quinta-feira, 15 de abril de 2021

Frei Enedino Caetano Pereira, O.Carm.



 

Frei Enedino Caetano Pereira, O.Carm.

 

O filme “O Ébrio” com Vicente Celestino é excepcional. É uma das grandes produções do cinema brasileiro. Dirigido por Gilda de Abreu, esposa de Vicente Celestino, conta a história da ascensão e decadência de um famoso médico chamado Gilberto Silva. Ainda que seja em preto e branco e tenha sido produzido em 1946, vale a pena assistir a esse filme. Está no YouTube! É emocionante!

Quase no final do filme, uma escritora procura uma história para seu novo livro. Ela foi ao “Café da Paz”, cujo dono era um português. Um dos seus acompanhantes ofereceu uma garrafa de cachaça para um bêbado (Vicente Celestino) ali presente para que contasse a sua história. A escritora pergunta-lhe o motivo pelo qual se embriagava. Ele pegou um violão e contou a sua história compondo a canção “O Ébrio”.

Querendo escrever uma pequena história, não fui ao “Café da Paz” ou a outro lugar para me inspirar, mas busquei no armazém da minha memória uma história de alguém que marcou a minha vida. Voltei aos tempos da infância e adolescência e, de repente, surgiu a imagem do Frei Enedino Caetano Pereira. Decidi contar a sua história e algo da sua influência na minha vida!

Tudo começou em 13 de janeiro de 1964, que foi o dia em que o conheci. Naquele dia visitei pela primeira vez o Seminário Imaculada Conceição de Graciosa, distrito de Paranavaí, no estado do Paraná. Era uma segunda-feira. 

O padre carmelita, Frei Mathias Warneke, reitor do seminário, estava em Nova Londrina substituindo o pároco, Pe. Vicente Magalhães Teixeira, que tinha ido de férias para o Ceará, sua terra natal. O padre “Puxa Carrrramba”, como era chamado pelos seminaristas por usar constantemente a expressão, com o “r” bem arrastado, aproveitou para fazer propaganda do seminário. Queria levar meninos que haviam terminado o curso Primário e que desejavam ser padres. Naquele tempo, antes da Lei nº 5.692/1971, o ensino tinha a seguinte divisão: Primário (4 anos), Ginásio (4 anos) e Colegial (3 anos). O Colegial com as opções para os cursos: Científico, Clássico, Normal (formava professores para lecionarem no curso primário) e Comércio (para atuação na contabilidade). Depois, o obrigatório vestibular para entrar numa faculdade. Vale lembrar também que, após o término do Primário, para entrar no Ginásio era necessário fazer um “mini vestibular” chamado de Exame de Admissão. Frei Mathias decidiu levar os interessados para conhecerem o seminário. Havia somente dois pretendentes: Ciro Longo e eu. Mas o Frei Mathias levou também os seminaristas nova-londrinenses do seminário de Maringá que estavam de férias. Lotou uma kombi. E lá fomos nós, felizes e ansiosos, para conhecer o seminário de Graciosa.

Assim que chegamos, apareceu o seminarista, Enedino, nos oferecendo melancia. Comparado com nossa idade, já era madurão: 27 anos. Mostrava um rosto muito sereno e alegre, que me impressionou. Fiquei pensando: aqui deve ser muito bom, porque este rapaz parece ser muito feliz. Esta primeira impressão reforçou a minha decisão de ir para aquele seminário.

Frei Enedino Caetano Pereira nasceu em Brumado, BA, no dia 08 de dezembro de 1946. Perdeu a mãe quando ainda era menino e seu pai tinha lábio leporino. A família migrou para o Paraná e se fixou na comunidade Água do Barreiro, zona rural do município de Paranavaí.

Sua vocação para o sacerdócio foi tardia, ou seja, depois dos 18 anos. Como era da roça, pouco tinha estudado. Com muito esforço terminou o Primário e entrou no seminário dos padres carmelitas de Graciosa, concluindo, em 1964, o Ginásio. Neste ano fomos colegas no seminário. Ele terminava e eu começava.

Todos os seminaristas tinham uma enorme estima e admiração pelo Enedino, que era visto como o protótipo de seminarista. Era calmo, tranquilo, reservado, estudioso, patusco, trabalhador e tinha uma espiritualidade exemplar. Fazia parte do coral do seminário. Não sei se ele era santista ou “pelezista”, como se dizia na época, ou seja, seu time do coração era o Santos Futebol Clube.

O Enedino era um bom aluno, gostava do latim e de jogar futebol. Seu rival nos estudos de latim era o Guido Feuser. Por falar no Guido, cultivamos uma boa amizade até hoje. Ele saiu do seminário no final daquele ano e depois se formou advogado. Mais tarde, tornou-se promotor de justiça em Santa Catarina. Todas as vezes que nos encontramos, falamos sobre a situação atual da Igreja e recordamos os bons tempos de seminário. Quando recordamos como o estudo no seminário era “puxado”, sempre mencionamos o latim e fazemos “provas” um com o outro sobre questões da língua do Lácio.

O Guido tem uma posição muito pessimista em relação às atualizações provocadas pelo Concílio Vaticano II. Ele é pouco favorável ao aggiornamento, ao ar novo para a Igreja desejado pelo saudoso Papa São João XXIII ao convocar o Concílio. Ele dizia que o Cursilho de Cristandade, que na época era o mais forte e ativo entre os movimentos eclesiais, iria causar um cisma na Igreja. Sempre o contestei em suas afirmações pessimistas em relação à Igreja pós-conciliar. Uma vez nos encontramos, já estávamos nos anos de 1990. Recordei-lhe a sua afirmação sobre o possível cisma e lhe disse que o tal cisma não aconteceu e nem iria acontecer. Prontamente, ele, rindo, com uma entonação de voz bem solene respondeu: “O Cursilho em si já é um cisma!” 

Como ele sabe que fui um bom aluno de latim, gosta de me provocar. Ele estudou muito mais latim do que eu. Durante todo o período de ginásio, teve aulas da língua latina todos os dias e eu só duas vezes por semana, porque o latim já estava saindo da grade curricular dos estudos seminarísticos. Uma vez me pediu para declinar a palavra “senex” (ancião, velho). Na “bucha” de pronto declinei: senex (nom.), senis (gen.), seni (dat.), senem (acu.), senex (voc.), sene (abl.). Ele contestou: “Errou! Porque é senex, senecis!” Respondi: “Quem errou foi você! Aprendi que certas palavras da terceira declinação são parassilábicas, têm o mesmo número de sílabas no nominativo e no genitivo. A “Ars latina”, o livro em que você e eu estudamos latim, apresenta alguns exemplos de palavras parassilábicas que tínhamos que decorar. Ficaram na minha memória: senex, pater (pai), mater (mãe), frater (irmão), accipiter (gavião), ...” Ele foi humilde o suficiente para reconhecer e dizer: “Você tem razão! Eu é que me confundi”. Nossas conversas são sempre divertidas e com muitas risadas por causa de suas assertivas eclesiais. Lamento não ter tido a oportunidade de me tornar um bom latinista, visto que eu gostava muito do latim. O motivo é que, quando entrei no seminário, o latim gradativamente estava sendo deixado de lado, mas, mesmo após mais de 50 anos, ainda recordo muita coisa de latim.

Ao concluir o ginásio no seminário de Graciosa, Frei Enedino foi para o Seminário Nossa Senhora do Carmo de Itu, onde fez o ensino médio. Com ele foi o seu companheiro de turma Antônio Carlos Amaro de Faria. Depois ele iniciou o curso de Filosofia em Belo Horizonte e o terminou em Curitiba. O curso de Teologia foi feito em Curitiba no antigo Instituto de Teologia de Curitiba (ITC). Era um bom e atualizado curso, que levava em consideração as decisões do Vaticano II e as conclusões de Medellín. Ali estudavam os seminaristas das dioceses de Santa Catarina que deixaram de estudar no ITC quando foi fundado o Instituto Teológico de Santa Catarina (ITESC) em 1973. Isso impossibilitou a continuidade do ITC por falta de alunos e assim foi fechado no final daquele ano. Mas os carmelitas freis Enedino e Antônio Ferraz tinham concluído o curso em julho de 1972 e já estavam ordenados. Os seminaristas que não tinham terminado o curso no ITC, em maioria, se transferiu para o Studium Theolgicum de Curitiba. Um deles foi o Frei Estanislau José de Souza, O.Carm, o primeiro carmelita a estudar nesta escola de Teologia dos claretianos. Ali eu também estudei Teologia.

