu jeito simples de encarar a situação de enfermidade sempre foi um exemplo para mim.

Em seu diário, no dia 04 de março de 1981, Frei Enedino escreveu: “Sou o homem mais feliz do mundo! O motivo, a razão é o fato de que creio, profundamente, que Deus me ama muito e eternamente, apesar de que sou um pobre pecador. Esta verdade a senti, de um modo todo especial, durante a minha doença, que me prostrou do dia 09 de maio de 1979 até hoje -, torn[an]do-me inválido, tornou-me inválido para os homens, mas para Deus, Ele tornou a minha vida muito mais fértil com o adubo da sua Graça abundante. Só tenho a agradecer a Deus e à sua Mãe e minha mãezinha, a Virgem Maria do Monte Carmelo..

Obrigado, Senhor!

Conversando com Frei Aleixo a respeito do Frei Enedino, ele me disse que sempre se lembra da alegria, paciência e resignação diante das limitações provocadas pela doença.


A entrega final


Toda a sua luta pela vida terminou em 24 de janeiro de 1987, ao falecer no Convento Carmelita de Curitiba. Uns dois anos antes, Frei Enedino pediu ao Frei Francisco Manuel de Oliveira, mais conhecido como Frei Chico, que na hora de sua morte ele rezasse o salmo 50(51) e o cântico de Nossa Senhora Magnificat (Lc 1,46-55). Por coincidência, o Frei Chico estava presente nos momentos da agonia de Frei Enedino. Ele se recordou e rezou em voz alta as duas orações. Frei Enedino entregou-se nas mãos de Deus pouco antes do fim do Magnificat. Seu corpo foi levado para Paranavaí e sepultado no dia seguinte na cripta da Igreja São Sebastião.

Parodiando o inesquecível locutor Fiori Gigliotti digo: “Frei Enedino não pode ser esquecido. Ele merece ser lembrado. Frei Enedino ficará por todo o sempre incrustado na ternura e sinceridade do nosso cantinho da saudade!”

Obrigado, Frei Enedino, pelo exemplo e testemunho!

 

Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

Itaituba, abril de 2021.


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