Frei Enedino foi ordenado diácono em 31 de julho de 1971 e padre dia 08 de dezembro do mesmo ano. Ambas as ordenações foram na então co-catedral São Sebastião de Paranavaí, tendo como bispo ordenante Dom Benjamin de Sousa Gomes. Com ele foram ordenados o carmelita Frei Antônio Ferraz Júnior e um grupo da Congregação dos Oblatos de Cristo Sacerdote, fundada pelo Pe. Januário Baleeiro de Jesus e Silva, OCS.

Machado de Assis, em seu conto Manuscrito de um Sacristão, conta que o lente de retórica do seminário onde o sacristão filósofo – autor no Manuscrito - estudou, dizia: — “A teologia é a cabeça do gênero humano, o latim a perna esquerda, e a retórica a perna direita”. Sempre tive a impressão de que o Frei Enedino “coxeava da perna direita” por não ser um inflamado pregador, ou seja, não era de entusiasmar multidões. Como o Pe. Teófilo da história contada pelo sacristão, Frei Enedino sabia muito as coisas de teologia, filosofia, latim, história sagrada, porém, faltava algo na hora de fazer a homilia: a retórica. Até explicava bem a doutrina, mesmo sem os recursos da retórica. Conseguia transmitir sempre uma boa mensagem. Falo isso porque o escutei todos os domingos nos seus dois primeiros anos de sacerdócio exercidos na Paróquia Nossa Senhora da Conceição da Vila Fanny em Curitiba. Mas isso não o impediu de ser um bom e santo sacerdote, que eu sempre admirei e que me influenciou e influencia até hoje.

Em certa ocasião conversei sobre as dúvidas que estavam aparecendo em relação à minha vocação. Eu queria ter certeza de que era chamado. Na verdade, eu queria que Deus me desse um sinal e esse sinal não aparecia. Pra minha surpresa, ele me disse que teve essa mesma dúvida por anos e anos. O sinal nunca chegou como ele desejava, mas que encontrou certeza da vocação pela paz e alegria que sentia e também em textos bíblicos. Citou-me vários, mas um de Jeremias ficou na minha memória: Quanto a mim, estou em vossas mãos. Fazei de mim o que achardes melhor, mais correto” (Jr 26,14). Anos mais tarde, já padre e pároco em Paranavaí, caiu-me nas mãos um folheto com a Oração do Abandono de Charles de Foucauld. Comecei a rezá-la, porém, já na primeira parte senti um arrepio. A oração pedia para que eu me abandonasse a Deus e que Ele fizesse de mim o que quisesse. Nessa hora o diabo atentou e me enviou o pensamento: e se Ele me mandar uma doença que me fará sofrer muito ou que fique cego? Dei uma respirada forte, e me questionei recordando as palavras acima de Jeremias. Eu já tinha me entregado nas mãos de Deus e tinha dito que ele poderia fazer de mim o que achasse melhor. Decidi rezar com mais confiança e entusiasmo na certeza de que Ele só me dará o que for melhor pra mim, mesmo que seja o sofrimento. Rezei a oração diariamente por um longo tempo. Como é uma bela oração, decidi incluí-la aqui.

Oração do Abandono de Charles de Foucauld

Meu Pai, 

Eu me abandono a Ti, 

Faz de mim o que quiseres. 

O que fizeres de mim, 

Eu Te agradeço. 

Estou pronto para tudo, aceito tudo. 

Desde que a Tua vontade se faça em mim 

E em tudo o que Tu criastes, 

Nada mais quero, meu Deus. 

Nas Tuas mãos entrego a minha vida. 

Eu Te a dou, meu Deus, 

Com todo o amor do meu coração, 

Porque Te amo 

E é para mim uma necessidade de amor dar-me, 

Entregar-me nas Tuas mãos sem medida 

Com uma confiança infinita 

Porque Tu és... 

Meu Pai!

 

Frei Enedino sempre foi humilde, alegre, responsável e sem grandes ambições. Nunca o escutei manifestando o desejo de ser bispo ou de ocupar algum alto cargo na Igreja ou na Ordem. Também não cobiçava as meias roxas dos cônegos ou monsenhores. Era ferrenho defensor e admirador do Papa. Lia todos os documentos papais e falava dos mesmos com entusiasmo. Especificamente defendia a posição do Papa na encíclica Humanae Vitae (1968). Recordo-o comentando as Exortações Apostólicas Marialis Cultus (1974) e Evangelii Nuntiandi (1975) do brilhante São Paulo VI.

Toda a sua vida ativa como padre, Frei Enedino a viveu na década de 1970, ou seja, desde a sua ordenação presbiteral em 1971 até 1979, quando foi acometido por um problema de saúde, que o deixou muito limitado para exercer com normalidade o seu sacerdócio entre os fiéis. Consequentemente foi padre numa época muito especial na História da Igreja.

Foi um tempo de grande ebulição na vida eclesial. Estava-se implantando as reformas do Concílio, iniciadas pouco depois da última sessão conciliar de 8 de dezembro de 1965. A impressão que se tinha é de que havia uma certa anomia, ou seja, ausência de lei ou de regra, anarquia e desorganização na vida da Igreja. Por exemplo: o Código de Direito Canônico, que havia sido promulgado em 1917, era ridicularizado como ultrapassado e sem validade. Um novo Código de Direito Canônico só foi promulgado em 1983. Muitos padres “deixaram a batina” e se casaram. O mesmo aconteceu com irmãs religiosas. As vocações diminuíram e muitos seminários foram fechados. Os movimentos tradicionais como Cruzada Eucarística, Filhas de Maria e Congregados Marianos desapareceram ou se tornaram insignificantes na maioria das paróquias e comunidades. O Apostolado da Oração foi uma exceção e continua forte e atuante em quase todos os lugares até nossos dias. Se alguns movimentos desapareceram, surgiram novos, tais como: Cursilho de Cristandade, Movimento Familiar Cristão e outros na linha da pastoral familiar. Para os jovens surgiram o TLC, JAM, Emaús, Jornada, PJ e outros que entusiasmaram e evangelizaram a juventude. Surgiram as CEBs e muitas pastorais. Apesar de certos exageros na aplicação dos decretos conciliares, a renovação era necessária e produziu muitos bons frutos.

Dois pontos que afetaram muito o ritmo eclesial do povo foram: a missa e a devoção aos santos.

A missa era em latim e o padre celebrava de costas para o povo. Rezava-se o terço durante a missa. O povo assistia a missa, não participava como hoje. As pessoas só podiam receber a comunhão ajoelhadas e na boca. As mulheres deviam usar um véu na cabeça. O Concílio, através da Constituição Conciliar SACROSANCTUM CONCILIUM - SOBRE A SAGRADA LITURGIA, promoveu uma significativa reforma no rito da missa. A missa passou a ser celebrada na língua vernácula, ou seja, do país – é bom que se diga que a missa em latim nunca foi abolida, tanto é que está no missal e o Papa constantemente a celebra. O povo deixou de assistir e passou a participar. O padre preside olhando para o povo. Colocou-se com destaque as duas mesas: da Palavra e da Eucaristia. Não é necessário mais ficar de joelhos para receber a comunhão e é dada também na mão. Leigos fazem as leituras e preces. Nas missas hoje canta-se muito mais do que antigamente. Em resumo: hoje está bem melhor do que antes do Concílio.

Em relação à devoção aos santos, todos os dias havia uma lista de santos a serem recordados. Havia mais dias santos de guarda. Tendo em vista que a celebração de tantíssimos santos parecia que escondia a pessoa de Jesus, o Concílio estabeleceu uma reforma no calendário litúrgico e que somente os santos mais significativos deveriam ser recordados. Por isso foram tirados das celebrações diárias vários santos populares, como São Jorge. Erradamente dizia-se que foram “cassados”, isso é, que deixaram de ser santos. Não! Os santos que foram tirados do calendário podem ser recordados nas celebrações sem problemas, só que não é mais obrigatório.

Aquela situação pós-conciliar me faz lembrar o primeiro livro de Samuel quando diz: “Naqueles dias, a palavra do Senhor era escassa e as visões não eram frequentesMas nem tudo estava perdido ou fora de controle porque “A lâmpada de Deus ainda não tinha se apagado”. Naqueles anos muitos bispos e padres escutaram o chamado de Deus e deram a mesma resposta de Samuel: “Fala, teu servo escuta” (1Sm 3,1-2.10). Não tenho dúvidas de que essa sempre foi a resposta dada por Frei Enedino. Ele sempre estava atento para escutar a voz de Deus, tendo com exemplo a Virgem Maria (cf. Lc 1,26-38; 11,27-28)

Nas décadas de 1960-70 não houve grandes e significativas mudanças apenas na Igreja, houve também uma enorme efervescência na vida político-social no Brasil e no mundo. Quero recordar em nível mundial apenas a denominada “Primavera de Praga”, em 1968. No Brasil, em 1964, começou a ditadura militar, que descambou com violação de direitos humanos, torturas, cassações de mandatos de políticos que não liam na cartilha oficial, limitações de direitos, desaparecimento de pessoas, censura de jornais e meios de comunicação, rádios foram lacradas arbitrariamente – como a Rádio 9 de Julho da Arquidiocese de São Paulo, fechada por decreto do presidente Emílio Garrastazu Médici em novembro de 1973 - e tantas outras barbaridades. Tudo tão evidente e conhecido, mas há quem negue. Isso me faz recordar o texto de Isaías: “Este povo é cego, embora tenha olhos perfeitos, ... este povo é surdo embora tenha ouvidos” (Is 43,8). 

Quando, em 1973, comecei a estudar Filosofia na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, ainda estava em vigor o Decreto-Lei nº 477, de 26 de fevereiro de 1969, baixado pelo “ditador presidente” Arthur da Costa e Silva. O insuspeito senador Jarbas Passarinho, que foi ministro da Educação e Cultura de novembro de 1969 a março de 1974, considerou este decreto como "draconiano" e o apelidou ironicamente com "Terceira Lei de Newton Depravada" – por causa da desproporção entre a intensidade da ação e da reação. Esteve em vigor até 1979, quando foi promulgada a lei da anistia. Este decreto definia as infrações disciplinares praticadas por professores, alunos e funcionários de estabelecimentos de ensino público ou particulares. Era a maneira que a ditadura tinha para tentar controlar o pensamento e reflexões ideológicas nas universidades e escolas. Todos tinham medo de serem enquadrados pelo famigerado decreto. Os professores podiam ser sumariamente exonerados e impedidos de dar aulas por cinco anos; e os alunos, expulsos e proibidos de se matricular em qualquer outro estabelecimento de ensino pelo prazo de três anos.

A ditadura militar afetou diretamente a democracia no Brasil. A posição da Igreja foi firme e decisiva para a redemocratização e a volta do Estado Democrático de Direito. Os documentos promulgados pela CNBB tiveram impactos excepcionais para pôr fim à tortura e gradativamente voltar às eleições amplas e livres em todos os níveis. Por exemplo: não havia eleições diretas para presidente, governador e para prefeitos das capitais e áreas decretadas de segurança nacional – houve até a indicação dos chamados senadores biônicos para que o governo militar pudesse ter a maioria no Congresso Nacional. A Igreja foi a primeira instituição a falar contra a tortura e a violação dos Direitos Humanos durante a ditadura militar no Brasil. Quando toda a sociedade clamava contra a tortura e a violação dos Direitos Humanos, a Igreja mudou o discurso e começou a falar de redemocratização. O principal documento lançado pela CNBB neste sentido foi: “EXIGÊNCIAS CRISTÃS DE UMA ORDEM POLÍTICA” (1977). Tudo isso teve um desgastante custo para a Igreja: prisões, torturas e assassinatos de padres e leigos, expulsão de sacerdotes estrangeiros e até o sequestro de Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu.


Sinais dos tempos e esperança profética


Analisando a caminhada de Igreja pós-conciliar e a atual, sob a direção do Papa Francisco, não tenho receio de aplicar as palavras do Senhor anunciadas pelo profeta Isaías: “Estou fazendo coisas novas e já estão despontando: ainda não percebeis?” (Is 43,19).


Frei Enedino e o espírito do Concílio


Frei Enedino percebeu os sinais dos tempos e apoiou as reformas promovidas pelo Vaticano II. Enfrentou toda a ebulição eclesial pós-conciliar, bem como as “papagaiadas” políticas da época, com muita serenidade e sobretudo com muita fé e esperança.


A vocação e o retorno ao Carmelo


Ouso afirmar que o desejo de Frei Enedino foi sempre de ser um humilde padre carmelita. Porém, ele pediu para fazer uma experiência durante três anos como diocesano em Planaltina do Paraná. Não aguentou, por isso voltou para a vida conventual antes do tempo previsto e foi morar no Seminário de Graciosa, onde fez sua Profissão perpétua em 15 de janeiro de 1977.


A espiritualidade do cotidiano


Sobre seu jeito de viver a espiritualidade, encontrei em seu diário: “Estou vivendo um momento muito rico. Meu pensamento se ocupou, hoje, com a jaculatória: “Meu Deus e meu tudo”. 

Substitui todos os pensamentos negativos ou inconvenientes.

O que mais devo procurar? Se Ele é tudo para mim? O que mais devo desejar, se Ele é tudo o que existe de desejável para o homem?” (22/02/79).


O início da paixão silenciosa


Era maio de 1979, quando começou sua dolorosa paixão. Foi em Graciosa que, durante o café da manhã, aconteceu algo muito estranho. Frei Enedino pegou o bule de café e o colocou debaixo do braço. Começou a andar em torno da mesa com os frades atônitos olhando sem entender. Após dar três voltas, caiu perdendo a consciência. Foi levado para o hospital em Paranavaí e depois para Curitiba. Na capital do Paraná foi atendido pelo Dr. Benjamin Smaniotto, que tinha estudado no Seminário de Graciosa junto com Frei Enedino. Em Curitiba foi constatado que ele estava com um tumor na cabeça e tinha que ser operado. Suas chances de sobreviver eram pequenas. Mas como enquanto há vida, há esperança, ele foi submetido à intervenção cirúrgica. Foi um sucesso, mas ele teve só uma melhora temporária e depois os problemas voltaram. Foi um verdadeiro Calvário, que durou quase 8 anos.

No mês de setembro ele começou a piorar. Foi constatado que ele estava com três tumores na cabeça e vários em formação. As previsões eram de que ele não passaria do final de outubro. Passou! No início de novembro a previsão era até o final do mês. Entrou dezembro e ele continuava vivo. Ele falava que morreria no dia 08 de dezembro, dia do seu aniversário de nascimento e ordenação presbiteral. Por coincidência seria também o dia da minha ordenação presbiteral. Não morreu e as novas previsões eram de que não chegaria até o fim do ano.


Milagres discretos


Na semana, após o Natal, - não sei precisar o dia – antes da missa das 19h30, ele começou a passar mal e ter fortes convulsões. Eu, já ordenado, corri para o quarto. Fiquei com a nítida impressão de que seria o seu fim. Pedi para um dos nossos estudantes chamar o Frei Justino para dar a Unção dos Enfermos. Eu ainda não tinha ministrado este sacramento e o Frei Justino, como o superior da casa, era quem devia fazê-lo. Ele ministrou a unção. Como eu tinha a missa, fui presidi-la. Apresentei como intenção principal: o pedido de saúde para o Frei Enedino e disse que provavelmente após a missa já estaria morto. Não sei bem como consegui rezar aquela missa. Ao terminar fui direto para o quarto. Para minha surpresa e alegria, Frei Enedino estava sentado jantando. Foi um verdadeiro milagre!

No início de janeiro o médico disse que não tinha explicação o fato de ele ainda estar vivo e que não faria mais qualquer previsão, mas queria fazer uma nova tomografia para ver como estavam os tumores. Frei Enedino disse que não aceitava fazê-la porque não queria matar a curiosidade de ninguém. A tomografia não foi feita. Ele foi se recuperando aos poucos, entretanto nunca mais voltou ao normal. Como sequelas: não conseguia pronunciar bem as palavras e tinha alguma dificuldade para andar. Também não conseguia mais raciocinar como antes. Porém, em geral conseguia rezar a missa todos os dias na capela do convento.


Amizades que sustentam


Uma de suas marcantes alegrias durante aquele período de enfermidade foi a visita de seu amigo de turma Antônio Carlos Amaro de Faria, que no tempo de seminário tinha o apelido de Grandão. Os dois terminaram juntos o ginásio e foram juntos para o seminário de Itu. Depois o Grandão deixou o seminário, e nunca mais os dois tinham se encontrado. Na época ele estava fazendo o curso de diácono permanente. Frei Enedino não teve a alegria de ver seu amigo ser ordenado diácono permanente, mas eu tive a alegria de, no dia 8 de dezembro de 1989, participar da ordenação diaconal de Antônio Carlos Amaro de Faria. O bispo ordenante foi o futuro Cardeal Dom Eusébio Oscar Scheid, que era bispo da Diocese de São José dos Campos. Foi a última ordenação de Dom Eusébio nesta diocese. Depois foi transferido para a Arquidiocese de Florianópolis e mais tarde para o Rio de Janeiro. E lá se vão já mais de 31 anos!

Outro colega de turma a visitar o Frei Enedino foi o Guido Feuser. Foi quem mais o visitou durante seu período de enfermidade. Destas visitas, o que ficou na memória de Guido foi a grande demonstração de otimismo de Frei Enedino de que ficaria totalmente curado e a sua profunda devoção a Nossa Senhora.

Neste período de sofrimento, ele mostrou toda a sua fé. Enfrentou a doença com resignação, paciência e oblação total. Nunca vi ou ouvi o Frei Enedino reclamando por causa da doença. Continuou sendo o que sempre foi: uma pessoa alegre, de fé e muito perseverante nos compromissos. Rezava a missa todos os dias na capela do convento, atendia confissões e dava conselhos aos estudantes. Seu jeito simples de encarar a situação de enfermidade sempre foi um exemplo para mim.

Em seu diário, no dia 04 de março de 1981, Frei Enedino escreveu: “Sou o homem mais feliz do mundo! O motivo, a razão é o fato de que creio, profundamente, que Deus me ama muito e eternamente, apesar de que sou um pobre pecador. Esta verdade a senti, de um modo todo especial, durante a minha doença, que me prostrou do dia 09 de maio de 1979 até hoje -, torn[an]do-me inválido, tornou-me inválido para os homens, mas para Deus, Ele tornou a minha vida muito mais fértil com o adubo da sua Graça abundante. Só tenho a agradecer a Deus e à sua Mãe e minha mãezinha, a Virgem Maria do Monte Carmelo..

Obrigado, Senhor!

Conversando com Frei Aleixo a respeito do Frei Enedino, ele me disse que sempre se lembra da alegria, paciência e resignação diante das limitações provocadas pela doença.


A entrega final


Toda a sua luta pela vida terminou em 24 de janeiro de 1987, ao falecer no Convento Carmelita de Curitiba. Uns dois anos antes, Frei Enedino pediu ao Frei Francisco Manuel de Oliveira, mais conhecido como Frei Chico, que na hora de sua morte ele rezasse o salmo 50(51) e o cântico de Nossa Senhora Magnificat (Lc 1,46-55). Por coincidência, o Frei Chico estava presente nos momentos da agonia de Frei Enedino. Ele se recordou e rezou em voz alta as duas orações. Frei Enedino entregou-se nas mãos de Deus pouco antes do fim do Magnificat. Seu corpo foi levado para Paranavaí e sepultado no dia seguinte na cripta da Igreja São Sebastião.

Parodiando o inesquecível locutor Fiori Gigliotti digo: “Frei Enedino não pode ser esquecido. Ele merece ser lembrado. Frei Enedino ficará por todo o sempre incrustado na ternura e sinceridade do nosso cantinho da saudade!”

Obrigado, Frei Enedino, pelo exemplo e testemunho!

 

Dom Frei Wilmar Santin, O.Carm.

Itaituba, abril de 2021.


terça-feira, 16 de março de 2021

TOBY


TOBY

 

Wilmar Santin

 

O nome Toby, cuja origem é hebraica, significa “agradável a Deus” ou “Deus é bom”. Toby e Tobit são duas variantes do nome Tobias, personagem que dá nome a um dos livros da Bíblia. O nome também se relaciona com a palavra árabe ṭāba, que significa “agradável aos sentidos”.

Mesmo que não pretenda, desta vez, falar ou refletir sobre o personagem bíblico, que foi acompanhado pelo arcanjo Rafael em sua longa viagem, recordo que o livro de Tobias é um dos sete livros deuterocanônicos da Bíblia. É um texto belíssimo e gostoso de ler. É ali que se encontra a regra de ouro em sua forma negativa: “Não faças a ninguém o que não queres que te façam” (Tb 4,15). Jesus propõe essa regra em forma positiva e exigente: “Tudo quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o vós a eles” (Mt 7,12). 

Quando escuto o nome Toby, imediatamente me lembro de um jogador de futebol dos anos 1980-1990. Toby era o apelido do paranaense Dorival Mateus da Costa, nascido em Uraí, uma cidadezinha com pouco mais de 10.000 habitantes. Ele foi bom de bola, tanto é que jogou em grandes times do Brasil, como Coritiba e Cruzeiro. Era excepcional jogando no meio-campo. Dizia-se que era muito dado à bebida, por isso decaiu e jogou em vários times de menor expressão. Faleceu em 2015, aos 53 anos. Embora eu sempre me lembre dele como um grande jogador e como campeão brasileiro, em 1985, pelo Coritiba Football Club, não é este o Toby da minha narrativa.

Há outro bom jogador de futebol chamado Toby, que jogou na seleção belga. Ele atuou contra o Brasil na Copa do Mundo de 2018, quando a seleção canarinha foi derrotada por 2 a 1 e deu adeus àquela Copa. Na escalação oficial do time da Bélgica não apareceu o nome Toby, e sim seu sobrenome Alderweireld, porque é costume chamar pelo nome da família. Seu nome completo é Tobias Albertine Maurits Alderweireld e, na época, jogava como zagueiro do Tottenham Hotspur, da Inglaterra. 

Mas Toby famoso não é só jogador de futebol: há um cantor e “rapper” chamado Toby McKeehan. Ele é norte-americano e ligado à banda de “rap” e rock cristão chamada DC Talk. Como não sou chegado a este tipo de música, em nada me atrai discorrer sobre este Toby. 

A memória me apresenta ainda muitos outros Tobys, mas vamos parar por aqui para não cansar. Sem mais delongas, vamos para o Toby da história que quero contar. Não é pessoa alguma, e sim um cachorro vira-lata. Isso mesmo: um cachorro vira-lata. Ele é todo branco, normalmente está tristonho e vive deitado. Late muito pouco e, quando vê gente, balança o rabo e pula de alegria. Parece muito carente.

Mas, ao mencionar um cachorro vira-lata, me lembro da famosa crônica de Nelson Rodrigues “Complexo de vira-latas”, publicada na revista Manchete em 31 de maio de 1958, ou seja, na semana anterior ao início da Copa do Mundo em que o Brasil sagrou-se campeão mundial pela primeira vez. Eu não tinha ainda completado 6 anos, mas me lembro bem daquela Copa. Volta e meia os cronistas e comentaristas esportivos citam a famosa crônica. Mas o que vem a ser esse “Complexo de vira-latas”? O próprio Nelson responde: “Por "complexo de vira-latas" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo”. A conclusão daquela crônica não podia ser mais genial: “Eu vos digo: o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-lata e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão”.

Deixando o complexo de lado, retornemos à narrativa do vira-lata Toby. Necessitávamos de um cachorro para vigiar o Centro de Formação São José do Laranjal. Frei Romualdo me pediu para procurar um cachorro quando eu estivesse em visita pelo interior.

A ocasião surgiu na minha última ida a Castelo dos Sonhos, distrito de Altamira (PA), em agosto passado. Situado às margens da BR-163, o distrito está a mais de 1.000 km da sede do município. Isso é apenas uma das coisas absurdas que existem no Pará! A população local está tentando a emancipação, mas ainda deve passar muita água debaixo da ponte até Castelo dos Sonhos se tornar município. O motivo da viagem foi fazer linguiça, torresmo e “carne de lata”.

Tudo começou três anos atrás, quando fui almoçar na casa do Sr. Lauro Becker, um catarinense que morou em Manoel Ribas, Paraná, e que há vários anos reside no Pará. É ministro da Eucaristia e coordenador da Comunidade Nossa Senhora de Fátima da Paróquia Santo Antônio de Pádua de Castelo dos Sonhos. Antes do almoço, nos acomodamos na ampla área da casa e passamos a jogar conversa fora e a contar vantagens. O Maurício, filho do Lauro, começou a contar “causos” de caçadas e pescarias. Para brincar e provocar, comecei a contestar e dizer que tudo era conversa de caçador ou pescador, ou seja, invenção ou mentira. Ele contava muitas "estórias" de caçadas, sobretudo, de porcão (queixada) e caititu. Ele e seu cunhado, que também contava vantagem, entenderam as minhas brincadeiras e provocações e foram aumentando os fatos e feitos. Ríamos à vontade. Por fim chegamos ao assunto de fazer linguiça. Seu Lauro me convidou para irmos fazer em sua propriedade. Ele disse que tinha um porco "no jeito".

No dia seguinte, uma segunda-feira, fui até a propriedade da família Becker levado pelo Pe. Adenilson Alves Souza, pároco da Paróquia Santo Antônio. Fizemos 16 kg de linguiça.

Desde aquela época, cada vez que ia a Castelo, o Sr. Lauro sempre me perguntava quando voltaria para fazer linguiça novamente. Nunca dava certo, até que chegou a pandemia do coronavírus. Eu estava confinado em casa havia uns três meses sem sair. Fiquei sabendo que em Castelo dos Sonhos não tinha havido um caso sequer da Covid-19. Isso me animou a sair e ir até Castelo para fazer linguiça. Via WhatsApp, combinamos o dia.

Desta vez foi o Pe. João Pedro Pinheiro, pároco em Castelo dos Sonhos, quem me levou até a propriedade dos Becker. O estudante franciscano Frei Higor estava me acompanhando. Ele é mineiro de Betim e está fazendo estágio pastoral em Itaituba. Deve pesar pelo menos uns 130 kg, mas, como todo gordo, é muito simpático e alegre. Gosta de conversar e contar vantagens, sobretudo se for sobre a qualidade da cachaça mineira. Sempre fala com orgulho de ter aprendido muitas coisas com sua avó, principalmente em matéria de culinária. Entre as coisas de que se gaba, está a de saber fazer “carne de lata”. Sua avó lhe ensinou a técnica para a carne de porco ficar boa e não estragar na lata, bem como a banha não ficar rançosa. Para saber se a carne está no ponto, deve-se tirar com uma colher um pouco de banha e jogar no fogo. Se fervilhar, ainda não está no ponto. Somente quando a gordura se incendiar é que está na hora de tirar a carne do fogo e jogá-la na lata com a banha. A ciência consiste nisto: quando a banha jogada com a colher pega fogo, significa que já saiu toda a água da carne e também já evaporou da gordura. Daí ela não estraga, ou seja, não se torna rançosa. Coisa da culinária mineira!

O Sr. Lauro tem uma grande cachorrada. Pedi um filhote e ele me ofereceu um vira-lata. Era muito manso. Segundo o dono, o bicho logo ficaria bravo e se tornaria um excelente caçador. Não botei muita fé, mas fiz de conta que acreditava. Algo não me entusiasmava naquele cão. Achei-o muito triste e parado. 

Mas por falar em cachorro de caça, como não recordar dois cachorros que havia no seminário de Graciosa? Um era um pastor-alemão chamado Conny, e o outro, um paqueirinho chamado Laique. 

O Conny ficou muito manso. Pudera! Éramos 75 meninos e adolescentes brincando com ele. Cismei de levá-lo a caçar lagarto. Todos me gozavam e diziam que um pastor-alemão não serve para caçar. Mas tenho muitas histórias para provar que ele virou caçador de lagarto. Vou contar apenas duas, por serem um pouco cômicas. 

O fato aconteceu no início de sua atividade como caçador. Todos me cobravam: “Quando o Conny vai pegar o primeiro lagarto?” Eu só respondia: “Vai chegar o dia”. O dia chegou. Era uma tarde ensolarada e o Conny farejou algo num barranco perto do campo de futebol. Eu não duvidei do seu faro. Por isso, busquei uma pá para cavar. Todos me gozavam e me diziam que eu estava perdendo tempo. Um dos bons amigos, chamado Hélio, era quem mais me provocava dizendo: “Se aí tiver um lagarto e o Conny pegar, eu asso no dedo”. Finalmente chegamos onde estava o lagarto e o Conny deu-lhe uma abocanhada e saiu correndo levando o lagarto. Todos nós corremos atrás. Já dentro do pátio do seminário alguém conseguiu agarrar o Conny. O lagarto era um filhote. Quando eu disse para o Hélio: “Agora você vai ter que assá-lo no dedo”, ele na tampa respondeu: “Eu disse que assaria no dedo se fosse um lagarto, mas isso aí é uma lagartixa!” 

Em outra ocasião, logo após o almoço, saímos para caçar lagarto. Nossas armas eram cacetes e o Conny. O sol estava escaldante, ou seja, propício para os lagartos saírem das tocas. Logo vi um rastro bem fresco de um lagarto que tinha entrado no oco de um pau. Sentenciei: “Ele está aqui dentro!” Alguém buscou um machado e começamos a cortar o toco. De repente, o lagarto saltou para fora e correu em direção ao Irineu. O Conny disparou atrás e quando ia abocanhá-lo, o Irineu deu uma paulada, porém não acertou o lagarto, e sim o cachorro.

Há um outro causo com o Conny. Certo dia, enquanto tomávamos café, escutamos uma gritaria na cozinha. Parecia que alguém estava morrendo. As cozinheiras gritavam apavoradas diante de um pequeno ouriço que tinha entrado lá. Corremos para ver o que estava acontecendo. A cadelinha Chule estava com um espinho no nariz e o Conny com a boca totalmente cheia de espinhos do ouriço. Tirar os espinhos da boca do cachorro foi muito difícil e só foi possível usando um alicate. Creio que o Conny deve ter aprendido a nunca mais abocanhar um ouriço.

Retornando ao vira-lata Toby, nos três primeiros meses ele nos deu muito trabalho. Estava cheio de pulgas e com muitos vermes. Além disso, estava infestado de bicho-de-pé e carrapatos. Por isso, vivia deitado. Seus pés deviam doer quando caminhava. Foram-lhe aplicadas todas as vacinas necessárias, bem como foram dados vermífugos e outras coisas para acabar com as pulgas, bicho-de-pé e carrapatos. Aos poucos foi ficando mais alegre e ativo. Por fim, foi levado para o Laranjal. Pouco tempo depois, estava novamente cheio de pulgas, bicho-de-pé e carrapatos. Novas aplicações foram feitas! Agora ele está bom, mas, como o Conny, manso demais para ser um cão de guarda.

Mesmo não servindo para ser um cão de guarda, não foi descartado, mas levado para o Centro de Formação São José. Ultimamente apareceu por lá um porquinho e os dois viraram muito amigos. Passam o dia inteiro brincando. É bonito ver a amizade entre os dois. É como diz Antoine de Saint-Exupéry no livro “Terra dos Homens”: “Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo”.

Perguntei ao frei Romualdo sobre o porquê de ter colocado o nome de Toby no cachorro. Ele disse que não queria colocar um nome comum, mas sim algo diferente. Por isso, ficou pensando e repassando possíveis nomes pela memória. De repente, surgiu o nome Toby, que lhe agradou. Buscou na internet o significado e viu que era “agradável a Deus” ou “Deus é bom”. Decidiu na hora que o nome seria Toby.


Dezembro de 2020.


Tenho medo de tomar vacina

 



Tenho medo de tomar vacina

 

Sempre tive medo de tomar injeção e o pior é que continuo tendo. Compartilho aqui algumas das minhas experiências ao tomar vacinas no tempo de criança e adolescência. Mas antes, farei algumas considerações sobre o momento atual e a polêmica sobre a vacina contra a Covid-19.

O ano de 2020 foi um ano atípico e bem diferente dos outros devido à pandemia da Covid-19. Botou o mundo de joelhos! As grandes e ricas nações tiveram que se curvar diante do vírus chamado coronavírus Sars-CoV-2, que significa “síndrome respiratória aguda grave – coronavírus 2″. Este novo coronavírus ceifou muitas vidas e vai continuar ceifando enquanto não se vacinar toda a população mundial. No momento em que estou escrevendo, só no Brasil são mais de 210.000 mortes! Já perdi amigos e conhecidos infectados por este terrível vírus.

A minha impressão é de que no Brasil houve mais polêmicas a respeito da pandemia do que em outros países. Desde o início, o Governo Federal marchou na contramão. Classificou a Covid-19 como uma gripezinha, não tomou as mesmas medidas realizadas nos outros países, debochou da ciência e das recomendações dos cientistas, incentivou as aglomerações, falou contra o uso de máscaras, desautorizou dois Ministros da Saúde, que tiveram que pedir o boné e voltar para casa. Colocou no lugar um general da ativa - que pode entender de logística militar, mas não entende de políticas públicas de saúde. Brigou com governadores e prefeitos que estavam executando as recomendações científicas e medidas adotadas nos países chamados de Primeiro Mundo. RESULTADO: Muita gente se convenceu de que a Covid-19 era uma simples macacoa e que as notícias de infecções e mortes eram invenções da Globo. Surgiram (e continuam surgindo) muitas notícias falsas, as tais fake news, publicadas nas redes sociais e veiculadas sobretudo em vídeos. A consequência disso é que temos um número muito maior de mortos.

Nas últimas décadas o Brasil tem sido um exemplo no que tange à vacinação em geral. Muitas doenças, como a varíola e a poliomielite, desapareceram. O último caso registrado da varíola foi em abril de 1971 e da poliomielite em 1989. Mas no caso da vacinação contra a Covid-19 o país está tendo uma atitude vergonhosa e se tornando motivo de chacota mundial.

Há um texto do Dr. Luiz Ayrton sobre o protagonismo do Dr. Waldyr Mendes Arcoverde na vacinação no Brasil. Fui um grande amigo do Dr. José Mendes Arcoverde, irmão mais velho do Dr. Waldyr, e assim tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Como o texto é bom e ilustrativo, resolvi colocá-lo aqui.

“Não se pode falar de vacina sem lembrar de Waldyr Mendes Arcoverde. Esse médico piauiense de Amarante foi o mais longevo Ministro da Saúde que o Brasil já teve. Seu mandato durou exatos 1.962 dias (1979-1985) no Governo do Pres. Figueiredo. Dr. Waldyr lutou pela interiorização das ações básicas de saúde chegando até aos mais pobres da população quando não havia ainda o SUS e foi protagonista da campanha nacional de vacinação ambiciosa contra a poliomielite em 1980 que serviu de base pra outras campanhas nacionais até os dias de hoje, exemplos para o mundo. Na época recebeu críticas até de autoridades mundiais como o Prof. Albert Sabin, mas enfrentou a todos, implementando no país as raízes das grandes campanhas brasileiras de imunização e proteção de crianças, garantindo mais saúde para gerações e gerações de brasileiros. Foi inicialmente Secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, presidente do INPS e, trabalhando na SUCAM, deu origem à Fundação Nacional de Saúde onde foi seu presidente. Lutou contra a abreugrafia pois considerava um método falho de diagnóstico da tuberculose colaborando para o seu fim. Depois de Ministro foi trabalhar na OPAS representando nosso país. Seu irmão Dirceu foi governador e senador pelo Piauí. Em sua homenagem, teve um filho também chamado Dirceu que casou com uma filha do Ministro Francisco Rezek. Quando soube de sua morte aos 85 anos em 2017, eu estava numa Assembleia das ONGs brasileiras de luta contra o câncer e, por solicitação minha, houve um minuto de silêncio e o registro em Ata daquele triste dia para a saúde brasileira. O Dr. Waldyr tem uma história grandiosa por tudo isso” (Dr. Luiz Ayrton).

Mais de 50 países começaram a vacinar já em dezembro passado. No Brasil o assunto foi politizado com divergências graves entre o governo federal e os estaduais. Não se pode deixar de mencionar a rixa pessoal entre Bolsonaro e Dória. Ficou-se discutindo sobre de quem seria a competência para se adquirir as vacinas e sobre qual vacina se devia adotar. Por isso as vacinas não foram encomendadas quando oferecidas. Só a Pfizer, em agosto de 2020, ofereceu ao Brasil 70 milhões de vacinas contra a Covid-19 e as doses estariam disponíveis já em dezembro, mas o governo adiou a compra. Houve também o problema da falta de seringas e agulhas. Vergonhosamente o Ministro da Saúde não sabia quando começaria a vacinação e só “enrolava”. A ANVISA demorou para se pronunciar e autorizar o uso das vacinas. O Estado de São Paulo, no dia 17 de janeiro, saiu na frente usando a CoronaVac (vacina chinesa que contou com a participação do Instituto Butantan). Outras vacinas como AstraZeneca (Oxford com participação da Fiocruz), Pfizer e Sputnik (Rússia) estão à espera da aprovação da ANVISA.

Antes das vacinas serem encomendadas começaram as fake news contra a vacinação para desinformar o público e criar confusão na cabeça das pessoas. Há quem diga que essa ação foi orquestrada pelo chamado “gabinete do ódio”. Afirmações das mais absurdas possíveis sobre a vacina foram enviadas às redes sociais, como por exemplo: que a vacina iria modificar o DNA das pessoas ou que junto com a vacina seria introduzido um chip para controlar as pessoas ou que Vacinas da covid-19 contêm a enzima luciferase, que está associada a Lúcifer”. O próprio presidente chegou a insinuar que quem tomar a vacina poderia virar jacaré. Sua frase foi: se você virar um jacaré, é problema seu”. Não sei se o presidente queria debochar ou fazer uma chalaça, o certo é que pegou mal e virou uma chacota mundial com uma enxurrada de memes.

Não foram poucas as críticas à logística na distribuição inicial das vacinas. O Ministro da Saúde, que foi colocado justamente por ser um general especialista em logística, mostrou uma incompetência sem tamanho. Como já mencionado acima, as vacinas não foram encomendadas tempestivamente e agora fica mais difícil recebê-las logo. Há quem diga que por isso a vacinação vai se arrastar até 2022.

Deve ser mencionada a polêmica sobre se o Estado pode ou não obrigar os cidadãos a tomarem a vacina contra a Covid-19. Há os que dizem que sim e os que dizem que não. Quem está com a razão? Já existe lei que obriga os pais a vacinarem os filhos contra certas doenças e que cada criança tenha a sua carteirinha de vacina. Durante os anos 1960-70 todos eram vacinados contra a varíola. Nas décadas de 1970-90, quem fosse para Rondônia não entrava naquele estado se não fosse vacinado contra a febre amarela. Só por estes exemplos, já dá para se ter a certeza de que o Estado pode obrigar a vacinação de todos os seus cidadãos. O Papa Francisco se pronunciou pró vacinação. Seu argumento é simples e direto: Eticamente todos devem ser vacinados. Não é uma opção se serve ou não serve. É uma opção ética, porque você não só põe em risco a sua saúde, a sua vida, mas também a dos outros". Portanto, vacinar ou não vacinar não é só uma questão pessoal, mas também coletiva.

Neste contexto informo que em 1740, portanto 281 anos atrás, o missionário carmelita frei José da Madalena vacinou os indígenas contra a varíola em Barcelos, Amazonas, salvando assim muitas vidas (Cf. Revista do IHGB. Tomo XLVIII, p. 29). Como ele vacinou? Tomava o pus de um doente de varíola e o injetava na pessoa sadia. O pus com o vírus morto ou moribundo provocava a formação de anticorpos. O máximo que acontecia era pegar a doença de maneira fraca sem o perigo de morte. Naqueles tempos não havia propaganda contra a vacinação, como hoje.

Eu, pessoalmente, sempre tive medo de injeção. No passado tinha verdadeiro pavor. Sempre que pude, fugi das vacinações. Até hoje, por exemplo: não tomo vacina contra a gripe, porque acho que não preciso devido à minha boa resistência. No entanto, o motivo de fundo é o medo da agulha que deve me furar. Todo ano faço um check-up de saúde e por isso invariavelmente tenho que tirar sangue. Nestas ocasiões, para encontrar uma veia é sempre uma grande dificuldade devido ao meu medo da agulhada. Porém, contra a Covid-19 irei tomá-la. O Papa Francisco tomou a vacina e para mim é um exemplo. Admiro demais esse Papa em todos os sentidos. Louvo e agradeço a Deus diariamente por termos um Papa tão iluminado pelo Espírito Santo.



Consultando a minha memória a respeito de vacinas, a mais antiga que me recordo foi contra o tifo. Foi lá pelos anos 1960-62 no Posto de Saúde de Nova Londrina. Todos deviam tomar três doses com um intervalo de três dias entre uma dose e outra, se não me engano. Eu nunca tinha ouvido falar desta doença. Escapei o quanto eu pude. O único argumento que me fez tomá-la foi: “Se você pegar o tifo, você morre! Não tem cura!” O medo de morrer foi maior do que o pavor da agulhada. A vacina era aplicada na parte interna do antebraço e provocava como consequência, além da dor, um bom inchaço. No dia de tomar a segunda dose não fui. Novamente o argumento infalível: “Se você pegar o tifo você morre! Não tem cura! E uma dose só não ajuda.” Dia seguinte fui. Para a terceira dose o argumento foi: “Tome a última e você ficará imunizado pra sempre. Um pouquinho de dor agora é melhor do que morrer”. Até hoje quando recordo daquela vacinação, fico arrepiado.

Fui vacinado várias vezes contra o tétano. No tempo de criança fiquei sabendo da morte de algumas pessoas causadas pelo tétano. Isso criava um medo de morrer de tétano. Por isso, eu a tomei. Depois para poder participar do Projeto Rondon, uma das exigências era tomar algumas vacinas, entre as quais  contra o tétano e a febre amarela. A sorte é que estas vacinas têm validade por 10 anos.


Nos anos 1960-70, era obrigatório todos serem vacinados contra a varíola e a vacinação foi feita várias vezes. Cada vez, um modo diferente para aplicá-la. De tempos em tempos, uma vacinação em massa. Começou com injeção, depois dois risquinhos com uma agulha no braço e aplicava-se a vacina. Depois, passou a ser aplicada com uma pistola de pressão: encostava-se a pistola e disparava a vacina. Não dava nem tempo de gritar e já estava vacinado. Quem já tinha sido vacinado, devia ser vacinado de novo. A vacina sempre provocava alguma reação e até mesmo febre, mas a principal era uma pequena inflamação no local, criava uma casca de ferida e ficava a cicatriz. Eu ainda tenho a marca desta vacina. Recordo perfeitamente que em 1967 houve no seminário vacinação para os seminaristas. Eu fugi e me escondi no banheiro. Não adiantou! Como a vacinação seguia a lista de cada sala de estudo, quando viram que eu não apareci, os padres colocaram todos os seminaristas para me procurar. Claro que me acharam. Depois por muito tempo me gozaram e me chamaram de “cagão”. Foi um verdadeiro bullying, mas não guardo mágoas ou trauma daquelas gozações que até me ajudam. Aquela experiência marcou um começo de mudança. Percebi que eu devia enfrentar o medo da agulhada. Até hoje não consegui vencer o medo, mas já não sou mais tão “cagão” como antes. Se tiver que tomar uma agulhada, mesmo com certo medo, tomo. Aquela vacinação contra a varíola, repetidas vezes, resolveu o problema no Brasil, tanto é que o último caso foi em 1971, como dito acima.

Outra vacina que tomei mais de uma vez foi contra a febre amarela. Tenho uma vaga lembrança de tê-la tomado na infância, mas recordo perfeitamente que foi necessária para participar do Projeto Rondon, sendo a última, em Itaituba em 2012. No próximo ano terei que tomá-la de novo.

A minha esperança é de que as vacinas contra Covid-19 funcionem e a pandemia acabe o quanto antes. Oxalá que esta pandemia não fique apenas nos mortos e no sofrimento das famílias que perderam entes queridos, mas que ajude também para que as pessoas meditem sobre o sentido da vida. Reflitam sobre o relacionamento humano e sobre como tornar o mundo mais fraterno e unido para resolver os problemas da humanidade, sobretudo da fome, da guerra, das migrações e das intolerâncias religiosas e raciais.

Para concluir e dar esperança a quem ler este texto, cito uns versículos bíblicos: “Somos atribulados de todos os lados, mas não vencidos pela angústia; postos em apuros, mas não desesperançados; perseguidos, mas não desamparados; derrubados, mas não aniquilados; por toda a parte e sempre levamos em nosso corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa existência mortal. Assim, a morte atua em nós, enquanto a vida atua em vós (2Cor 4,8-12).

Wilmar Santin

Janeiro de 2021.

segunda-feira, 15 de março de 2021

A Regra do Carmo

  

A Regra do Carmo

 

A Regra dos Carmelitas foi aprovada definitivamente pelo Papa Inocêncio IV o dia 1º de Outubro de 1247.

Uma cópia do texto latino da Regra do Carmo no Arquivo Secreto Vaticano (Reg. Vat. 21,465v-466r).

Tradução portuguesa

(A numeração não faz parte do texto. Serve para se fazer uma citação. Esta é a numeração unificada e aprovada pelos Conselhos Gerais O.Carm. e OCD)

 

Alberto, chamado pela graça de Deus a ser Patriarca da Igreja de Jerusalém, aos amados filhos em Cristo B. e demais eremitas que vivem sob a sua obediência perto da Fonte, no Monte Carmelo, saudações no Senhor e a benção do Espírito Santo.

Muitas vezes e de diversas maneiras os Santos Padres estabeleceram como cada um - qualquer que seja o estado de vida a que pertença ou a forma de vida que tenha escolhido - deve viver no obséquio de Jesus Cristo e servi-lo fielmente com coração puro e reta consciência.

Mas, uma vez que nos pedis que vos demos uma fórmula de vida de acordo com o vosso projeto comum e à qual deveis permanecer fiéis no futuro:

Estabelecemos, primeiramente, que tenhais um de vós como Prior, que seja eleito para esta tarefa com o consenso unânime de todos ou, ao menos, da parte mais numerosa e madura. A ele prometerão obediência todos os demais e se preocuparão em manter esta promessa com suas obras, juntamente como a castidade e a renúncia à propriedade.

Podeis fixar vossos lugares de morada nos ermos ou onde vos oferecerem lugares adequados e convenientes ao vosso modo de vida religiosa, conforme parecer oportuno ao Prior e aos Irmãos.

Além disso, levada em conta a situação do lugar em que tenhais decidido estabelecer-vos, cada um de vós tenha sua própria cela separada, conforme a designação do Prior, com a anuência dos outros Irmãos ou da parte mais madura.

Cumpra-se isto, porém, de modo que possais alimentar-vos em um refeitório comum, com aquilo que vos for repartido, escutando juntos alguma passagem da Sagrada Escritura, desde que isto se possa realizar sem dificuldade.

E a nenhum dos Irmãos será permitido, a não ser com licença do Prior em exercício, mudar do lugar que lhe for assinalado ou trocá-lo com um outro.

A cela do Prior se situe perto da entrada do lugar de moradia, para que ele seja o primeiro a recepcionar os que aí chegarem; e depois, em tudo que for mister fazer-se, proceda-se consoante seu julgamento e sua decisão.

10 Permaneça cada um em sua cela ou em sua vizinhança, meditando dia e noite na lei do Senhor e velando na oração, a não ser que deva ocupar-se em outros afazeres justificados.

11 Aqueles que sabem recitar as horas canônicas com os clérigos, devem rezá-las conforme estabeleceram os Santos Padres e os legítimos costumes da Igreja. Por outro lado, os que não sabem, digam vinte e cinco pai-nossos durante a oração de vigília, exceto nos domingos e dias festivos, nos quais determinamos que - na oração de vigília - se duplique o mencionado numero, de modo que o pai-nosso seja repetido cinqüenta vezes. A mesma oração deve ser rezada sete vezes nas Laudes da manhã e em cada uma das outras horas, com exceção de Vésperas, quando se deverá dize-la quinze vezes.

12 Nenhum Irmão diga que alguma coisa é de sua propriedade, mas tudo seja tido em comum por vós, e se distribua a cada um conforme a necessidade, por meio do Prior, isto é, através do Irmão por ele indicado para esta tarefa, levando em conta a idade e as necessidades individuais.

13 Na medida em que vossas situações o requererem, podereis ter asnos ou mulos e alguma criação de animais ou aves.

14 O oratório seja construído no meio das celas, se se puder fazê-lo com uma certa comodidade, e ali vos reunireis todos os dias pela manhã para participar da celebração eucarística, quando as circunstâncias o permitirem.

15 Assim também nos domingos ou em outros dias se for necessário, reuni-vos para tratar da observância na vida comunitária e do bem espiritual das pessoas. Nesta ocasião, corrijam-se com caridade as transgressões e as culpas que forem encontradas em algum dos Irmãos.

16 Da festa da Exaltação da Santa Cruz até o domingo da Ressurreição do Senhor, exceto os domingos, jejuareis todos os dias, a não ser que uma enfermidade ou uma fraqueza corporal ou outro justo motivo aconselhem a dispensa do jejum, pois a necessidade não tem lei.

17 Abstende-vos de comer carne, a não ser que se deva tomar como remédio em caso de doença ou de fraqueza física. E visto que, por razão de viagens, acontece com freqüência deverdes mendigar o sustento, para não ser um peso a quem vos hospeda, podereis comer fora de vossas casas alimentos preparados com carne. Em caso de viagens por mar, podeis também servir-vos de carne.

18 Por ser a vida do homem sobre a terra um tempo de tentação e todos que pretenderem levar uma vida fiel a Cristo se vêem sujeitos à perseguição, e ademais como o diabo vosso adversário vos rodeia como um leão que ruge, buscando a quem devorar: com toda solicitude empenhai-vos por revestir-vos da armadura de Deus a fim de poderdes resistir às insídias do inimigo.

19 Cingi os vossos rins com o cíngulo da castidade; fortalecei o vosso peito com pensamentos santos, visto estar escrito: o pensamento santo vos guardará. Revesti-vos da couraça da justiça , para poderdes amar o Senhor vosso Deus de todo o coração, de toda a mente e de todas as forças e ao vosso próximo como a vós mesmos. Empunhai sempre o escudo da fé e com ele podereis apagar todos os dardos ardentes do maligno;: com efeito, sem fé é impossível agradar a Deus. Cobri vossa cabeça com o elmo da salvação , de maneira a esperardes a salvação do único Salvador: será ele que libertará o povo dos seus pecados. Enfim, a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus, permaneça com toda sua riqueza em vossos lábios e em vossos corações. E tudo aquilo que deveis fazer, que seja de acordo com a Palavra do Senhor.

20 Deveis ocupar-vos com algum trabalho, para que o diabo vos encontre sempre em atividade e não aconteça que, por motivo de ociosidade vossa, ele possa insinuar-se em vossas almas. Para isto, tendes o ensinamento e o exemplo do apóstolo São Paulo, por cuja boca falava Cristo, e que foi constituído e dado por Deus como pregador e mestre dos gentios na fé e na verdade: seguindo-o, não podereis errar. Vivemos entre vós - diz ele - no esforço e na fadiga, de noite e de dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito (a ser mantidos); mas foi para vos dar exemplo a ser imitado. Quando estávamos entre vós, repetíamos com insistência: quem não quer trabalhar, também não há de comer. Ouvimos dizer que alguns de vós não trabalham e andam à toa de cá para lá. A estas pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem sem conversas inúteis para ganhar o próprio pão. Este caminho é bom e santo: andai nele.

21 O Apóstolo recomenda o silêncio, quando ordena que se trabalhe calado; do mesmo modo também o profeta afirma: o silêncio favorece a justiça; e ainda: na tranqüilidade e na esperança está a vossa força. Por isso estabelecemos que, concluídas as Completas, conserveis o silêncio até o fim da oração da Prima do dia seguinte. Fora deste tempo, embora não esteja prescrita uma observância rigorosa do silêncio, cumpre precaver-se do excesso de conversa. Porque, como está escrito - e a experiência o comprova largamente -, no muito falar não faltará pecado; e quem não se controla no falar, acaba por se arruinar. Igualmente, o que fala em demasia prejudica a si mesmo. E diz ainda o Senhor no Evangelho: de toda palavra inútil proferida pelos homens, prestarão contas no dia do juízo. Cada um de vós, portanto, pondere suas palavras e refreie sua língua, para não resvalar e cair em razão da sua língua, e sua queda não se tome incurável e mortal. Vigie sobre a sua conduta para não pecar com suas palavras, como diz o profeta; e cuide atentamente e prudentemente de manter aquele silêncio que favorece a justiça.

22 Tu, Irmão B.,e quem quer que depois de ti for nomeado Prior, conserva sempre em mente e põe em prática o que o Senhor diz no Evangelho: quem deseja ser o maior entre vós, seja vosso servidor; e quem deseja ser o primeiro dentre vós, seja vosso escravo.

23 E vós Irmãos, honrai humildemente o vosso Prior, pensando, mais do que em sua pessoa, em Cristo, que o pôs acima de vós e que disse aos responsáveis das Igrejas: quem vos escuta, a mim escuta; quem vos despreza, a mim despreza. Assim não vos tornareis réus de juízo pelo desprezo, mas merecedores, pela obediência, do prêmio da vida eterna.

24 Estas poucas indicações as escrevemos brevemente, com o fim de estabelecer para vós a fórmula de vida, segundo a qual regulareis a vossa conduta. Se alguém estiver disposto a fazer mais, o Senhor mesmo, quando voltar, o recompensará. Aja-se, contudo, com discrição, que é a moderadora das virtudes.

 

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